Liberdade, igualdade, fraternidade
45 Despotismo: tirania, autoritarismo — N E.
no coração dos homens e não se muda o coração dos homens por meio de ordenações. Do mesmo modo que para fazer que um campo frutifique, é necessário que arranquem os seus pedrouços e os tocos, aqui também é preciso trabalhar sem descanso para extirpar o vírus do orgulho e do egoísmo, pois que aí se encontra a causa de todo o mal — o obstáculo real ao reinado do bem. Eliminem das leis, das instituições, das religiões, da educação até os últimos vestígios dos tempos de barbárie e de privilégios, bem como todas as causas que alimentam e desenvolvem esses eternos obstáculos ao verdadeiro progresso, os quais, por assim dizer, bebemos com o leite e aspiramos por todos os poros na atmosfera social. Somente então os homens compreenderão os deveres e os benefícios da fraternidade e também se firmarão por si mesmos, sem abalos, nem perigos, os princípios complementares, os da igualdade e da liberdade.
Será possível a destruição do orgulho e do egoísmo? Responderemos alto e terminantemente: SIM. Do contrário, seria preciso determinar um ponto de parada ao progresso da Humanidade. É fato incontestável que o homem cresce em inteligência; ele terá chegado ao ponto culminante, além do qual não possa ir? Quem ousaria sustentar tão absurda tese? Ele progride em moralidade? Para responder a esta questão, basta se comparem as épocas de um mesmo país. Por que teria ele atingido o limite do progresso moral e não o do progresso intelectual? Sua aspiração por uma melhor ordem de coisas é indício da possibilidade de alcançá-la. Aos que são progressistas cabe acelerar esse movimento por meio do estudo e da utilização dos meios mais eficientes.
As aristocracias
Aristocracia vem do grego aristos = o melhor, e kratos = poder. Então, em sua acepção literal, aristocracia significa: poder dos melhores. Temos que convir em que o sentido original tem sido por vezes singularmente deturpado; mas, vejamos que influência o Espiritismo pode exercer na sua aplicação. Para esse efeito, tomemos as coisas no ponto de partida e as acompanhemos através das idades, a fim de deduzirmos daí o que acontecerá mais tarde.
Em nenhum tempo, nem no meio de nenhum povo, os homens em sociedade têm podido prescindir de chefes; estes estão presentes nas tribos mais selvagens. Isto decorre de que — em razão da diversidade das aptidões e das características inerentes à espécie humana — há por toda parte homens incapazes, que precisam ser dirigidos, homens fracos que reclamam proteção, paixões que exigem repressão. Daí a necessidade imperiosa de uma autoridade. É sabido que nas sociedades primitivas essa autoridade foi conferida aos chefes de família, aos antigos, aos anciãos; numa palavra: aos patriarcas. Essa a primeira de todas as aristocracias.
Tornando-se numerosas as sociedades, a autoridade patriarcal veio a ficar impotente em certas circunstâncias. As querelas entre povoações vizinhas deram lugar a combates; para dirigi-las, fez-se necessário não mais os velhos, porém homens fortes, vigorosos e inteligentes; daí os chefes militares. Vitoriosos, estes chefes foram investidos da autoridade, esperando os seus comandados que com a valentia deles estariam garantidos contra os ataques dos inimigos. Muitos deles, abusando da posição a que tinham sido elevados, se apossavam dela por si mesmos. Depois, os vencedores passaram a impor-se aos vencidos, ou os reduziram à escravidão. Daí a autoridade da força bruta, que foi a segunda aristocracia.
Com os bens que possuíam, os fortes transmitiriam muito naturalmente a seus filhos a autoridade de que desfrutavam; e os fracos, nada ousando dizer, se habituaram pouco a pouco a ter esses filhos por herdeiros dos direitos que os pais haviam conquistado e a considerá-los seus superiores. Veio assim a divisão da sociedade em duas classes: a dos superiores e a dos inferiores, a dos que mandam e a dos que obedecem. Estabeleceu-se de tal modo a aristocracia do nascimento — que tão poderosa e preponderante se tornou — quanto a da força, visto que, se não tinha por si a força, como nos primeiros tempos, em que importava fizesse cada um o sacrifício da sua pessoa, dispunha de uma força mercenária. Na posse de todo o poder, ela naturalmente se atribuiu todos os privilégios.
