I. OS ENCANTOS DA PAISAGEM DE SUPERAGUI
1.1 DESLUMBRES SOBRE A ÁREA DE ESTUDO
1.1.3 Deslumbramento sobre a paisagem de Barbado
Chegamos à comunidade de Barbado à noite e, de início, o que nos impressionou foram alguns pontos de luzes, pois não existe rede de energia elétrica nessas comunidades. A luz em algumas casas era fornecida por gerador à base de diesel da casa do Senhor Lopes Michaud (68 anos), o dono do único restaurante da comunidade e de toda a região. Foi ele quem nos recebeu e orientou para que deixássemos nossa canoa em seu “porto” (pequena recuo na margem da baía) na frente de sua moradia. Nos reunimos ainda de noite, pois havia luz na cozinha de fogo e a conversa não se alongou, pois o Senhor Lopes e sua esposa, Dona Cesarina (53 anos), precisavam acordar cedo para pescar. Era noite de lua cheia, o que tornava a atmosfera do lugar mais mística e encantadora, inspirando-nos a uma pequena caminhada por entre as rochas e a contemplação das estrelas ao som do vento soprando pelas árvores. Extremamente cansados, dormimos no chão da cozinha de fogo. Nem mesmo o cheiro da fumaça e a ardência nos olhos nos impediram de ter uma bela noite de sono. Na manhã seguinte, a percepção sobre o lugar foi dominada por um sentimento de encantamento.
Caminhamos com cuidado pelas trilhas para não tropeçar nas enormes raízes expostas das árvores e partes de rochas. Durante o caminho, víamos as casas escondidas entre as árvores e outras em meio às rochas, ficando quase imperceptíveis para quem navega pela baía. Num terreno bem irregular e em declive acentuado, as casas foram sendo construídas em diferentes níveis. Do alto da encosta, podemos ver os telhados das casas em escalonamento e uma linda vista da baía. Assim como em outras comunidades, as casas são de madeira, com as mesmas compartimentações.
A comunidade de Barbado diferencia-se das outras em vários aspectos, a começar pelo tempo de existência que é entorno de 156 anos. Vivem nessa comunidade 28 famílias, que somam 78 pessoas, mas com o nascimento de mais duas crianças até o final do ano de 2010 a população total, atualmente, está com 80 habitantes. O tronco familiar principal descende do primeiro habitante do local, o suíço William Michaud (1829-1902) que se instalou em Barbado no ano de 1854.
Para iniciarmos nosso reconhecimento, procuramos pela pessoa com maior idade, nascida em Barbado e descendente desse pioneiro.
Sem dificuldades, encontramos Dona Flozina (81 anos), que se diz orgulhosa em ser tataraneta de William Michaud (FIGURA 6). Com seus relatos, fragmentados, porém, lúcidos, conhecemos um pouco da história de Barbado.
Nossa primeira curiosidade era saber o porquê do nome da comunidade ser Barbado e ela nos explicou simplesmente “porque havia muitos bugios9”. Dona Flozina nos disse: “Gosto daqui porque não tem nada!” Para ela, o “nada” significava não se preocupar com a roupa que estava vestindo, poder andar descalça, ter muitas frutas no quintal da casa, poder andar no mato e cuidar de suas flores.
Dona Flozina na porta de sua casa
FIGURA 6 – DONA FLOZINA: TATARANETA DE WILLIAM MICHAUD FONTE: A autora (2008).
As flores foram o grande motivo de tamanho encantamento por essa comunidade. As mulheres exibem seus jardins numa verdadeira competição, decorando as janelas, beiral e quintais de suas casas. As flores se misturam em meio às ervas medicinais, intensificando o perfume por todos os cantos da comunidade. A delicadeza no cuidado com as flores se personifica nos gestos das mulheres dessa comunidade (FIGURAS 7, 8 e 9).
9 O macaco bugio também é conhecido por guariba, barbado ou macaco-uivador. (FERREIRA, A. B.
de H. Novo dicionário Aurélio de língua portuguesa. 4 ed. Curitiba: Positivo, 2009).
FIGURA 7 – FLORES DA CASA DE DONA CESARINA FONTE: A autora (2008).
FIGURA 8 – FLORES DA CASA DE DONA FLOZINA FONTE: A autora (2009).
FIGURA 9 – FLORES DA CASA DE DONA LUCIENE FONTE: A autora (2010).
Em Barbado, além do restaurante do Senhor Lopes, há uma igreja, uma mercearia, uma escola rural que atende também as crianças de comunidades vizinhas e uma cozinha comunitária (FIGURAS 10, 11 e 12). Na comunidade, existem duas associações: a Associação de Moradores (criada há aproximadamente 10 anos), sendo atualmente presidida pelo Senhor Antonio Custódio, e a Associação das Mulheres (informal) organizada recentemente e liderada pela Dona Celi. Ambas as Associações utilizam o espaço da cozinha comunitária para realizar as reuniões.
A Associação de Moradores foi criada, principalmente, com o objetivo de terem uma representação jurídica para defender o direito à posse da terra, tendo em vista os conflitos territoriais para a desapropriação da área. E a Associação das Mulheres foi a forma encontrada pelas mulheres para se organizarem coletivamente e atenderem a demanda em gastronomia e artesanato com o frequente aparecimento de turistas na comunidade. A cozinha comunitária, inaugurada em 2009, foi uma iniciativa do Estado para promover novas alternativas de geração de renda. Técnicos do Estado ministraram alguns cursos de capacitação em gastronomia e artesanato para as mulheres da comunidade.
