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Capítulo 4- Aplicação do Código de Análise Documental – Parte 1

4.3 Categorias de assunto ou tópico

4.3.3 Desmatamento e Uso do Solo

Para entender o perfil de emissões brasileiro, o uso do solo se torna prioritário. O termo desmatamento foi citado 2.166 vezes no total das fontes selecionadas e foi um dos principais temas debatidos no Congresso Nacional como visto acima.

As áreas protegidas são, hoje, a alternativa mais rápida, mais eficiente e de menor custo para minimizar (mitigar) as mudanças climáticas nos países com florestas tropicais.

E esse é especialmente o caso do Brasil na Amazônia. Até 20% das emissões globais de gases de efeito estufa são provocados pela derrubada e a degradação das florestas. Dessa forma, uma das formas mais simples e rápidas de reduzir as emissões é proteger as florestas. Florestas em pé constituem estoques de carbono. Sua destruição contribui para agravar o aquecimento global. Além de evitar as emissões de CO2, a conservação das florestas é importante para o equilíbrio climático devido às funções que elas desempenham na regulação do ciclo das águas e da temperatura, entre vários outros serviços e produtos que fornecem para a sociedade31.

O Brasil transformou a política de desmatamento na coluna vertebral da política nacional de mudança climática (FRANCHINI, 2016). O país tem baseado sua política de mitigação no desmatamento desde o Plano Nacional de 2008 até o INDC de 2015, fato

31 Relatório sobre Desmatamento e Mudanças Climáticas da Arpa – um novo caminho para a conservação da Amazônia. Disponível em:

http://d3nehc6yl9qzo4.cloudfront.net/downloads/desmatamento_e_mudancas_climauticas.pdf . Acessado em: 21/12/2016.

que suscita dúvidas em relação ao futuro se considerada a mudança de perfil emissor do país na última década. Assim, Brasil continua operando como se o desmatamento ainda fosse predominante na pauta de emissões e pouco tem investido nos outros setores, particularmente o energético, cuja tendência é carbonizante (FRANCHINI, 2016).

A maior parte do compromisso voluntário brasileiro para 2020 repousa no setor uso de solo nos biomas amazônico e Cerrado, aproximadamente 2/3 do total. Esse tem sido o plano de mitigação mais bem-sucedido. Sendo assim, a política de uso do solo é um dos pontos focais do controle legislativo (FRANCHINI, 2016, p. 197).

Nesse sentido, compreende-se a relevância das discussões sobre o Código Florestal para a política climática como destacou o representante do INPA em audiência pública:

“Há coisas interessantes. A própria floresta natural sequestra mais que emite. Havia uma grande discussão sobre a questão de a floresta estar em clímax. Então, ela não estaria contribuindo, mas, pelo que nós sabemos, ela tem uma relação positiva, ou seja, ela absorve mais carbono, liberando oxigênio e CO2 – quebra no meio, fixa o carbono e joga oxigênio (...). Bom, só para terem uma ideia de como foi o desmatamento na Amazônia – em razão dessa preocupação, estamos todos aqui discutindo o assunto, e vem aí o Código Florestal –, houve várias políticas que fizeram com que ele diminuísse. Infelizmente, essa pontinha aqui demonstra que, neste ano, já houve um aumento significativo do desmatamento, até pelo direcionamento que se imagina no Código Florestal” (BUENO, 2011 – Representante de Entidade de Pesquisa).

Contudo, muitos parlamentares e atores governamentais que participaram das discussões tentaram dissociar o Código Florestal dos impactos sobre as mudanças climática:

“Também é preciso que a opinião pública saiba que o novo código proposto não vai ampliar o desmatamento no Brasil e muito menos conceder anistia a desmatadores.

Isso virou um chavão. Trata-se de uma mentira muitas vezes repetida que deseja virar uma verdade incontestável” (RUSSO, 2011 - Senador).

“Penso que o primeiro princípio é aquele que poderia ser resumido da seguinte forma:

a reforma do Código Florestal não é, não visa, não se presta nem precisa ser um mecanismo para estimular ou ampliar o desmatamento de florestas nativas no Brasil.

A Senadora Kátia Abreu, minha querida amiga, como Presidente da Confederação Nacional da Agricultura, já por diversas vezes, deixou claro isso em todas as suas

manifestações. A reforma que se busca aqui não é, repito, para ampliar, para criar novas formas ou inovar no que tange a desmatamentos futuros. Não vejo ninguém discordar dessa proposição, que é, penso, o norte principal deste trabalho de reforma que está sendo feito aqui” (BENJAMIN, 2011 – Ministro do STJ).

Mas houve vozes do Congresso e da sociedade civil se contrapondo a esses pontos de vista:

“Meus amigos, de forma geral, pode-se afirmar que o texto aprovado pela Câmara traz sérios retrocessos quando comparadas as normas atualmente em vigor. A grande preocupação do texto trabalhado pelo Deputado Aldo Rebelo não foi assegurar a proteção da floresta e das demais formas de vegetação. Também não foi a de garantir padrões sustentáveis de exploração dos recursos florestais. O texto aprovado espelha, acima de tudo, a decisão política de consolidar, de tornar regulares variados tipos de ocupações ocorridas em desacordo com a Lei Florestal, notadamente nas áreas rurais”

(SARNEY FILHO, 2011 – Deputado Federal).

“Perguntou-se se a legislação é a mais avançada. Acho que a legislação brasileira, em relação à questão florestal, é avançada. Pena que estão passando um pouco a motosserra em cima de uma parte desses avanços. E estou contando com que o Senado valorize o que é avanço e impeça esse recuo, que abre o caminho para o desmatamento” (MINC, 2011 – Ex-Ministro do Meio Ambiente).

Discursos críticos à política de mitigação com foco no controle do desmatamento também perpassaram pelas reuniões:

“Ao falar de redução de desmatamento na Amazônia, nós precisamos falar de economia. Não é só ambiental, não é só social, socioambiental, é preciso falar de economia. E o Brasil tem, principalmente pela queda recente na taxa de desmatamento, uma oportunidade única no mundo de produzir exemplos concretos e bem-sucedidos do que vimos chamando – e que a própria ONU vem chamando, a Convenção do Clima, que foi tema da Rio+20 – de economia de baixo carbono. Como produzir a mesma riqueza e crescer sem emitir tanto? ” (MOUTINHO, 2012 – Representante de Entidade de Pesquisa).

“A gente está, neste momento, em uma fase nova da questão climática. A partir dos estudos que foram divulgados recentemente, a gente vê que há claramente uma mudança no perfil de emissões do Brasil. No nosso País, até poucos anos atrás, praticamente quase 70% das emissões eram provocadas por desmatamentos. Hoje em dia, grosso modo, a gente pode dizer que são três partes iguais: desmatamento, energia

e agricultura. O desmatamento continua sendo extremamente importante que seja visto. Primeiro, para impedir que retrocessos aconteçam, e a gente tem visto alguns retrocessos pontuais que são preocupantes. Mas, de qualquer maneira, o modus operandi em relação ao desmatamento nós sabemos qual é: apenas a implementação firme e decidida de políticas que já existem e que em grande parte desses meios já estão colocadas” (SIRKIS, 2013 – Deputado Federal).