Para conservação destes, era necessário que o prestígio da legalidade lhes fosse dado; ela então fez leis em seu próprio proveito, o que lhe era fácil, pois que ninguém mais as fazia. Entretanto, como isto não bastasse, juntou aos privilégios o prestígio do direito divino, para torná-los respeitáveis e invioláveis. A fim de lhes assegurar o respeito das classes submetidas, que se faziam cada vez mais numerosas e mais difíceis de ser contidas, mesmo pela força, um único meio havia: impedi-las de ver claro, isto é,
conservá-las na ignorância.
Se a classe superior tivesse podido manter a classe inferior sem se ocupar com coisa alguma, assim a teria governado facilmente durante ainda longo tempo; mas, como a segunda fosse obrigada a trabalhar para viver, e trabalhar tanto mais quanto mais espremida se achava, resultou que a necessidade de encontrar incessantemente novos recursos de lutar contra uma concorrência invasora, de procurar novos mercados para os produtos, lhe desenvolveu a inteligência e fez com que as próprias causas, de que os da classe superior se serviam para trazê-la sujeita, a esclarecessem. Não se evidencia aí o dedo da Providência?
A classe submetida viu as coisas com clareza; viu a fraca consistência que lhe opunham e, sentindo-se forte pelo número, aboliu os privilégios e proclamou a igualdade perante a lei. Este princípio, no seio de alguns povos, marcou o fim do reinado da aristocracia de nascimento, que passou a ser apenas nominal e honorífica, porque já não confere direitos legais.
Elevou-se então uma nova potência, a do dinheiro, porque com dinheiro se dispõe dos homens e das coisas. Era um sol nascente e diante do qual todos se inclinaram, como outrora se curvavam diante de um brasão. O que não se concedia ao título, concedia-se à riqueza e a riqueza teve igualmente seus privilégios. Mas logo se aperceberam de que era necessária certa dose de inteligência para conseguir a riqueza, não sendo necessária muita para herdá-la, e de que os descendentes são quase sempre mais hábeis em consumi-la do que em ganhá-la, de que os próprios meios de enriquecimento nem sempre são irreprocháveis, donde resultou o dinheiro ir perdendo pouco a pouco o seu prestígio moral e tender essa potência a ser substituída por outra, por uma aristocracia mais justa: a da inteligência, diante da qual todos podem se curvar, sem se envilecerem, porque ela pertence tanto ao pobre quanto ao rico. Será a última?
Será a mais alta expressão da Humanidade civilizada? Não.
A inteligência nem sempre constitui penhor de moralidade e o homem mais inteligente pode fazer péssimo uso de suas faculdades. Doutro lado, a moralidade, isolada, pode, muita vez, ser incapaz. Portanto, a reunião dessas duas faculdades — inteligência e moralidade — é necessária a criar uma preponderância legítima, a que a massa se submeterá cegamente, porque lhe inspirará plena confiança, pelas suas luzes e pela sua justiça.
Será essa a última aristocracia, a que se apresentará como consequência, ou, antes, como sinal do advento do reinado do bem na Terra. Ela se erguerá muito naturalmente pela força mesma das coisas. Quando os homens de tal categoria forem bastante numerosos para formarem uma maioria imponente, a massa lhes confiará seus interesses.
Como vimos, todas as aristocracias tiveram sua razão de ser; nasceram do estado da Humanidade; assim há de acontecer com o que se tornará uma necessidade. Todas preencheram ou preencherão seu tempo, conforme os países, porque nenhuma teve por base o princípio moral; só este princípio pode constituir uma supremacia durável, porque terá a animá-la sentimentos de justiça e caridade. A essa aristocracia chamaremos: aristocracia intelecto-moral.
Mas, semelhante estado de coisas será possível com o egoísmo, o orgulho, a ambição que reinam soberanos na Terra? Responderemos terminantemente: sim, não só é possível, como se implantará, por ser inevitável.
