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Despertar para a aridez espiritual: morte

Murdock começa este capítulo compartilhando uma observação que fez enquanto psicoterapeuta. Ela escreve que, nos últimos dez anos, tem ouvido diversas histórias de mulheres entre as idades de 25 e 58 anos que sentem que o sucesso no mercado de trabalho causou um baque em suas saúdes e bem estar emocional muito além da remuneração recebida (1990, l. 1370).

E isto causa a seguinte reflexão: “Isso tudo foi pra quê? por que eu me sinto tão vazia? Eu alcancei todos os objetivos que eu estabeleci para mim mesma, mas mesmo assim algo está faltando. Eu sinto que me vendi, me trai e que perdi uma parte de mim que eu nem sei nomear” (MURDOCK, 1990, l. 1377). O sentimento de traição toma conta da heroína.

Esta sensação de estar dessincronizada consigo é seguida de um aviso mais urgente do corpo: a heroína pode sentir dificuldades de recuperar-se de uma gripe, desenvolver insônia, ter problemas de estômago, encontrar um nódulo nos seios ou começar a sangrar fora de época. Algo está errado. Esta sensação de perda que as mulheres experienciam é um anseio pelo feminino, um

desejo pela sensação de casa dentro de seus próprios corpos e comunidades (MURDOCK, 1990, l. 1393).

Em Quinta Avenida n° 1, Mindy, exaurida pelos fracassos diários, sente-se infeliz. Apesar de ter família, um bom emprego, um excelente salário e morar em um prédio de luxo em uma das melhores regiões de Manhattan, ela sente um vazio, o exato sentimento que Murdock descreve como uma traição. Mindy começa a fazer terapia e, durante as sessões, ela nota que quer engravidar novamente.

Logo depois do seu quadragésimo aniversário, em meio a um vago descontentamento, Mindy começou a ir a uma psiquiatra, especializada em uma nova abordagem psicanalitrópica chamada “adaptação à vida”. (...) Mindy saiu com uma receita de Xanax, um comprimido por dia antes da hora de dormir, para aliviar sua ansiedade e hábitos de dormir pouco saudáveis (acordava toda noite depois de ter dormindo apenas quatro horas e passava pelo menos duas horas na cama sem poder dormir, só roendo as unhas de preocupação). Também recebeu uma referência do melhor especialista em fertilidade de Manhattan. (...) Depois de dois anos de procedimentos cada vez mais complicados, Mindy desistiu. Calculou o que tinha e viu que não ia dar para continuar tentando (BUSHNELL, 2009, p.36).

Murdock (1990, l. 1385) descreve esse período como o de “seca”, onde as heroínas já não se sentem férteis em vários aspectos da vida. A autora também nota que é nesta etapa em que a heroína repara que passou pela jornada do herói, ganhou sucesso e prestígio, mas sente que perdeu uma parte da própria alma no processo.

Figura 8 - A princesa Merida e a rainha Elinor em Valente, Pixar Animation Studios, 2012.

Em Valente, essa fase da jornada começa quando a personalidade da rainha Elinor começa a perder espaço para a natureza selvagem do urso. É neste momento em que a fera, antes gentil e antropomorfizada, ataca Merida. Depois disso, as duas seguem caminho. Podemos interpretar esta caminhada que antecede a descida ao submundo da seguinte forma: Merida, seguindo os passos da heroína, esta trilhando seu caminho com a natureza feminina ao seu lado, representada pela mãe urso. No entanto, ao aproximar-se das profundezas sombrias do estágio seguinte, esta natureza feminina corre o risco de se perder. No cenário, podemos ver a aridez espiritual de ambas nas árvores secas e retorcidas, na neblina que cobre o espaço, na escuridão que rodeia as personagens (figura 8).

A jornada do herói, que na heroína pode tomar a forma do seu masculino interior, é como que uma traição para a protagonista. Na história de Ifigênia, esta dinâmica é personalizada na figura do pai, Agamemnon.

Os reis gregos Agamênon e Menelau estavam em Aulis com suas frotas prontas para ir até Tróia, onde pretendiam “resgatar” a rainha Helena - e, consequentemente, invadir a cidade.

E agora vem um evento desastroso: os veleiros estão todos reunidos, prontos para singrar os mares até Tróia, mas não há vento. Isso porque as tropas de Agamênon ofenderam Ártemis matando uma lebre prenhe. Calcas, sacerdote da frota, aconselha Agamênon dizendo que é necessário um sacrifício para conseguir vento - um sacrifício humano. Então, Agamênon manda dizer à sua esposa, Clitemnestra, que mande Ifigênia, sua filha mais nova. E a sacrifica para conseguir vento. (...) Na versão de Eurípedes, no momento da execução de Ifigênia, Ártemis a substitui por uma Ifigênia ilusória e leva embora a verdadeira, que se torna sacerdotisa de Ártemis em Táuris. Mas na Ilíada, Ifigênia é sacrificada e isso traz de volta os ventos que levam o exército até Tróia (CAMPBELL, 2015, p. 190 - 191).

Murdock (1990, l. 1455) nota que nesta história, Ifigênia ficou frente a frente com o espírito arqutípico masculino e perdeu a fé no próprio pai. Quando ela aproximou-se da morte, foi redimida pelo princípio feminino, representado pela Deusa Ártemis. Ela também aponta para o fato de que o ato aparentemente heróico de redenção de Ifigênia levou ao declínio uma das maiores culturas da época e tragicamente afirmou o poder, orgulho e arrogância da jornada heróica grega.

Nisto, a autora (1990, l. 1500) também ressalta que, nos últimos cinco mil anos, a cultura tem sido amplamente definida por homens que tem uma visão orientada pela produção, poder e dominação da vida. Consequentemente, o respeito pela vida e pelos limites e ciclos da natureza não é uma prioridade.

As heroínas, então, devem aprender a parar de somente fazer e simplesmente ser. A heroína deve ouvir sua voz interior, o que significa silenciar - dizer ‘não’ - a voz ansiosa que diz o tempo todo o que ela deve fazer. “Quando nós dizemos não ao patriarcado, nós iniciamos nossa descida ao espírito da deusa onde o poder e paixão do feminino esteve adormecido no submundo - em exílio por cinco mil anos” (MURDOCK, 1990, l. 1582).

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