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Desmembrando a narrativa – A obra, a construção, os elementos

Em primeira análise, afirma-se sem grandes dificuldades que A Emparedada

da Rua Nova está inscrito na tradição dos romances-folhetins. O seu torvelinho de

acontecimentos e o emaranhado de informações, formando uma grande e envolvente rede de tramoias, segredos e suas respectivas revelações que culminam em um violento desenlace acompanhado de outras pequenas soluções que partem de uma situação final, comum a todas as personagens envolvidas diretamente e indiretamente na trama. Tradicionalmente, os romances-folhetins carregam a redenção de vultosos finais felizes. A salvação é o consolo do leitor que aguarda, pacientemente, tantos desprazeres, desventuras e injustiças na vida acompanhada 

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VILELLA, Carmélio dos Santos. Carneiro Vilella: nascimento, vida e morte. Recife: Ed. Do Autor, 2005, p. 118.

pelos escritos do narrador. O happy ending, claro, não se estende para todos, apenas para aqueles que o merecem, os que são bons, os flagelados pelos maus. A estes últimos – os maus, ímpios, vis – caberá a justiça, a vingança, a pobreza, a infelicidade e a morte. A punição dos maus, num mesmo grau que a chegada da felicidade dos bons, é parte indispensável do final satisfatório clássico do romance- folhetim tradicional. Não se pode simplesmente olvidar as maldades, os vilões não podem ser esquecidos na impunidade: o sofrimento das criaturas infames é tão importante quanto o sucesso dos injustiçados.

Isto posto, subentende-se a existência básica de bons e maus, a divisão maniqueísta do mundo de forma polarizada contidas nas obras folhetinescas tradicionais. As personagens devem estar de um dos lados e assumir um papel claramente definido, nunca mutável. No romance-folhetim clássico o mundo não admite regenerações ou corrupções no caráter: o bom não deturpa seu caráter em nenhuma hipótese e sob nenhum tipo de pressão – financeira, social ou psicológica – e o mau não encontra solução ou cura devido a amores, religiões ou purgações. As essências nunca mudam porque esta é a disposição das coisas. A fórmula tradicional requer esses elementos, é preciso a existência de um para justificar o outro e as ações do enredo. No entanto, a obra de Carneiro Vilella foge a este padrão e mesmo chega a ludibriar as expectativas do leitor, a escarnecer pelas inusitadas possibilidades construídas pelas personagens. Observe-se.

O núcleo central da trama está cravado na família Favais, cujos membros são os moradores da principal referência geográfica da obra: o sobrado – edificação que une local de trabalho e residência de forma conjunta – localizado na Rua Nova. O narrador alerta desde as primeiras descrições: o que aparentemente estampa uma impressão, geralmente não corresponde à natureza, à essência dos seres. A própria instituição familiar dos Favais representa a ideia de que, por mais que a constituição e a situação externa fizesse julgar calmaria, tranquilidade e mesmo felicidade – estabilidade financeira, educação tradicional para os filhos, hábitos e comportamentos apoiados na moral religiosa cristã/católica, etc. –, no seu âmago, na intimidade não penetrada por olhares superficiais, havia embates de sentimentos e contradições de condutas que poderiam ser encobertos, mas não anulados. Aí também, na construção das personagens e suas ações, se encontra ocasião para dar-se vazão a um importante traço presente n’A Emparedada da Rua Nova: a marca do cientificismo.

A começar pela personagem-título do romance-folhetim: Clotilde Favais. Percebe-se a proposta contestatória do narrador. De uma jovem nascida em uma família estável e prestigiada na província pernambucana poder-se-ia esperar para uma protagonista de folhetim – sabidamente, desde os princípios da obra devido ao seu título, alvo de um crime hediondo – a descrição de uma inocente donzela, condenada à morte por um pai tirano devido a um erro provocado por amor. Porém, desde o primeiro contato, o narrador despe a complexidade que reside em Clotilde Favais.