Hoje a inteligência já domina; é soberana, ninguém pode contestar isso. É tão verdade que já se vê o homem do povo chegar aos cargos de primeira ordem. Essa aristocracia não será mais justa, mais lógica, mais racional, do que a da força bruta, do nascimento, ou do dinheiro? Então, por que seria impossível que a ela se juntasse a moralidade? Os pessimistas dizem: porque o mal domina sobre a Terra. Quem ousará
dizer que o bem nunca o superará? Os costumes e, por conseguinte, as instituições sociais, não valem cem vezes mais hoje do que na Idade Média? Cada século não se assinala por um progresso? Por que, então, a Humanidade pararia, quando ainda tem tanto que fazer? Por instinto natural, os homens procuram o seu bem-estar; se não o acharem completo no reino da inteligência, o procurarão em outros lugares, e onde poderão encontrá-lo, senão no reino da moralidade? Para isso, torna-se preciso que a moralidade supere numericamente. Não há como contestar que muitíssimo se tem que fazer; mas, ainda uma vez, seria tola pretensão dizermos que a Humanidade chegou ao apogeu, quando é vista a avançar continuamente pela senda do progresso.
Digamos, antes de tudo, que na Terra os bons não são absolutamente tão raros como se julga; os maus são numerosos, infelizmente é verdade; porém, o que faz com que eles pareçam ainda mais numerosos é que têm mais audácia e sentem que essa audácia lhes é indispensável para o bom êxito. De tal modo, entretanto, compreendem a preponderância do bem, que, não podendo praticá-lo, com ele se mascaram.
Os bons, ao contrário, não fazem alarde das suas boas qualidades; não se põem em evidência, donde o parecerem tão pouco numerosos. No entanto, pesquisem os atos íntimos praticados sem ostentação e, em todas as camadas sociais, encontrarão criaturas de natureza boa e leal em número bastante a lhes tranquilizar o coração, de maneira a não se desesperarem da Humanidade. Depois, cumpre também dizê-lo, entre os maus, muitos há que apenas são assim por arrastamento e que se tornariam bons, desde que submetidos a uma influência boa. Admitamos que em 100 indivíduos haja 25 bons e 75 maus; destes últimos, contamos 50 que são assim por fraqueza e que seriam bons, se observassem bons exemplos e, sobretudo, se tivessem sido bem encaminhados desde a infância; dos 25 maus, nem todos serão incorrigíveis.
No estado atual das coisas, os maus estão em maioria e ditam a lei aos bons. Suponhamos que uma circunstância qualquer opere a conversão de 50 por cento deles: os bons ficarão em maioria e a seu turno ditarão a lei; dos 25 outros, francamente maus, muitos sofrerão a influência daqueles, restando apenas alguns incorrigíveis sem preponderância.
Tomemos um exemplo, para ilustrar o que acabamos de dizer: Há povos no seio dos quais o assassínio e o roubo é normal e o bem é uma exceção. Nos povos mais adiantados e mais bem governados da Europa, o crime é a exceção; acuado pelas leis, ele não exerce nenhuma influência sobre a sociedade. O que nesses povos ainda predomina são os vícios de caráter: o orgulho, o egoísmo, a cupidez com seus cortejos.
Como esses povos progridem, por que os vícios não se tornariam a exceção, como o são hoje os crimes, ao passo que os povos inferiores galgariam o nosso nível? Negar a possibilidade dessa marcha ascendente seria negar o progresso.
Certamente, chegar a tal estado de coisas não pode ser obra de um dia, mas, se há uma causa capaz de apressar-lhe o advento, essa causa — sem nenhuma dúvida — é o Espiritismo. Fator por excelência da fraternidade humana, por mostrar que as provas da vida atual são a consequência lógica e racional dos atos praticados nas existências anteriores, por fazer de cada homem o artífice voluntário da sua própria felicidade, a vulgarização universal do Espiritismo dará em resultado, necessariamente, uma elevação sensível do nível moral da atualidade.
Apenas elaborados e coordenados, já os princípios gerais da nossa filosofia hão congregado, em imponente comunhão de ideias, milhões de adeptos espalhados por toda a Terra.
