Desmame precoce: em meio a crenças e mitos
O ato de desmamar precocemente, quando associado à visão romântica e biológica da amamentação, pode ser perce- bido como uma falta de “amor” maternal (BADINTER, 1985). Sobre esse aspecto, Carrascoza, Costa Júnior e Moraes (2005), em seu estudo, demonstram que, entre mães que amamenta- ram e aquelas que desmamaram, os sentimentos durante a amamentação eram os mesmos: alegria, prazer ou realização pessoal, e não eram esses sentimentos um fator relacionado à extensão do AM, mas outros fenômenos que o poderiam estar influenciando. Sob outro viés, os autores sugerem que as respostas possam se associar a uma certa aceitação social, tendo em vista a valorização do AM na sociedade, porém não expressavam com fidedignidade o sentimento materno nas mães que decidiram desmamar.
A amamentação, vista apenas a partir do seu aspecto biológico, reduz a mulher ao seu potencial de lactação, sem observar o complexo social e cultural que influencia a tomada de decisão de amamentar (SILVA; MOURA; SILVA, 2007). Isso dificulta a expressão dos sentimentos maternos em torno da amamentação, o que pode ser o fator desencadeante do des- mame precoce.
Por compreender a complexidade do contexto do des- mame precoce e a sua singularidade para a família e grupo social, identificaram-se os principais motivos relacionados ao desmame precoce. Esses motivos estiveram apoiados em
características do ambiente, da personalidade materna, das suas emoções, da relação com o marido e com a família, das influências culturais e na resposta materna aos diferentes problemas do cotidiano (FALEIROS; TREZZA; CARANDINA, 2006).
Os mitos e as crenças são aqueles que mais aparecem nos discursos das mães quando se referem ao motivo pelo qual fizeram o desmame precocemente, e refletem diretamente a necessidade não só de informações corretas, mas, sobretudo, de compreender a cultura de um povo, de um grupo e sua influência sobre os comportamentos relacionados à saúde (VAUCHER; DURMAN, 2005; ICHISATO; SHIMO, 2001).
Neste item, agrupamos aqueles motivos atribuídos pelas mães que estão relacionados a crenças e mitos e que conformam o sistema de valores e de compreensão do mundo. “Meu leite secou”, “Meu leite é fraco” ou “Meu leite não sustenta” figuram como alguns dos principais motivos atribuídos pelas mães para o desmame, de acordo com Osório e Queiroz (2007), Silva, Moura e Silva (2007), Vaucher e Durman (2005), Ramos e Almeida (2003), Escobar et al. (2002) e Ferreira et al. (2001).
É importante analisarmos que, quando uma mãe indica que a criança parou de mamar porque o leite era fraco e por ele não “sustentar” a criança, podemos inferir, como implí- cita nessa afirmação, a ideia de que: uma frequência elevada de solicitação da amamentação, em detrimento do período mais longo entre as refeições com alimentos industrializados, associada ao ganho de peso (crença de que criança saudável é criança “gorda”), e ainda o choro frequente e constante dos recém-nascidos apontam o leite materno como insuficiente para atender às necessidades nutricionais da criança, bem como a sua saciedade, se comparado ao leite industrializado.
Segundo Borges e Philippi (2003), a opinião materna de leite insuficiente reflete uma interpretação advinda do processo avaliativo que a mãe realiza no pós-parto sobre a sua capacidade de amamentar. Esses autores identificaram
que as mulheres afirmavam ter leite suficiente mediante alguns parâmetros, tais como: mamas cheias, leite saindo em grandes quantidades, com vazamento; e bebês tranquilos, felizes e sonolentos, após as mamadas. Ou seja, a percepção da quantidade suficiente dá-se ao observar o comportamento materno e o da criança. As mães que afirmavam ter leite sufi- ciente haviam introduzido leite artificial na alimentação da criança, demonstrando a relação da percepção da quantidade insuficiente de leite com o desmame.
Alguns autores (ARAÚJO et al., 2008; OSÓRIO; QUEIROZ, 2007) referem que o mito do leite fraco tem suas raízes na medicina higienista, quando esse discurso foi utilizado para dar plausibilidade científica aos desvios do modelo estrita- mente biológico, ou mesmo por falhas de seu paradigma da amamentação.
No que concerne à ideia de que o leite é fraco, a literatura acerca do tema refere
[...] que não existe leite fraco, tendo em vista que a composição do leite materno se faz de maneira ideal para alimentar e nutrir a criança até os seis meses de idade como alimento exclusivo (VAUCHER; DURMAN, 2005, p. 209).
Sobre a produção de leite materno, Borges e Philippi (2003) mostram que os índices de hipogalactia primária não ultrapassam 1,5% da população de lactantes, e que as nutrizes produzem a quantidade de leite suficiente para assegurar um crescimento adequado às crianças.
