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Desvendando os periódicos e o cotidiano da esquadra

No documento 2012Fabiano Barcellos Teixeira (páginas 87-91)

Anexo I. Tratado de Amistad, Comercio y Navegación entre Paraguay y el Brasil [21 artículos],

6.5 Desvendando os periódicos e o cotidiano da esquadra

Figura 27: General Urquiza [1801-70], presidente da Confederação Argentina entre 1854-60

Fonte: http://www.revisionistas.com.ar/wp-content/uploads/2009/04/justo-jose-de- urquiza.jpg

6.5 Desvendando os periódicos e o cotidiano da esquadra

A leniência argentina ante a passagem da esquadra imperial pelos seus rios foi comentada em periódicos argentinos e no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro. Em 2 de março de 1855, o referido diário carioca divulgou notícias do rio da Prata trazidas pelo paquete [navio de correspondências] inglês Pampero.236 Em 30 de janeiro, a divisão naval imperial entrou no rio Paraná e chegou à Bajada, capital de Entre Rios, em 4 de fevereiro, seguindo rio acima, em 7 de fevereiro. O periódico afirmou que a esquadra “tanto nas povoações pertencentes ao Estado de Buenos Aires como de Entre Rios, foi bem recebida, tanto por parte dos habitantes como das autoridades”. Em Assunção, o governo paraguaio preparava a defesa, embora desejasse firmar acordos, assinalou.237

Em 27 de janeiro de 1855, o ministro bonaerense Irineo Portela [1802-61] escreveu ao ministro imperial, em Buenos Aires, Rodrigo de Souza da Silva Pontes [1799-1855]. Irineo Portela 

236Jornal do commercio. 02 de março de 1855, n. 61. 237 Ibidem.

ϴϴ afirmou que ao navegar sem permissão pelas águas portenhas, o governo imperial teria desrespeitado o governo que ele representava. Porém, em seguida, o ministro argentino ponderou que Buenos Aires guardaria silêncio a respeito do assunto porque as intenções imperiais seriam pacíficas. Ele ainda citou um documento, de 13 de dezembro, no qual o diplomata imperial teria informado, confidencialmente, sobre a passagem da divisão naval, procurando justificar a atitude imperial e ajustar as relações entre Buenos Aires e o império do Brasil.238

O governo de Buenos Aires, via periódicos, tentou explicar à população sua posição condescendente diante da passagem da esquadra imperial por suas águas jurisdicionais. “O Império do Brasil é uma nação amiga com intenções pacíficas. O governo do Paraguai atua de maneira arrogante.” Por culpa de governos anteriores, foi concedida permissão de passagem à esquadra. A independência do Paraguai, reconhecida por Buenos Aires, e a dissolução do Estado argentino, sancionada por Buenos Aires, foram determinantes para que ocorresse a liberação, definiu a reportagem do Comercio del Plata.239 Ao decorrer de 1853-4, barcos de guerra estadunidenses, franceses e ingleses passaram por seus rios em direção ao Paraguai. A paz e a guerra seriam atributos das nações independentes, complementou.240

Em 14 de abril de 1855, o Jornal do Commercio divulgou tradução de extensa matéria [1/2 página], publicada pelo periódico de Buenos Aires La Tribuna.241 Fundado em agosto de 1853, pelos irmãos Héctor Florencio Varela [1832-91] e Mariano Varela [1834-1902], o diário La Tribuna foi o mais popular de Buenos Aires até os 1880. Os irmãos Varela nasceram em Montevidéu e ainda criança migraram para o Rio de Janeiro, sendo que Mariano quando muito jovem trabalhou na tipografia do Jornal do Commercio.242 O jornalista Florencio Varela [1807-48], pai de Héctor e Mariano, foi redator do periódico portenho Comercio del Plata, onde escrevia textos críticos à política federalista de Rosas o que motivara seu exílio em Montevidéu, com sua família, nos 1840.243

Mariano e Héctor Varela eram de tendência liberal e apoiavam ao governo de Buenos Aires quando a província portenha esteve separada da confederação Argentina [1852-62], ou seja, eram contra qualquer política de tendências “federalistas”. Neste sentido, muitas matérias publicadas no

La Tribuna associavam o governo do Paraguai ao da confederação Argentina, pois ambos



238 Ibidem.

239 Jornal do Commercio. 14 de março de 1855, n. 73. 240 Ibidem.

241 Idem. 14 de abril de 1855, n. 102.

242 PICCIRILLI, Ricardo. Diccionario Histórico Argentino. Tomo VI. Buenos Aires: Ediciones Históricas Argentinas, Lavalle 542, 1954. p. 743-5.

243 VARELA, Florencio. Auto-biografía de D. Florencio Varela, natural de Buenos-Ayres, redactor del "Comercio del Plata". Montevidéu: Imprenta del "Comercio del Plata", 1848. Disponível em: <http://pds.lib.harvard.edu/pds/view/2588013?n=1&s=4&printThumbnails=no>. Acessado em 18 de setembro de 2011.