Os progressos realizados pela sua influência, as transformações individuais e locais que eles têm provocado em menos de quinze anos, permitem apreciemos as modificações imensas e radicais que operarão no futuro.
Espíritos, o nível moral da Humanidade tende constantemente a se elevar, estranhamente se iludiria quem supusesse que a moralidade preponderará sobre a inteligência. O Espiritismo, com efeito, não quer que o aceitem cegamente; requer a discussão e a luz.
“Em vez da fé cega, que aniquila a liberdade de pensar, diz ele: Não há fé inabalável, senão aquela que possa encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade. A fé necessita de base e esta base consiste na inteligência perfeita daquilo em que devemos crer. Para crer, não basta ver, é, sobretudo, preciso compreender” ("O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO") Com bom direito, pois, podemos considerar o Espiritismo como um dos mais fortes precursores da aristocracia do futuro, isto é, da aristocracia intelecto-moral.
Os desertores
Se é certo que todas as grandes ideias contam apóstolos fervorosos e dedicados, não menos certo é que mesmo as melhores dentre elas têm seus desertores. O Espiritismo não podia escapar aos efeitos da fraqueza humana. Ele também teve os seus e a esse respeito não serão inúteis algumas observações.
Nos primeiros tempos, muitos se equivocaram sobre a natureza e os fins do Espiritismo e não perceberam o seu alcance. Antes de tudo mais, excitou a curiosidade; muitos eram os que não viam nas manifestações espíritas mais do que simples objeto de diversão; divertiram-se com os Espíritos, enquanto estes quiseram diverti-los. Constituíam um passatempo, muitas vezes complementar das reuniões familiares.
Esta maneira como a coisa se apresentou a princípio foi uma tática hábil dos Espíritos. Sob a forma de divertimento, a ideia penetrou por toda parte e semeou germens, sem apavorar as consciências acanhadas. Brincaram com a criança, mas a criança tinha de crescer.
Quando os Espíritos brincalhões foram sucedidos pelos Espíritos sérios e moralizadores; e quando o Espiritismo se tornou ciência e filosofia, as pessoas superficiais deixaram de achá-lo divertido; para os que se preocupam sobretudo com a vida material, era um censor importuno e embaraçoso, e por isso muitos o puseram de lado. Não há que deplorar a existência desses desertores, pois as criaturas frívolas não passam de pobres auxiliares, seja no que for. Todavia, essa primeira fase não se pode considerar tempo perdido. Graças àquele disfarce, a ideia se popularizou cem vezes mais do que se desde o primeiro momento tivesse revestido uma forma severa, e daqueles meios levianos e displicentes saíram graves pensadores.
Postos em moda pelo atrativo da curiosidade, como sendo uma isca, os fenômenos excitaram o desejo dos que andam à procura do que surge como novidade, na esperança de encontrar aí uma porta aberta. As manifestações pareceram coisa maravilhosamente explorável e não faltou quem pensasse em fazer delas um auxiliar de seus negócios; para outros, eram uma variante da arte da adivinhação — um processo, talvez mais seguro do que a cartomancia, a quiromancia, a borra de café etc. — para se conhecer o futuro e descobrir coisas ocultas, uma vez que, segundo a opinião então corrente, os Espíritos sabiam de tudo. Afinal, essas pessoas vendo que a especulação lhes escapava dentre os dedos e acabava em mistificação, e que os Espíritos não vinham ajudá-las a enriquecer, nem lhes indicar números que seriam premiados nas loterias, ou revelar-lhes a boa sorte, ou levá-las a descobrir tesouros, ou a receber heranças, nem ainda facultar-lhes uma invenção frutuosa de que tirassem patente, suprir-lhes em suma a ignorância e dispensá-las do trabalho intelectual e material, os Espíritos para nada serviam e suas manifestações não passavam de ilusões. Essas pessoas tanto deferiram louvores ao Espiritismo durante todo o tempo em que esperaram arrancar algum proveito dele, quanto o denegriram desde que chegou a decepção. Mais de um dos críticos que o insultam o teriam elevado às nuvens, se ele tivesse feito que descobrissem um tio rico na América, ou que ganhassem na Bolsa. Das categorias dos desertores, é
essa a mais numerosa; mas, compreende-se que os que a formam não podem ser qualificados de espíritas.
