2. I PARTE | Mirada
2.3 Desvelamentos Corporais
[...] O propósito de desmontar processos teatrais, coloca em questão o sistema estrutural ao submetê-lo a uma mirada de outros sem pretender perpetuar modelos, colocado no território de discussão a dura consistência das categorias, das poéticas e dos sistemas fechados de avaliação e pensamento. Ileana Diéguez Caballero (2009, p. 13).
Em seu livro: Des/tejiendo escena. Desmontajes: procesos de investigación y
creación, Ileana Diéguez Caballero (2009), reconhecida como uma das principais referências
acerca do tema da desmontagem, observa as diferentes maneiras de refletir os processos corporais e aponta que a desmontagem pode ser realizada por diferentes artistas, seja através de demonstrações técnicas, desmontagens e/ou performances de seus processos, como também, de performances políticas realizadas por cidadãos que acabam por estabelecer miradas outras às políticas de suas montagens.
Em sua discussão propõe um caminho diferente da noção teatral no qual as obras são tecidas através das relações construídas durante o processo, ou seja, da cena sem pretensão direta de referenciar um texto prévio. Trata-se de uma problematização que se arrisca em investigar uma experiência particular, pelas necessidades poéticas, culturais, sociais de cada ‘contexto representacional’ (CABALLERO, 2009, p. 12).
A desmontagem está muito longe de ser um espetáculo; ela é o oposto. Apresenta seu avesso e é em ‘si mesmo’ que o desvela, tornando-se um ato que sugere a recriação e a invenção de outras maneiras de atuar: ética, estética e politicamente. Acreditando naqueles que se aventuraram na subsequente sensação de ter que repensar suas práticas, e re-performar suas ações, refletindo não só o fazer artístico, mas também os contextos culturais e políticos que sugerem oxigenar “os marcos e muito especialmente propõem novos desafios para quem estuda e reflete ao redor da cena” (IDEM, p. 10).
Esses outros modos vêm sendo utilizados para os diferentes significados que o conceito de desmontagem carrega consigo. Estabelecemos aqui o recorte desta pesquisa, visto que se fôssemos estudar o fenômeno da desmontagem, muitas seriam as histórias que poderiam ser contadas sobre sua origem. Num gesto de desmontar os nossos processos, na possibilidade de trabalhar o cotidiano acadêmico e pensar a desmontagem como um caminho metodológico, a priori, estudamos o que fazemos: o teatro e o corpo; ou, mais especificamente, o corpo que o teatro que fazemos, produz.
Essa mudança de paradigma através da desmontagem originou outras formas de escritura que possibilitaram, nos anos 90 do século passado, novos modelos de formação e atuação dos grupos por toda a Latino América e provocaram uma crise que diríamos vir de
encontro à resistência militante. O trabalho com a desmontagem deu também, aos teatros latino-americanos outra roupagem distanciando-os das técnicas e formas, questionando o papel do artista diante de seus espectadores, o que resultou em biografias particulares e de performances inscritas mediante uma memória pessoal presente18.
Encontramos nas práticas de desmontagem um movimento constante e transformador através de estratégias que questionam o próprio processo criativo, ou seja, seu próprio material biográfico e corporal. Sua abordagem prevê outras condições de funcionamento do discurso, impulsionado pelas circunstâncias que se atravessam durante um processo criativo, por exemplo, colocando em discurso a decomposição, desconstrução ou “desmontagem da cena como suporte e aspecto investigativo que geram reflexões, acerca de ferramentas que proporcionaram adentrar um território de intervenções e competências na cena”. (SANTOS, 2015, p. 166).
A desmontagem, assim como na demonstração, não tem por interesse uma relação de juízo de valor, mas está centrada no espaço de desvelamentos em que “o artista organiza sua trajetória de um processo de criação específico a partir de seus arquivos, traços, esboços, dentro outros, ou seja, não existe método pronto acabado para organização da desmontagem” (SANTOS, 2014, p. 68).
A perspectiva de não existir um único modo/caminho de ação/reflexão, já estava inserida nas práticas apontadas por Eugenio Barba (2009), que passou também a desenvolver outras miradas e resoluções de partilha coletiva de criação. Acreditava-se que a antropologia teatral elucidada por Barba, se estabelecia como um método de trabalho a ser reproduzido.
Estes outros modos, permitiram ao pensamento teatral da Latino América, diferentes tentativas de reprodução disseminadas ao longo dos anos 90. Desmontagens se inscrevem “a partir da análise de processos de criação de coletivos de performers e coletivos latino- americanos para um despertar da nossa consciência sobre o trabalho da memória na concepção e condução do trabalho pedagógico” (SANTOS, 2014, p.68).
A princípio nos perguntamos como poderíamos criar uma desmontagem? Ela (a desmontagem) se apresenta como uma proposição teórico/prática mediada na cena expandida, como dispositivo de resistência, ação política e criação de outras dramaturgias. Ou seja, para uma desmontagem caberia outra desmontagem da que antecedeu sua escritura, e assim por
18 “O sentido para o presente, neste caso “se dá como tal, só aparece a si, só apresenta, só abre a cena do
tempo ou tempo da cena acolhendo a sua própria diferença intestina, na dobra interna da sua repetição originária, na representação. Na dialética” (DERRIDA, 1995, p. 173).
diante, refletindo para provocar mudanças que transformem os corpos de quem se arrisca a experimentá-la.