ϴϵ desrespeitavam os princípios liberais – de livre-câmbio e unitarismo – proposto e perseguido Buenos Aires.244

Inicialmente, a reportagem do La Tribuna, de 15 de março, criticou a ação imperial contra o Paraguai. Uma “ação imponente e gratuita, digna dos seus ideais conquistadores”. Apesar dessa afirmação, a matéria continha parecer simpático ao Estado imperial e oposto ao Paraguai. Foi realizado um paralelo entre o império do Brasil e a república do Paraguai. O primeiro teria princípios democráticos na sua constituição, com sistema representativo e senado vitalício, onde as províncias elegiam seus representantes. Em suma, uma monarquia com princípios democráticos, não se acenava à sua organização escravista.

A república do Paraguai, ao contrário, fora severamente criticada na reportagem. Pelo tratado de 1850, o porto de Albuquerque [entre a província do Mato Grosso e o Paraguai] estaria habilitado ao comércio entre os dois países. As guarnições paraguaias de fronteira, entretanto, atuavam como “muralhas vivas” e impediam a fluidez dos negócios; o Paraguai não se definia entre o sistema protecionista e o livre câmbio; seus valorosos habitantes eram comandados por tiranos, afirmava o jornal portenho.245

A defesa intransigente do livre comércio seria uma das razões fundamentais de Bartolomé Mitre [1821-1906], presidente da Argentina [re]unificada entre 1862-8, ao aliar-se com o Império, contra o governo blanco do Uruguai e o Paraguai, em 1865-70. As políticas de interesses contraditórios entre o governo argentino, sobretudo quando representante dos portenhos de Buenos Aires, e do governo paraguaio, foram importantes detonadores do conflito.

Na reportagem do La Tribuna, o tom inicial de desaprovação sobre a ação bélico-diplomática do Império se alterou. Ao final da matéria, afirmou-se que o motivo da expedição naval imperial era fazer respeitar o tratado de 1850. Seriam puras as intenções imperiais e desejava-se desfecho pacífico, completou a reportagem. A análise sobre a expedição imperial de 1854-5 via periódicos argentinos expõe as contradições entre os interesses mercantis e livre-cambistas portenhos e a política de centralização comercial paraguaia, conforme destacamos.

Em 20 de abril de 1855, em seu “Boletim Marítimo, o Jornal do Commercio referiu-se ao comportamento dos marinheiros da divisão naval. Eles estariam entusiasmados.246 Tanto a tropa de linha como as guarnições da esquadra estariam regularmente exercitadas no manejo de artilharia e 

244 As informações sobre o La Tribuna foram fornecidas pelo historiador, pesquisador sobre a imprensa bonaerense do período anterior a guerra de 1864-70, professor da Universidade de Buenos Aires [UBA] dr. Mariano José Aramburo, por e-mail enviado em 11 de setembro de 2011. Fica o nosso agradecimento que também se estende a importante colaboração da doutoranda em história pela UBA, Victoria Baratta.

245 Jornal do Commercio. 14 de abril de 1855, n. 102. 246 Jornal do Commercio. 20 de abril de 1855, n. 108.

ϵϬ de outras armas. Os navios que se destacavam na disciplina seriam as corvetas Berenice e Imperial Marinheiro e o brigue-escuna Éolo. A mencionada reportagem do Jornal do Commercio assim como a matéria do La Tribuna revelavam uma expectativa acerca da intervenção naval imperial no Paraguai. Ignoravam-se as imensas dificuldades da operação.

Certamente era desconfortável o cotidiano dos marinheiros imperiais nos mais de cinco meses longe dos seus lares, entre dezembro de 1854 e maio de 1855. Em 7 de julho de 1855, o El

Semanario reproduziu trechos de duas cartas, com datas de 3, 7 e 12 de maio daquele ano,

publicadas no periódico bonaerense El Nacional. As informações seriam de um correspondente particular do jornal argentino, no Rio de Janeiro.

A carta denunciava que em janeiro daquele ano, no porto de Buenos Aires, jovens marinheiros do navio Viamão teriam comentado aspectos que deveriam ser secretos sobre a operação imperial. Eles estariam descontentes com o governo imperial e com o comandante da missão, Pedro Ferreira de Oliveira. Na opinião do El Semanario, os marujos desejavam o combate no Paraguai para que depois de vitoriosos possivelmente ascendessem nas suas carreiras.

Seguramente, esa juventud de la Marina brasilera [...] con ansia de hacerse visible venia en la Escuadra brasilera al Paraguay, creyendo, que era una buena ocasión de adquirir a poca costa en una guerra galana, ascensos, grados, condecoraciones: los resultados los ha desenganado, y atribuyen a debilidad e inconsideración del jefe.247

A mesma reportagem revela que os marinheiros imperiais estariam incomodados pela condição submissa em relação aos paraguaios: “[los paraguayos] debiendo llevar algunas reses a nuestra escuadra, hicieron un ridículo aparato de fuerza, y metiendo 12 cañones a bordo de un buque mercante se nos presentaron con toda altivez de vencedor ante el vencido.”248 A difícil jornada ao Paraguai parecia dimuir cada vez mais o poder dos canhões e a moral dos marinheiros imperiais.



247 El Semanario. 7 de julho de 1855, n. 111. 248 Ibidem.

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7 – AS CONFERÊNCIAS EM ASSUNÇÃO

No documento 2012Fabiano Barcellos Teixeira (páginas 87-91)