Essa fase também apresentou sua utilidade. Mostrando o que não devíamos esperar do auxílio dos Espíritos, ela nos fez conhecer o objetivo sério do Espiritismo e depurou a doutrina. Os Espíritos sabem que as lições da experiência são as mais proveitosas; se logo de começo eles dissessem: Não peçam isto ou aquilo, porque não conseguirão nada, ninguém mais lhes daria crédito. Essa a razão por que deixaram que as coisas tomassem o rumo que tomaram: foi para que da observação ressaltasse a verdade. As decepções desanimaram os exploradores e contribuíram para que o número deles diminuísse. Elas — as decepções — livraram o Espiritismo dos parasitas e não dos adeptos sinceros.
Alguns indivíduos — mais perspicazes do que outros — viram o homem na criança que acabava de nascer e temeram-na, como Herodes temeu o menino Jesus. Não se atrevendo a atacar o Espiritismo de frente, esses indivíduos incitaram agentes com o encargo de o abraçarem para asfixiá-lo; agentes que se mascaram para em toda parte se intrometerem, para suscitarem habilmente a desafeição nos centros e dentro destes espalharem o veneno da calúnia com furtiva mão, acendendo, ao mesmo tempo, o facho da discórdia, inspirando atos comprometedores — tentando desencaminhar a doutrina, a fim de torná-la ridícula ou odiosa — e simular em seguida deserções.
Outros ainda são mais habilidosos: pregando a união, semeiam a separação; espertamente levantam questões irritantes e ferinas; despertam o ciúme da preponderância entre os diferentes grupos; gozariam, vendo-os apedrejar-se e erguer bandeira contra bandeira, a pretexto de algumas divergências de opiniões sobre certas questões de forma ou de fundo, muitas vezes provocadas intencionalmente. Todas as doutrinas têm tido seus Judas; o Espiritismo não poderia deixar de ter os seus e eles ainda não lhe faltaram.
Esses são espíritas de contrabando, mas que também foram de alguma utilidade: ensinaram ao verdadeiro espírita a ser prudente, circunspecto e a não se fiar nas aparências.
Por princípio, deve-se desconfiar dos entusiasmos demasiado febris: são quase sempre fogo de palha, ou enganações, ardores ocasionais, que suprem com a abundância de palavras a falta de atos. A verdadeira convicção é calma, refletida, motivada; revela- se, como a verdadeira coragem, pelos fatos, isto é, pela firmeza, pela perseverança e, sobretudo, pela abnegação. O desinteresse moral e material é a legítima pedra de toque da sinceridade.
Esta tem um cunho bem particular; exterioriza-se por tons muitas vezes mais fáceis de ser compreendidos do que definidos; é sentida por efeito dessa transmissão do pensamento, cuja lei o Espiritismo regulou, sem que a falsidade chegue nunca a simulá- la completamente, visto não lhe ser possível mudar a natureza das correntes fluídicas que projeta de si. Ela — a sinceridade — considera erro dar troco à bajulação baixa e servil, que somente seduz as almas orgulhosas, lisonja por meio da qual precisamente a falsidade se trai para com as almas elevadas.
Jamais o gelo pode imitar o calor.
Se passarmos à categoria dos espíritas propriamente ditos, ainda aí depararemos com certas fraquezas humanas, das quais a doutrina não triunfa imediatamente. As mais difíceis de vencermos são o egoísmo e o orgulho — as duas paixões originárias do homem. Entre os adeptos convictos, não há deserções, na legítima acepção do termo, visto como aquele que desertasse — por motivo de interesse ou qualquer outro — nunca teria sido sinceramente espírita; pode, entretanto, haver enfraquecimentos. Pode ser que a coragem e a perseverança fraquejem diante de uma decepção, de uma ambição frustrada, de uma preeminência não alcançada, de uma ferida
no amor-próprio, de uma prova difícil. Há o recuo ante o sacrifício do bem-estar, ante o receio de comprometer os interesses materiais, ante o medo do “que dirão?”; há o ato de ser-se abatido por uma mistificação, tendo como consequência, não o afastamento, mas