Algumas causas responsáveis pela diminuição da pro- dução de leite podem ser: a introdução de água, chá ou leite artificial; a introdução de mamadeiras ou chupetas; mamadas curtas e pouco frequentes, que podem levar ao ingurgi- tamento, com consequente redução da produção; pouca ingestão de líquidos e alimentos pela nutriz (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE; FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA, 1993).
Outro fator relacionado ao sistema de crenças e mitos das mães sobre o ato de amamentar é o receio de que a amamen- tação faça “os seios caírem”. Essa crença representa uma forte motivação para que muitas mães não amamentem ou parem muito cedo. Quanto a isso, os autores afirmam que não é o fato de amamentar que causa tal consequência, e sim a utilização incorreta de sutiã ou sutiãs frouxos (VAUCHER; DURMAN, 2005).
Em meio a todas essas crenças, existe ainda um fator muito importante na determinação do aleitamento materno, assim como no seu prolongamento, representado pela influência de pessoas próximas à nutriz, como familiares (incluindo a mãe da nutriz, o marido e as amigas) e profissionais de saúde. Esse fator permeia todos os “motivos” alegados pelas mães para a interrupção da amamentação, agindo como potencializador desses. Ou seja, associada às crenças e mitos, às dificuldades relacionadas ao trabalho, às doenças, ao uso de medicamentos, está a participação da família e dos profissionais como sujeitos estimuladores ou desestimuladores da amamentação (ARAÚJO et al., 2008; TEIXEIRA et al., 2006; FERREIRA et al., 2001).
Para Ichisato e Shimo (2001, p. 73), “[...] a mãe – da nutriz – ainda exerce a função de eterna orientadora dos atos, apesar da nutriz ter constituído uma família, pois já vivenciou a materni- dade”. A amamentação tem sido mais valorizada em famílias nas quais seus membros já passaram por alguma experiência positiva em relação a ela. Isso se dá com maior influência quando, em especial, a mãe – da nutriz – teve uma experiência significativa e duradoura com a amamentação (SUSIN et al., 2005).
Assim, percebemos a sobreposição do posicionamento sociocultural (tradição/valores) à determinação biológica, confirmada “[...] nas experiências anteriores de mães, avós, sogras e vizinhas, ressaltando a importância da vivência como indispensável para o sucesso do aleitamento materno” (SILVA; MOURA; SILVA, 2007, p. 38).
A presença do companheiro atua como auxílio no processo de amamentação, principalmente quando há uma participação mais efetiva nos cuidados diários com a companheira e o filho. (MACHADO; BOSI, 2008; FALEIROS; TREZZA; CARANDINA, 2006). Silveira e Lamounier (2006) identificaram ainda que a parti- cipação ativa do pai e sua valorização quanto ao aleitamento materno figuram como seus fatores protetores. Porém, a par- ticipação do pai ainda é subestimada nos serviços de saúde, onde os profissionais, normalmente, não se preocupam com a preparação dos futuros pais.
A influência dos familiares e amigos dá-se não apenas por intermédio de conselhos ou interferências diretas, mas, sobretudo, no apoio e suporte dado à lactante, concernentes às tarefas advindas com a maternidade. Para tanto, não bastam conselhos em prol da amamentação, mas favorecer um relacio- namento materno-infantil menos estressante e mais saudável para ambos, mãe e criança (RAMOS; ALMEIDA, 2003).
Os profissionais de saúde, por sua vez, também exercem forte influência sobre as gestantes. Ichisato e Shimo (2001) apon- tam que as mulheres que recebem orientações de pessoas nas quais elas depositam total confiança apresentam mudança de comportamento. Ou seja, a confiança no profissional, bem como a abertura capaz de permitir que essas mulheres expressem concretamente seus sentimentos em relação ao aleitamento, a avaliação do estado nutricional da criança e da capacidade da mãe em atender às necessidades do filho são condições indispensáveis para o sucesso da amamentação (MACHADO; BOSI, 2008).
Percebe-se, com isso, que a questão do aleitamento materno não é somente biológica, mas envolve, principalmente, seus aspectos socioculturais. A cultura, a crença e os tabus têm influenciado de forma crucial a sua prática. Em virtude disso, impõe-se a necessidade de compreender a influência dessas questões no modo de ser do homem e, sobretudo, da
mulher, diante do ato de amamentar. Devemos lembrar que o ser humano do qual estamos cuidando (neste caso, a nutriz) tem a sua subjetividade, a sua tradição cultural, os seus hábitos, tabus e crenças, que determinarão a extensão e a representação da prática do aleitamento materno.