A descrição de seu tipo físico constrói misturas de povos diferentes – “De um moreno claro – meio jambo e meio pêssego – produto de dois sangues, o europeu e

o americano”136. O cruzamento de raças que lhe conferiu uma singular beleza física

por outro lado revelou-se como uma perigosa associação de genes. Clotilde é herdeira, portanto, das mais danosas características morais de dois povos distintos:

“[...] a mistura dos dois sangues, de que era oriunda, se lhe deu ao físico aquela perfeição material, deu-lhe ao espírito uma energia máscula e impetuosa, formou-lhe um coração capaz de todas as virtudes bem como de todos os vícios, conformo o lado para que o levasse a inspiração do momento.137

A expressão energia máscula expressa a inusitada descrição contida na

construção da personagem-título. E o que é mais: nada se pode fazer para invalidar a existência desses traços no espírito de Clotilde Favais:

Era esse o fundo verdadeiro do seu caráter e nem ao menos a educação, que recebeu, concorrera para modificá-lo ou simplesmente esclarecê-lo com o conhecimento exato do mal e do bem [...].138

Em outras palavras: se há uma constante na índole de Clotilde Favais – e em outras figuras apresentadas por Carneiro Vilella –, esta é justamente a sua inconstância. A personagem não é boa ou má, trata-se de buscar entendimento do contexto de suas ações, de sua disposição e, sobretudo, de seus interesses. Sua personalidade também é marcada por posturas perniciosas:



136

VILELA, Carneiro. A Emparedada da Rua Nova. 3. ed. Recife: Coleção Recife, 1984, p. 45.

137

Loc. cit.

138

Se mais alguma coisa trouxe para a casa paterna como prenda valiosa, foram sem dúvida umas lições práticas de hipocrisia e um ódio inveterado por tudo quanto fosse contrariedade e por tudo quanto lhe parecesse reclusão.139

No entanto, diferentemente das personagens do folhetim clássico tradicional, Clotilde encontra uma espécie de justificativa para seus sentimentos:

A seleção quase conventual, em que vivera durante o período colegial, fizera-lhe adorar a liberdade. Os sofrimentos por que passara na observância religiosa de umas regras carrancas e aperreadoras, haviam acumulado no seu coração uns ódios intransigentes por tudo quanto lhe parecesse obrigação e tinham-lhe dado uma aptidão e uma presteza extraordinária para a revolta.140

Ou seja, Clotilde não surge com a personalidade definida, boa ou má, trata-se de uma existência inclinada às mais variadas potencialidades de sentimentos e ações. A intricada organização da postura de Clotilde Favais é percebida, principalmente, nas passagens finais da narrativa. Comovida por uma violenta paixão, a personagem fragiliza-se ante a possibilidade de rejeição, mas enfurece-se ao descobrir-se enganada por Leandro Dantas e julgar-se traída pela sua própria mãe, Josefina Favais, e por uma amiga da família, Celeste Cavalcanti.

Uma dor imensa e indefinível apoderava-se de sua alma e transformava todos os seus sentimentos bons num ódio concentrado e sem limites. Essa nova manifestação da sua desilusão, esse resultado do aniquilamento de suas esperanças, esse ódio enfim abrangia não só a mulher de Cavalcanti como também a sua própria mãe. Esta estava prostrada no leito do sofrimento e quase sem acordo; a outra porém, nada sofria, e talvez mesmo que nada viesse a sofrer. Não! Não seria assim... Celeste havia de passar pelas mesmas torturas porque ela própria estava passando! Havia de pagar-lhe caro o ter-lhe roubado o amor e a posse do único homem que ela havia amado neste mundo. Como vingar-se, porém? Não o sabia ainda; iria ouvir o que ela ia dizer ao avô e, depois de senhora dos segredos da mísera mulher, formularia o seu plano de campanha.141

É bastante notável a diferença: Clotilde não se resigna, não se retrai para sofrer as mágoas de um amor ferido, mas é movida pelos humaníssimos sentimentos do ciúme, da inveja e do ódio. Sob o efeito de tais disposições de espírito, a rapariga calcula sua desforra. Aqui mais uma distinção gritante entre as fórmulas genéricas dos folhetins tradicionais: as ações – e suas consequências –  139 Ibid., p. 46. 140 Loc. cit. 141

VILELA, Carneiro. A Emparedada da Rua Nova. 3. ed. Recife: Coleção Recife, 1984, p. 462-463. (grifos nossos).

são resultantes de interferências humanas, de suas movimentações na trama, das provocações de atitudes pedestres com o objetivo de alcançar resultados específicos ou impedir que outros alcancem. Não há providência divina, solução dos céus, castigos e milagres dos deuses, pelo menos não a ponto de travar o livre arbítrio. A fé manifestada pelas personagens construídas no folhetim d’A