A única escola da comunidade, a Escola Rural Municipal de Barbado, possui 16 alunos regularmente matriculados e uma professora, a filha do Senhor Lopes, Rosália (38 anos). O sistema de ensino é multisserial (até a 4ª série) e a professora se esforça numa sala de aula, em condições precárias, para ensinar as crianças minimamente a ler e a escrever. Uma das dificuldades enfrentadas pela comunidade é a falta de apoio do Poder Público municipal para fornecer transporte escolar para as crianças poderem concluir o Ensino Fundamental em outras comunidades. Pela ausência de meios de transporte e pela indisponibilidade para manter os filhos na cidade, muitos pais não visualizam grandes perspectivas para as crianças além do casamento.
A professora Rosália acredita que com a conclusão de seu curso superior em Pedagogia possa contribuir para a implantação do Ensino Fundamental na comunidade. Sua filha, Janice, de 12 anos está morando com parentes em Paranaguá para continuar os estudos. Apesar da falta de recursos materiais e financeiros, a professora usa criatividade e improvisos para não deixar as crianças sem aula. Desabafa que por mais difícil que as coisas se apresentem seu maior desejo é continuar ministrando suas aulas naquela escola até o fim de sua vida.
FIGURA 10 – RESTAURANTE DO SENHOR LOPES FONTE: A autora (2008).
FIGURA 11 – ESCOLA RURAL MUNICIPAL DE BARBADO FONTE: A autora (2010).
FIGURA 12 – IGREJA DA COMUNIDADE DE BARBADO FONTE: A autora (2010).
A igreja da comunidade abre as portas para o culto oficial, somente aos domingos, porque o padre vive em outra comunidade. Contudo, regularmente, uma vez por semana a professora Rosália reúne alguns fiéis na igreja e lê trechos da Bíblia. O surgimento das igrejas nas comunidades nas últimas décadas intensificou o processo de aculturação, pois as práticas de curandeirismo foram proibidas, a realização de festas típicas ao som de fandango e o acompanhamento do pré-natal das mulheres nas casas de parto. Hoje, as mulheres realizam o pré-natal na cidade e, quando conseguem chegar a tempo, realizam seus partos nos hospitais. É comum as mulheres não aguentarem três horas de viagem e terem seus filhos no próprio barco. Até pouco tempo, as curandeiras ainda praticavam a cura natural e as parteiras faziam o pré-natal e o parto na própria comunidade. Segundo a professora Rosália, as curandeiras não estão repassando seus conhecimentos por terem sido proibidas pela Igreja. Porém, mesmo que elas quisessem ensinar, não haveria a quem ensinar, pois os jovens, atualmente, demonstram falta de interesse nas lendas e crenças. Estão interessados nas tecnologias observadas nos turistas: celulares, máquinas fotográficas, filmadoras, roupas modernas... Assim, sob nossos olhos observamos a extinção de uma importante tradição. A curandeira da comunidade de Barbado, Dona Leontina, mesmo em situações de emergência, não pratica a cura natural, mas ao menos ensina como fazer os remédios para tal enfermidade.
O restaurante do Senhor Lopes (Natura) existe há oito anos e tem sido o principal local de recepção dos eventuais turistas. No alto da encosta, sua vista da baía encanta os turistas enquanto apreciam uma comida típica do lugar, essencialmente, à base de frutos do mar. Segundo Dona Flozina, no passado, a comida típica de Barbado era a “comida do mato”, à base de carne de paca, tatu e veado e, em menor proporção, peixes e ostras, além de muitos doces de banana, goiaba e abacaxi. Mas, com as proibições da prática da caça pelo Poder Público estadual10 foi declinando essa comida do mato para a comida do mar. Mesmo assim, existe um controle rigoroso na atividade da pesca, principalmente no período de defeso dos peixes – época de reprodução de 1º de novembro a 28 de fevereiro – sendo intensificadas as fiscalizações contra a pesca predatória.
Na comunidade de Barbado, as restrições ambientais desencadearam gradativamente transformações nos modos de vida da população e foram
10 IAP – Instituto Ambiental do Paraná e policiais do batalhão Polícia Ambiental Força Verde.
consolidando uma nova paisagem cultural. Observa-se a inserção de elementos indicadores da dinâmica da paisagem. Placas solares nos quintais das casas, gerador à base de diesel para fornecer energia elétrica, um refrigerador no restaurante, muitos celulares para se comunicar com outras comunidades ou simplesmente ver as horas, tomadas elétricas nas casas, rádio de comunicação, lanternas para andar à noite nas trilhas ou pescar, barcos a motor, algumas casas com banheiro em alvenaria e chuveiro elétrico e fogão a gás. Estes foram alguns dos indícios de constatação de uma população aculturada.
Com as restrições nas atividades de subsistência da pesca, caça e plantio, muitas famílias para sobreviverem optaram por migrar para outras comunidades e para os centros urbanos, como Paranaguá e Guaraqueçaba. Resta o turismo como principal alternativa de possível fonte de renda. Os próprios moradores instigam os visitantes a trazerem outros visitantes. Essa comunidade, assim como outras próximas, vem sendo aos poucos incluída nos roteiros de passeios de ecoturismo da região. Verifica-se de forma velada a transformação das casas dos pescadores em hospedagem para os turistas. Observa-se uma nova paisagem cultural sendo ressignificada pela inserção de novos elementos sígnicos. Nesse contexto de transformações na paisagem e renovações socioculturais, nas quais vemos os moradores lutando pela permanência na terra e perpetuação da família Michaud, desenvolvemos o respeito e o deslumbramento pela paisagem de Barbado.