No decorrer deste trabalho, foram identificadas vinte e três cantigas125, às quais se somam as já mencionadas no trabalho de Perrone (1995), que havia identificado vinte e seis delas. Com este corpus, foi possível reconstituir um bom quadro das representações manipuladas pelo grupo e dos elementos por eles apropriados. Além disto, o acesso às memórias das comemorações permitiu registrar representações usualmente desprezadas, referentes à história da Bahia e do Recôncavo. Buscamos mostrar o processo de construção de sentido, de apropriação; uma história social das apropriações remetida às suas determinações fundamentais – sociais, institucionais, culturais – e inscritas nas práticas específicas que as produzem. Descrever e analisar a encenação configurou uma possibilidade de apreender aspectos mais gerais do conjunto de representações relacionados ao Caboclo que funcionam como princípio gerador para práticas diversas. Dentre elas, as que remetem à integração étnica, miscigenação, religiosidade e civismo.
Situamos a problemática do trabalho numa perspectiva de longa duração em que foram contemplados aspectos socioeconômicos e socioculturais que deram suporte à atuação dos
Guaranys. Lembremos, entretanto, que esta Dissertação se pautou em fontes orais e que o
objeto foi esquivo no que se refere a uma datação precisa dos processos. Neste sentido, interpretamos as fontes orais com o auxílio de trechos da bibliografia disponível, tratados também como fontes, com as quais buscamos esquadrinhar a história em questão até o limite, até onde os indícios poderiam sugerir. Ir além disto seria pouco preciso; já teríamos caído nos perigos do excesso de interpretação, no qual não é mais possível estabelecer relações consideradas cientificamente válidas. Mostrou-se possível, mediante um esforço de mais de dois anos, a construção de um modelo histórico-interpretativo transbordante de sentidos como de nuances.
A resistência aos lusos que em 1823 foram impedidos de desembarcar na praia em frente ao Forte de São Lourenço permanece na memória do itaparicano, pois marcaria a contribuição daquela localidade à construção da nação brasileira. O elemento mais intenso
desta rememoração é a figura do Caboclo, porquanto a exacerbação do sentimento nacionalista que caracterizou os eventos da Independência da Bahia é compreendida em referência ao que se imagina que seja o mundo indígena. Através do Caboclo, comemoram-se as comunidades imaginadas do Brasil e da Bahia num patriotismo de viés singular. Ícone da emancipação política e das lutas populares pela sua liberdade, é um referencial na cultura popular que pôde se desdobrar sob diversificadas roupagens, algumas destas expressas pelos brincantes dos Guaranys. Esta figura aportou um conjunto de elementos de narrativa; discursos e imagens para uma identidade no Recôncavo. Este processo se deu a partir de uma reelaboração do complexo simbólico configurado no Caboclo que forneceu modelos para a ação dos Guaranys na Aldeia e no cortejo.
Estas relações culturais tiveram como substrato social a articulação de Itaparica no sistema geo-histórico da Baía de Todos os Santos (ARAÚJO, 2000), em que interagiam a capital, o Recôncavo e os interiores. As mudanças e desestruturação deste sistema foram aceleradas pelas transformações a partir da expansão da exploração petrolífera, a que se somou a inserção da Ilha na dinâmica rodoviária regional, com a instalação do sistema ferry
boat, incluindo a construção da ponte do Funil no início da década de 1970. Os Guaranys
reconfiguraram uma tradição que remetia a diversos significados do Caboclo e a atuação do grupo teve que adaptar-se às alterações no panorama socioeconômico, dado que é neste momento que a diversidade geral da cultura popular da Ilha anuncia um esvaziamento (ARAÚJO, 1986) A história do coletivo demonstra as estratégias de estabelecimento no campo dos festejos e aquisição de autonomia.
Reconstruímos os delineamentos temporais evocados pelos depoimentos orais. A memória dos antigos brincantes e expectadores definiu três tempos específicos no direcionamento do coletivo.
No período constantemente evocado como ―o tempo de Seu Eduardo‖, o grupo surge em função de um feixe de fatores como as tradições do Caboclo e dos festejos, o impulso nacionalista estrutural e o engenho de Eduardo. Com o fundador à frente do cordão, entre 1939 e o início da década de 1950, os Guaranys iniciavam ainda a conquista do seu protagonismo na festa, conquanto exibissem ainda algumas práticas semelhantes ao dos outros cordões. Como mediador cultural, o grupo foi um agente da circularidade cultural (GINZBURG, 2004) que se mostrou capaz de organizar possibilidades múltiplas no campo das representações populares. Como atuou na fronteira entre significados, o ato de fundar o grupo dinamizou matrizes diversas. Inseriu uma brincadeira no contato com outros folguedos
reinterpretando a tradição já em face das contribuições religiosas, o que constituiu um civismo único. Obviamente, não foi autor único do espetáculo; entretanto, como seu organizador inicial, foi colocado pelas memórias posteriores como referência, um líder primevo que desapareceu sem maiores indicações.