Emparedada da Rua Nova é débil, faz parte de uma cartilha decorada sem que se

tenha conhecimento claro sobre seu sentido, por isso é preciso agir para mudar o quadro estabelecido. O narrador chega a tecer uma espécie de deboche na passagem em que Celeste Cavalcanti questiona-se sobre sua sorte ao perceber que seu marido, o senhor de engenho Tomé Cavalcanti, tomara conhecimento dos segredos de suas relações extraconjugais:

Mas como havia aquilo acontecido? que acaso fatal e diabólico o tinha feito surpreender a sua confissão e o puzera (sic) assim ao fato dos seus mais íntimos segredos?

Celeste não podia adivinhar: nem sequer o suspeitava e portanto atribuira (sic) o fato a esse dedo fatídico e providencial de Deus, dedo que, segundo as crendices católicas e as abusões da ignorância, se intromete em toda a parte como um fura bolos, e leva o castigo e a punição, onde eles se tornam necessários à moralidade social e convencional do caso.

Mas acaso, providência, ou dedo de Deus, o leito sabe que a causa da descoberta de Cavalcanti fora pura e simplesmente Clotilde.142

Nem por isso – pela ausência de soluções extraordinárias ao longo da trama e, sobretudo, no seu arremate – o folhetim escrito por Carneiro Vilella abriu mão de um dos trunfos que causam frisson na fórmula base do romance seriado: os lances teatrais. Em outra apropriação, dir-se-ia até mesmo que A Emparedada da Rua

Nova possui sequências cinematográficas de revelações, reconhecimentos e

suspensões de enredo. A construção narrativa da obra é marcada pela plasticidade de seus personagens – observem-se suas descrições, sobretudo de certos tipos como o Hermínio ou Zarolho e o Bernardino, o Bigode de Arame –, pela imitação da

maneira de falar e expressões àquela época comuns143 e pelo comportamento das

regiões: trata-se de um romance de costumes.

A obstinação de Clotilde Favais pela vingança intensifica os seus ânimos e estende o rancor ao seu pai e ao seu primo, João Paulo Favais – este último 

142

VILELA, Carneiro. A Emparedada da Rua Nova. 3. ed. Recife: Coleção Recife, 1984, p. 462. (grifos do autor).

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Cf. VIEIRA, Anco Márcio Tenório. Mistérios e Costumes em um romance-folhetim: A Emparedada da Rua Nova, de Carneiro Vilela. In: VILELA, Carneiro. A Emparedada da Rua Nova. 5. ed. Recife: Cepe, 2013, p.18.

insistente candidato a um casamento valioso, veementemente rejeitado pela moça. Ao ser colocada contra parede pelo pai para que fosse realizado o consórcio familiar entre os primos, sua negativa recrudesce. Em uma violenta discussão com o pai, brada: “- [...] ou Vosmecê despede aquele miserável [João Favais] já e já de sua

casa ou sou em quem vai denunciá-lo como o assassino de Leandro”144. E continua

a grave altercação: “- Eu já não tenho filha! – bradou o negociante com um gesto melodramático e terrível.” Ao que a filha responde: “Bem como eu já não tenho pai! – retrucou Clotilde, com acento de voz firme e segura.” A intensa discussão finaliza- se com a implacabilidade provocativa da jovem:

Clotilde então atirou-se para o meio da sala e cruzando os braços sobre o seio, que ofegava desesperada e convulsivamente, apresentou-se completa de frente para receber o choque e a fúria de seu pai.

- Mate-me! Disse ela com frieza esmagadora e irritante. E acrescentou logo num tom acerbo de ironia:

- Não será a primeira vítima!145

No entanto, mais adiante, por estar em extrema situação adversa – acuada fisicamente, consciente de seu estado de gestante e sem poder contar com a proteção da mãe, enlouquecida, e do avô, o comendador Antônio Braga, falecido devido aos desgostos vivenciados em sua família –, suplica ao pai por clemência, sem sombra alguma da fúria que antes a fazia tão resoluta diante do debate com Jaime Favais, no momento do emparedamento:

- Meu pai! – murmurou uma voz suplicante e cheia de soluços. - Cala-te! – rosnou o homem, continuando a sua faina.

- Perdoe-me!... – soluçou mais fraca a mesma voz. - Tens o que mereces.