Enquanto estratégia de procedimento artístico/pedagógico de atuação, a desmontagem começou a ser estudada e experimentada por diferentes artistas e pesquisadores que encontraram nessa proposta, uma maneira mais íntima e pessoal de desvelar-se com o público, quanto à trajetória percorrida em seus processos criativos e coletivos.
Parte da experimentação dos procedimentos de desmontagem estabelece diálogos que manifestam diferentes visões sobre a processualidade da cena contemporânea, apresentando a desmontagem na dimensão pedagógica, para pensar o conceito no contexto educacional da universidade. O trabalho com a desmontagem reconhece que cada indivíduo é responsável por compor um modo de produção e os temas de sua própria desmontagem, “os autores apresentam, muitas vezes, as relações entre a trajetória pessoal e profissional, unindo práticas pedagógicas e artísticas” (LEAL, 2014, p. 3), um entrelaçamento entre trajetórias pessoais, poéticas e os percursos históricos e culturais.
Nesse recorte desejamos tratar, das poéticas da experiência como um interessante caminho para experimentar e compreender alguns destes processos em reverberação com a formação artística. A desmontagem cênica, portanto, reconhece uma pedagogia do artista e fundamenta-se nas poéticas da experiência que segundo Mara Lucia Leal19 (2014), no dossiê III Interfaces Internacional – Intercâmbio em Artes Cênicas (UFU-MG, 2013), aponta para o percurso atual dessas escolhas e buscas, ao admitir diferentes procedimentos, gêneros literários e/ou imagéticos. O artista, para refletir sobre os papéis de atuação, desvela suas experiências numa dimensão pedagógica, estética e política que lhe permite “sair de uma trajetória de superfície para um mergulho em profundidade em seu próprio percurso, e não apenas pelo uso desses materiais de registro, como apoio para as ações” (LEAL 2014, p.4).
As poéticas da experiência se realizam em diferentes contextos e modos e por sua vez, possibilitam aos grupos latino-americanos uma maneira de continuar produzindo sua arte através de gestos e manifestos que questionam os modos, além de propor meios de existência
19 Mara Leal é atriz-performer-pesquisadora. Docente do Curso de Teatro, do Programa de Pós-
Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UFU e do Mestrado Profissional em Artes (PROF-ARTES). Desenvolve pesquisa sobre Cena Contemporânea e Performance na interface entre criação e práticas artístico- pedagógicas. Pesquisadora do grupo GEAC (CNPq) e integrante da equipe editorial da Revista Rascunhos. Organizou os InterFaces e os dossiês sobre Desmontagem (2013/14) e Performance e Pedagogia (2016/17), publicados na Revista Rascunhos. É autora do livro Performance e(m) Memória (EDUFU, 2014) e de artigos de divulgação de suas pesquisas. Em 2017 realizou a pesquisa de pós-doutorado Performance e pedagogias: poéticas e políticas do corpo entre México e Espanha: Universidad Autónoma Metropolitana (Cuajimalpa- México-DF) e Universidad Castilla-La Mancha (Cuenca). Desde 2013 apresenta a desmontagem Memória em processos.
com suas desmontagens que recriam a trajetória de diferentes coletivos de artistas através de suas experiências.
Vimos que tanto o pensamento de Leal (2014) quanto Diéguez (2009, 2011, 2014), mostraram um interesse em refletir como se dão os processos de formação no ambiente acadêmico e isto nos despertou a ‘curiosidade’20 e o desejo de “poder aprofundar e
sistematizar as investigações sobre a cena contemporânea, especialmente aquelas voltadas para as interfaces que vêm se estreitando entre a criação e a pedagogia” (LEAL, 2014, p. 2).
Dimensionamos uma carga pedagógica sem estabelecer um caminho, a priori, mas nos relacionamos dialeticamente de maneira que pudéssemos perceber nas práticas cênicas, vivências performativas, compartilhadas e interativas de um ‘corpo vibrátil’ acerca de suas relações, contaminações e transgressões.
Um dos pontos em destaque, nas leituras em desmontagem que realizamos, está relacionado com o uso de suportes visuais, textuais e de registros em geral, como meios de revelar os percursos pessoais e a explicitação da historicidade dos processos. Os registros, através de fotografias, de filmagens, de reflexões e de objetos que possuíam sentido e significação, resgatam vestígios pessoais. Há possibilidades de emprego da memória, dos afetos e da percepção na criação da desmontagem.
Como matéria prima das desmontagens, esses resíduos de processos teriam potencial na construção de formas pedagógicas. Situado nos espaços da vida onde são evidenciados campos de forças das lutas de poder, Ileana Diéguez Caballero (2009; 2011) observa as diferentes maneiras de refletir os processos corporais e aponta que a desmontagem pode ser realizada por diferentes artistas, seja através de demonstrações técnicas, desmontagens de processos e/ou performances de seus processos, como também, de performances políticas realizadas por cidadãos que acabam por estabelecer miradas outras às políticas de suas montagens.
Enquanto instauração de um acontecimento, esta proposta com o teatro performativo, nos levou a compartilhar com espectadores uma ideia de performance que acontece no aqui- agora e atua diretamente na transformação da cena em conjunto com o espectador, do qual o sujeito sairá transformado, esperando uma outra performance para seguir o seu percurso e seu corpo, ou seja, o contato com a memória produzida pela experiência.
20 Essa curiosidade epistemológica refere-se ao que Paulo Freire (1996), nos aponta para a pedagogia da