Eusébio sucedeu a Eduardo por cerca de seis anos, sem, no entanto, notabilizar-se como líder que imprimiu uma caracterização duradoura ao coletivo. Assim, o segundo período – entre os últimos anos da década de 1950 e o final da década de 1970 – importante na trajetória dos Guaranys, é o ―tempo de Seu Carrinho‖. A atuação deste personagem foi emblemática por seu caráter rígido do comando que permitiu que o grupo não se esfacelasse. O respeito adquirido por este indivíduo fica claro quando temos em conta que a sua residência na cidade do Rio de Janeiro não impediu que ele fosse considerado o presidente.
Por sua vez, Orlando foi um componente atuante num período crucial para a compreensão da trajetória do grupo. Foi importante deste o período de direção de Carrinho, quando organizava os ensaios e cuidava dos encargos cotidianos, atuando de maneira a viabilizar financeiramente a autonomia do grupo e ao mesmo tempo atrair novos integrantes. No ―tempo de Seu Orlando‖, entre os últimos anos da década de 1970 e 2003, o processo de institucionalização adquiriu uma face mais pronunciada. Este período é ainda de transição no que se refere à história de Itaparica, quando esta teve alterada sua inserção na rede de contatos possibilitada pelos transportes. Foi sob sua liderança que se efetivou o arranjo institucional que lançou bases para uma permanência e proeminência acentuada.
A estas indicações, os registros escritos corroboram a conclusão de que, no âmbito da cultura popular, o grupo Os Guaranys apropriou-se de vários dos elementos disponíveis quando o Caboclo é representação, expressando uma consciência nacional com suas modelações étnica e religiosa. Esta configuração desenvolveu-se enquanto um processo de institucionalização, a rotinização de certo número de condutas e padrões na sua atuação, bem como a construção de discursos coerentes sobre si e sobre os festejos como estratégias pautadas em referenciais legitimados socialmente. Como produto complexo, a um só tempo direto e indireto, reflexivo e não reflexivo para os atores sociais envolvidos, forjou-se um Brasil sob a ótica dos Guaranys que gerou consequências para a comunidade local.
A composição da festa era variada. Mesmo assim, o grupo adquiriu considerável proeminência. Compreendemos esta bem sucedida empresa como resultado de sua institucionalização, operacionalizada a partir de quatro fatores. O primeiro deles pode ser
identificado como a manipulação de um tipo específico de capital simbólico mais adequado ao contexto – a remissão ao que era percebido como geral, o orgulho nativo. O segundo seria a especialização lograda em termos da socialização e atração de novos membros. O terceiro fator corresponde às relações de parentesco permeando a sucessão entre lideranças e influenciando o ingresso. O último item desta relação seria a participação nos festejos do Dois de Julho de Salvador, desde o final dos anos de 1950, favorecendo a estabilidade da agremiação.
Com este processo, Os Guaranys forjaram uma nova tradição em que construíram uma releitura do civismo tradicional, com fortes ingredientes das religiões afro-brasileiras, do Catolicismo popular tradicional e da tradição que remete os combates de 1822-23. A estas dimensões, aportou o sentido étnico, na forma de mestiçagem, que ofereceu os contornos da ação do coletivo na estruturação de um discurso manifesto da nacionalidade. O Caboclo e Os
Guaranys são lícitos como representantes de um civismo, justamente por trazerem o que é
considerado o geral, o miscigenado, o plural e o popular.
A própria encenação do grupo guarda elementos importantes que servem como indicadores do processo. Um primeiro elemento é a existência da Aldeia e de todas as outras elaborações do cenário que remetem ao que seria próprio do Caboclo, então brasileiro. Um segundo item seria a estruturação dos personagens que marcam modelos típicos de conduta: feiticeiro/adivinhão, mestre, velho, rainha, etc. Um terceiro elemento se refere às relações com a religiosidade e a musicalidade, fortemente ancorada nos padrões do Candomblé de Caboclo e que serve de suporte ao enredo. Enredo este que representa a própria concepção de sociedade do grupo, seu discurso por excelência – por mais que os vários níveis de significado não sejam acessíveis a todos os atores envolvidos no processo. É a partir do Auto que se percebe as articulações com elementos da religiosidade católica tradicional e folguedos; o que ao longo do seu cortejo não é tão nítido.