- Em... nome... de meu filho.146

Observa-se a constante volubilidade no caráter da personagem de Clotilde Favais construída pelo narrador ao longo do enredo em diversos momentos. Porém não só a personagem-título encerra essa característica, esse é um traço que sobrenada entre as figuras que se movem na trama. Seguindo a mesma linha de Clotilde, os seus pais, Jaime e Josefina Favais, também são marcados pela desmedida das suas condutas. A esposa do negociante, assim como a sua filha e a 

144

VILELA, op. cit., 1984, p. 520.

145

VILELA, Carneiro. A Emparedada da Rua Nova. 3. ed. Recife: Coleção Recife, 1984, p. 521.

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sua amiga, Celeste Cavalcanti, formam o conjunto das três mulheres seduzidas pelo

Don Juan baiano frequentador do Teatro de Santa Isabel, Leandro Dantas147. Josefina seria o exemplo da virtude forjada, da frivolidade reprimida que não resiste aos apelos de um conquistador desafiado pela incitação de um obstáculo mais estimulante: a presumida qualidade moral invencível que não permitiria uma traição por uma dama reconhecidamente distinta e respeitada pela sociedade recifense. Josefina também representaria, em outras instâncias, uma espécie de sublevação social feminina que, ao perceber-se infeliz após longa suposição de felicidade, permite-se o conhecimento e a vivência de novas experiências – sexuais, sociais, comportamentais, etc. – em detrimento daquilo que se julga honesto. No entanto, apesar da coragem de suas ousadias, a consciência do pecado, da transgressão, da culpa e do erro não é remediada pelos prazeres proporcionados pelos seus sentimentos e atitudes. No fundo, o narrador tenta demonstrar que essa série de fatores combinados – miscigenação de raças completamente diferentes, a educação

delegada à moral dos colégios (“moral tão relaxada como cômoda”148) permeada por

intensos discursos morais assentados na religiosidade católica e a vivência em uma sociedade demarcada por relações hipócritas e interesseiras – resultam em produtos semelhantes, como uma espécie de produção em série, como moldes comportamentais:

Josefina não era, na realidade uma natureza tão corruta como Celeste, mas recebera a mesma educação que a sua amiga, no mesmo colégio, com os mesmos professores, ouvindo os mesmos conselhos, e ajoelhando-se ao pé dos mesmos sacerdotes. Ali se haviam desenvolvido nela os mesmos germens perniciosos e em sua alma se havia inoculado o mesmo virus (sic) venenoso e pestilento. Para o desenvolvimento de um e outros bastava-lhe apenas alguma circunstância favorável ou alguma ocasião propícia e adaptada. Devia forçosamente ter um fundo de moral idêntico ao de sua antiga companheira de colégio e aliás amiga íntima.

Se até ali havia procedido de maneira diversa e conseguira por isso passar por honesta, -- e realmente o era – era isto devido pura e simplesmente às circunstâncias e condições involuntárias em que a sua posição e o seu casamento a haviam colocado. Não pertencia à roda a que pertencia a sua amiga e onde, -- diga-se a verdade embora amarga – são mais frequentes não só os momentos históricos como também as práticas da devassidão



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Sobre a relação da personagem de Leandro Dantas, o “mito de Don Juan”, n’A Emparedada da Rua Nova conferir MENDONÇA, Helena Maria Ramos de. O Don Juan da Rua Nova: um estudo- itinerário sobre A Emparedada da Rua Nova, de Joaquim Maria Carneiro Vilela. Recife: O autor, 2008. 110 p. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Centro de Artes e Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.

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moral e material, que são quase levadas à conta de galanteios de salão ou de rasgos de espírito desenvolvido e livre.149

Percebe-se a influência das linhas de pensamentos hegemônicas à época de produção do romance: os meios de vivências determinando fortes predomínios nos ânimos das personagens envolvidas. O narrador atribui, portanto, o estilo de vida levado por Josefina Favais ao casamento com um português focado nos assuntos financeiros e nos negócios da família, com poucas relações sociais e divertimentos públicos.

O comendador Jaime Favais, este sim o verdadeiro personagem central da trama, encerra em si a grande complexidade das inconstâncias das figuras desenvolvidas por Carneiro Vilella. Numa descrição de homem sisudo, ensimesmado e taciturno, a trama inicia-se com o negociante já envolvido em uma situação extremamente delicada: o comprometimento de sua liberdade, de seu status social e de sua fortuna por estar às voltas com uma investigação de um assassinato realizado sob sua encomenda e execução.

