CAPÍTULO 2 – DESMONTAGEM CÊNICA
2.2. Desmontar: tecer e destecer
Levando em consideração os modos de investigação dos processos criativos e os vários motivos que provocam o artista cênico para a construção da obra de teatro, temos como possibilidade de reflexão o que tem sido denominado de Desmontagem. Apresentação artística de caráter pedagógico em que o artista mostra o seu trajeto – através de escolhas e seleções – para a construção de um espetáculo; dispositivo que apresenta potência significativa em que o próprio criador revela ao público os principais nortes que influenciaram o seu processo de criação.
26 No original: “Notas sobre los trabajos”.
27 No original: “Esta temporada tiene un arranque distinto, no empieza propiamente con el espectáculo sino con
la reflexión que hace una actriz acerca de los fundamentos de su trabajo. Para muchos puede parecer extraño, pero en la lógica del vínculo que tenemos con el público nos parece pertinente. Partimos de que el espectador que viene a vernos nos está interesado solamente en los resultados sino también en los procesos. El público debe saber lo que su presencia motiva en los actores, cómo no se puede imaginar un espectáculo sin imaginar un espectador. Para esta comunicación trabajamos, para que exista ese momento que hace que el hecho teatral sea posible. ‘Una actriz e prepara’ pretende compartir que el actor o la actriz antes de un ser intuitivo, talentoso, especial, etc., antes de nada es un ser humano que trabaja y cada aspecto de su trabajo tiene una razón” (RUBIO, 2001, p. 88).
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A desmontagem é um dispositivo tecido por palavras, como um conjunto de idéias verbais, visuais, textuais, sonoras, dentre outros. Portanto, ao pensar no roteiro de apresentação da desmontagem, o artista organiza sua trajetória de um processo de criação específico a partir dos seus arquivos, traços, esboços, dentre outros, ou seja, não existe método pronto e acabado para organização da desmontagem.
O artista apresenta, por assim dizer, uma espécie de “seminário prático aberto”, como afirmou Ileana Diéguez em uma de suas palestras no “III Interfaces Internacional - Intercâmbio em Artes Cênicas”, que é organizado de forma autônoma e sem regras ou formulações específicas que definam a concepção do roteiro. Ao desvelar o processo criativo, o artista estabelece uma estratégia única de apresentação dos fatos que teceram o processo de criação e revela o modo de fazer e o percurso do seu movimento criador. Há uma exposição dos afetos, motivos, paixões, segredos, questões, dúvidas, passos, descompassos e provocações.
É importante destacar também que mostrar e ocultar são características presentes no procedimento da desmontagem, neste caso, as próprias escolhas do artista – do ator no caso específico desta pesquisa – apresentam diretamente seu modo de fazer, pensar e agir nos seus processos criativos. É um procedimento artístico-pedagógico, na medida em que promove um procedimento do encontro28.
“Testemunhos, perguntas, reflexões, experiências e nenhuma certeza, nenhum método, nenhum saber a priori”29 (DIÉGUEZ, 2009, p. 9, tradução nossa). A desmontagem não é uma
análise – no sentido de juízo de valor – de um processo de criação, mas um diálogo que é reconstruído junto ao público, uma espécie de confessionário das incertezas, trajetos e escolhas do ator.
As desmontagens são sessões de trabalho que enfatizam a construção do espetáculo e desenvolvem reflexões acerca da criação, tornando visíveis as tessituras do ator; portanto, desvela compromissos, negociações e subjetividades em uma relação intersubjetiva. A desmontagem torna visível o aspecto resguardado da obra em que as questões mais pessoais do artista são colocadas à mostra em um exercício de exposição das pessoalidades e das motivações que influenciaram um determinado processo de criação.
28Termo utilizado por Ileana Diéguez em uma de suas palestras no “III Interfaces Internacional - Intercâmbio em
Artes Cênicas”.
29 No original: “Testimonios, preguntas, reflexiones, experiencias y ninguna certeza, ningún método, ningún
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A desmontagem é uma proposta de investigação interessada em fazer visível o tecido criativo através dos testemunhos, desconstruções e reconstruções dos próprios criadores30. (DIÉGUEZ, 2009, p. 18, tradução nossa).
Os modos de apresentação da desmontagem não buscam fechar em molde ou algum protocolo prático do ator, o que Ileana Diéguez nos apresenta é justamente o contrário disso: a desmontagem possibilita que o ator seja atravessado com diferentes experiências, pessoais e individuais, não formatado em uma metodologia dura, mas por escolhas tecidas em um discurso prático pertencentes unicamente ao sujeito/artista/ator. Nesse sentido a autora nos aponta a seguinte afirmação.