Os festejos da Independência delineiam contornos identitários específicos no âmbito mais abrangente da própria brasilidade, identidade nacional que se lê a partir do local. A honra do Itaparicano é ritualmente invocada há décadas pela celebração característica de uma brasilidade. Neste sentido, o Auto A Roubada da Rainha é o ponto culminante desta representação que acontece como um continuum entre cortejo e apresentação, momento chave no conjunto de ritos que compõem a rememoração da luta pela Independência.
conjuntura favorável, a um contexto em que a constituição de um conjunto de referências nativas se fazia fundamental, por efeito de um demorado processo de formatação de uma narrativa nacional. É deste modo que o Caboclo marca o desenrolar da construção de uma identidade mestiça, desenvolvida em relação a ícones nacionais que remetem ao hibridismo cultural, à pluralidade étnica e à mestiçagem. Nesta linha, o grupo Os Guaranys desempenhou um papel relevante, na medida em que foram identificadas consideráveis transformações nos festejos, com diversas modulações em torno da figura do Caboclo Tupinambá, desde a sua inserção, no final dos anos 1930. A elaboração de um novo discurso dos brincantes colocou em diálogo e ressaltou os aspectos cívico, étnico e religioso do Caboclo. Entretanto, não há dúvida de que o surgimento do grupo reforça a figura do Caboclo no pódio. Os festejos continuaram mantendo o Caboclo no centro – afinal, os festejos da Independência do Brasil em Itaparica são os festejos do Caboclo.
Em suma, os festejos da Independência do Brasil em Itaparica, em seu viés expresso pelo grupo Os Guaranys, relaciona-se amplamente com um processo de longa duração de estabelecimento de uma nacionalidade articulada a representações calcadas na ideia de hibridez étnico-cultural, na medida em que sua inserção e centralidade foi viabilizada por um
habitus revigorado através de uma rememoração de uma narrativa fundante. Os Guaranys
instituíram-se progressivamente como ator central no complexo de referenciais dos festejos de Itaparica, através sobretudo das suas estratégias bem sucedidas de manipulação de referenciais cívicos, religiosos e étnicos, o que se relacionou com a figura do Caboclo para a expressão de uma formulação de brasilidade. Houve mudanças significativas nos festejos na partir de 1939, quando Os Guaranys se apropriaram da tradição do Caboclo em suas múltiplas apresentações e souberam colocar-se e manter-se numa posição de relevância. Um processo de incorporação de novos elementos que não cessa.126 Transformações que possivelmente implicarão a constituição de um novo público expectador e de novas significações.
Buscamos contribuir para a compreensão das negociações no plano da cultura entre o que se considera erudito e popular, com sua variada gama de interpenetrações. Com Os
Guaranys, foi possível ampliar a possibilidade de, ao nível das representações, captar o
quadro mais extenso que se nos mostrou possível de estudos sobre a figura do Caboclo e os processos de constituição de referenciais atuantes no plano da cultura popular. A sociedade itaparicana, interpretada pela ótica do grupo, reagiu e assimilou traços de outras festividades
126 O Capitão do Mato hoje pode fazer arremedos de golpes de lutas marciais, como nos filmes de Hollywood ou
ainda se intitular algum galã de sucesso das novelas da Rede Globo. Na apresentação de 2009, no momento de roubar a Rainha o Capitão do Mato diz: ―Vem comigo que eu sou o Gianecchini‖.
em um processo de hibridização. Propusemos uma reflexão sobre um desdobramento entre as classes subalternas de um caso construção de identidades brasileiras, no qual ocorreu a remissão aos mais diversos motivos que se articularam.
A atuação do coletivo Os Guaranys foi uma chave para acessar o universo da cultura popular, no jogo de apropriações e de reutilizações pelas quais inscreveu um modo de estar no mundo, na medida em que se apresenta como uma tessitura de elementos de diversas origens.
O produto da sua atuação foi a construção de uma forma de brasilidade concebida como pluriétnica e inclusiva. Isto se torna tanto mais importante quanto se considera que a brincadeira é como um ensaio para a vida cotidiana, no qual se manejam de maneira fantástica os dramas da vida ordinária. Desvendar a trajetória deste grupo foi nossa contribuição aos estudos sobre a nacionalidade, apresentando a face cultural desta dinâmica.
Ao contrário do que poderia dar a parecer ao adventício incauto, a letra do cântico da
Volta do Caboclo, no Nove de Janeiro, o Caboclo tanto se despede quanto fica, já que todo
ano está de volta para se despedir. É assim que o Caboclo perdura, despedindo-se e retornando a cada janeiro em Itaparica.
Despedida de Caboclo faz chorar Faz chorar, faz soluçar,
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