Portanto, a primeira impressão desenvolvida acerca da figura de Jaime Favais está impregnada de assombros, asperezas e irritabilidades. O caráter da personagem delineia-se pela sua trajetória de migração, sucesso comercial em terras estrangeiras aliado ao amparo de seu tio já estabelecido no Brasil, o comendador Antônio Braga, e a extrema ambição e perspicácia nas suas relações. Da situação comum, o narrador revela o inusitado:

A história de Jaime Favais é, nem mais nem menos, a de todos esses portugueses, que, filhos de pais agricultores e pobres, vendo-se, em sua pátria sem recursos no presente e sem esperanças no futuro, emigram para o Brasil com o firme propósito de trabalhar sem descanso até adquirir a fortuna que sempre lhes faltou, mas com qual sempre sonharam.

Natural de Favais, em Trás-os-Montes, apenas completou ele os quinze anos, seus pais, admirando a inteligência, a atividade e sobretudo a ambição, que já se revelavam nele em alto grau, remeteram-no para a terra das patacas, consignando a um tio materno, que aqui estava estabelecido com um grande e bem afreguesado armazém de secos e molhados.150

Jaime, ao contrário de sua mulher e de sua filha, não é resultado – explícito – de cruzamento de dois povos. Sua personalidade se expressa demarcada desde muito cedo: inteligente e ambicioso. Apesar da origem pobre, havia uma perspectiva 

149

Ibid., p. 294. (grifos nossos).

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de melhorias de vida para o menino, ainda que para isso tivesse que sair de sua terra natal e atravessar o oceano para morar em outro continente sem a presença dos seus pais. No entanto, o que pareceria um violento rompimento para uma pessoa tão jovem, é descrito como o início de uma frieza espiritual já sedimentada na personalidade do português:

O menino Jaime não sentira grande comoção ao deixar o pátrio ninho: antes secreto instinto instigava-lhe a alegria íntima e buzinava-lhe aos ouvidos que iam rasgar-se aos seus olhos e à sua ambição novos horizontes e vastos campos de operação e de colheita.

Ouvia contar tantas maravilhas desse Eldorado dos ambiciosos!... fantasias nesse Brasil uma terra tão superabundante de riquezas, tão fabulosamente cheia de ouro e de diamantes... que não era de admirar que ao sentimento de saudade e à tristeza da separação sobrepujassem a curiosidade das viagens e a avidez dos grandes lucros.151

Embora a descrição da personalidade de Jaime aponte uma solidez de escrúpulos, também marca a presença de sentimentos sinceros em sua jornada. Da mesma forma, por exemplo, com que desejou estabelecer uma robusta fortuna pelo seu trabalho também vislumbrou suas possibilidades de relação familiar com o tio protetor. Ao requerer a mão de sua prima em casamento, possuía aspiração de empossar-se ainda com mais direitos da herança que seria destinada à filha única do Comendador Antônio Braga. No entanto, havia sensibilidade autêntica em sua intenção:

Jaime, na qualidade de primo, contínua e constantemente em contato com ela, e de mais a mais instigado pelo demônio da ambição, com o propósito firme de obter o seu fim, não pode furtar-se à influência magnética dos seus olhos negros nem à atração amorosa e dominadora da sua bondade. Amou-a e foi ardentemente correspondido.

Apenas, pois, chegou da Europa, abriu ao tio o seu coração com todas as aparências de franqueza e lealdade e expôs-lhe os seus projetos, menos, já se vê, a causa latente que o movia, concluindo por pedir-lhe a mão da priminha. A resposta não se fez esperar.152

O narrador completa através da visualização da expectativa do tio e com o toque de ironia que lhe é tão caro:

Ativo e econômico, inteligente e sensato, trabalhador e honesto... o sobrinho apresentava todas as garantias possíveis para a felicidade do seu ídolo. De mais a mais, os dois primos adoravam-se e, o que não era menos, o seu 

151

VILELA, Carneiro. A Emparedada da Rua Nova. 3. ed. Recife: Coleção Recife, 1984, p. 37.

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dinheiro não passava a estranhos. Os portugueses sempre tiveram grande apego à família.153

Este panorama sintetiza de forma abrangente o perfil de Jaime Favais. Suas