Não há essencialismos nem pedra filosofal para descobrir. Por isso, fazer a desmontagem de um processo nunca seria a construção de uma hermenêutica feliz nem a confirmação de poéticas modeladoras. É mais uma problematização fundamentada – porém necessariamente quente e arriscada – de experiências criativas específicas. Em cada um desses processos, a investigação tem sido uma experiência particularizada pelas necessidades práticas, culturais e sociais de cada contexto representacional (DIÉGUEZ, 2009, p. 12, tradução nossa).
De acordo com a citação anterior, o sujeito/artista/ator é responsável pela própria exposição dos testemunhos e dos riscos que corre por não estar fundamentado em um método acabado, mas em uma exposição de nudez, com compartilhamentos e segredos pessoais.
Portanto, é um procedimento da experiência em forma de artigo vivo31, em que o
artista é o ser/humano/sujeito/atuante, “um sujeito ex-posto, ou seja, receptivo, aberto, sensível e vulnerável; um sujeito que não constrói objetos, mas que se deixa afetar por acontecimentos” (BONDÍA, 2008, p. 187). E com referência nesses acontecimentos, desnuda suas várias capas e vai revelando suas vontades, anseios, desejos e tensões. A desmontagem torna presente o que estava ausente; convoca e incorpora os vestígios e as principais causas que compõem a obra cênica. É o lugar do testemunho vivo do artista para o público no contexto de um encontro afetivo, pessoal e documental.
De acordo com os registros que eu realizei como escriba nas palestras da Ileana Diéguez na cidade Uberlândia-MG no evento já citado, apresento o quadro abaixo com frases soltas das quais selecionei como significativas para nortear algumas provocações acerca desse procedimento e, com isso, compartilhar idéias e questões metafóricas e desmontadas, vistas a partir de um ângulo desconstruído/reconstruído – parafraseando Derrida.
30 No original: “El desmontaje es una propuesta de investigación interesada en hacer visible el tejido creativo a
través de los testimonios, desconstrucciones e reconstrucciones de los propios creadores” (DIÉGUEZ, 2009, p. 18).
31 Termo utilizado por Ileana Diéguez em uma de suas palestras no “III Interfaces Internacional - Intercâmbio em
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QUADRO 2 – Enunciados de Ileana Diéguez em palestra sobre desmontagem “reflexos da memória”
“procedimento artístico-pedagógico” “palestra performática ou conferência atuadora”
“poéticas do avesso” “desnudamentos” “exposição dos afetos” “presença dos vestígios do artista” “não é colocar-se em cena é colocar-se em jogo”
“incorporar, evocar, convocar” “a trama que tece o fio”
“não é o trabalho do artista, mas o artista em si”
Fonte: Registro escrito do “III Interfaces Internacional - Intercâmbio em Artes Cênicas” realizado em 2013 na Universidade Federal de Uberlândia.
Nos estudos de Ileana Diéguez (2009) observamos com maior freqüência a palavra “desmontagem” de forma isolada, o que me faz pensar na abrangência em que esse procedimento pode ser executado por pesquisadores das artes visuais, da antropologia, da sociologia, da filosofia, da performance, dentre outros, como a própria autora afirma.
Neste trabalho, eu escolho somar a palavra “desmontagem” com a palavra “cênica” para especificar o campo das artes cênicas, em especial dos processos de criação do ator em teatro de grupo. Entendendo que a desmontagem cênica ressoa os campos da cena e da investigação dos diferentes trajetos na criação do artista de teatro. Para isso, ouso afirmar que a desmontagem cênica tem um caráter espetacular, mas, por favor, não entenda mal. Isso não é uma afirmação da desmontagem como um espetáculo, longe disso.
De acordo com os estudos de Jean Marie Pradier, observamos uma tímida conexão da desmontagem cênica enquanto procedimento espetacular, em que ele diz: “Por espetacular é necessário compreender esta física específica do espírito cuja realização surge de uma maneira de ser, de se comportar, de se mover, de agir, no espaço, de se emocionar, de falar, de
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cantar e de se enfeitar que contrasta com as ações banais do cotidiano” (PRADIER, 1996, p. 25-26).
Apesar das considerações do autor ter um caráter estritamente voltado para o campo da Etnocenologia, observamos uma ligeira relação com o espírito ativo do ator que realiza uma desmontagem cênica quando ele afirma que a condição espetacular mostra uma forma de se comportar no mundo, de se apresentar na vida, de se manifestar na relação com o espaço e com os outros, de narrar e de fazer escolhas que entram em contraste com a normalidade vigente do dia-a-dia.
O ator em desmontagem é alguém que revela o seu espírito vital e orgânico da poética da sua própria experiência, que se coloca na zona de perigo no confronto com o outro e que se coloca em ação-de-si-mesmo. Ou seja, volto a dizer, a desmontagem cênica não pode ser considerada como um espetáculo, pois não se constitui como tal. Mas quando se trata da ação de colocar-se em jogo no mundo, eu observo uma sutil relação com o conceito de espetacular apresentando por Pradier (1996). E para apresentar outras possíveis relações teóricas apresentamos o tópico a seguir.