3. METODOLOGIA
3.11. Detalhamento metodológico – experimento 4
Para esse quarto experimento, oito corredores de provas longas (frequência de treino de pelo menos quatro vezes por semana, volume de treino semanal maior ou igual a 15 km) foram recrutados (idade = 20 ± 5 anos; estatura = 1,72 ± 0,14 m; massa corporal = 68,75 ± 13,13 kg; percentual de gordura = 8,9 ± 3,1 %;).
O experimento 4 foi dividido em três sessões, onde a amostra foi submetida a um esforço de AO30s em uma sessão, e um esforço de all-out com duração de três minutos (AO3’) em cada uma das duas outras sessões, visando comparar os valores de potência entre os testes de diferentes durações, bem como verificar a reprodutibilidade do teste de AO3’ em campo.
O detalhamento experimental está descrito na Figura 30. Na primeira sessão de teste, seis corridas de seis segundos foram empregadas para o cálculo da resistência ideal para geração de potência, e em seguida o indivíduo foi submetido a um esforço de AO30s contra essa resistência ideal. Nas duas sessões seguintes, os voluntários foram submetidos a um aquecimento padrão que contou com, além dos cinco minutos de corrida em intensidade moderada e mais um minuto em mais elevada intensidade, sprints curtos usando o carro de resistência variável para aquecimento. Após repouso passivo, foram submetidos ao teste de AO3’ nas duas últimas sessões de avaliação.
Figura 30 – Desenho experimental do segundo experimento de coleta de dados em campo. Na primeira sessão foram realizados seis sprints de seis segundos para encontrar a resistência ótima para produção de potência. Em seguida, foram realizados em sessões distintas um esforço de all- out utilizando o carro de resistência variável contra a resistência ótima nas durações de 30s e três minutos.
3.11.1. Forma de análise dos resultados – Experimento 4
Corroborando com a análise do experimento 1, foi realizada a relação hiperbólica entre potência média e resistência enfrentada para as corridas de seis segundos, permitindo a obtenção de PmaxT e Rpot. A partir daí o teste de AO30s e os dois testes de AO3’ foram realizados usando Rpot como resistência. Os dados de AO3’ foram comparados com relação a sua reprodutibilidade para valores pico, máximo e médios, e os parâmetros de capacidade aeróbia e anaeróbia desse teste, obtidos usando tanto potência quanto força e velocidade como variáveis de controle de intensidade.
Ainda, o primeiro teste de AO3’ foi usado para comparação com AO30s, sendo analisados apenas os dados dos primeiros trinta segundos desse teste na comparação. Essa comparação foi feita com base em valores pico, máximo e médios, bem como de índice de fadiga e inclinação entre o valor máximo e demais valores ao longo de trinta segundos de teste. Essas variáveis também foram calculadas usando potência, força e velocidade como variáveis de controle de intensidade.
3.11.2. Resultados – experimento 4
No experimento 4, o teste de AO3’ foi realizado em campo, utilizando o carro de resistência variável. A Figura 31 apresenta resultados de um teste para um voluntário, ilustrando as variáveis de potência, força e velocidade de um indivíduo representativo da amostra.
Figura 31 – Força, velocidade e potência ao longo de um teste de AO3’ realizado em campo. As linhas vermelhas demarcam os parâmetros aeróbios do teste (EP, EF e EV). Os traços em verde apontam a partir de onde as variáveis cruzaram com a linha vermelha.
A reprodutibilidade entre teste e reteste do AO3’ parece corroborar com aquela apresentada em laboratório. A Tabela 13 apresenta os resultados para os esforços de AO3’ realizados, em teste e reteste. Em ambos os casos, os voluntários ultrapassaram a marca de 600 m, resultando em cerca de uma volta e meia na pista carregando a carga imposta. Tabela 13 – Análise de reprodutibilidade entre teste e re-teste de um AO3’ (n=6).
Teste Re-teste ANOVA - P ICC-A
Dist. perc. (m) 623,5 ± 58,1 607 ± 77 0,49 0,68* Ppico (W) 2021 ± 391 1902 ± 369 0,49 0,47 Pmax (W) 597 ± 146 626 ± 176 0,21 0,95* Pmed (W) 252 ± 46 280 ± 71 0,09 0,79* Pfinal (W) 191 ± 41 211 ± 47 0,09 0,79* ATA (J) 10846 ± 2548 11921 ± 5012 0,56 0,47 Fpico (N) 601 ± 162 600 ± 180 0,96 0,96* Fmax (N) 214 ± 76 215 ± 90 0,99 0,93* Fmed (N) 72 ± 14 84 ± 27 0,12 0,67* EF (N) 69 ± 14 79 ± 25 0,15 0,73* I' (N.s) 555,6 ± 156 752 ± 555 0,38 0,26 Vpico (m/s) 6,35 ± 0,62 6,11 ± 0,37 0,21 0,63* Vmax (m/s) 5,95 ± 0,64 5,73 ± 0,41 0,20 0,71* Vmed (m/s) 3,46 ± 0,33 3,37 ± 0,43 0,52 0,68* EV (m/s) 2,76 ± 0,43 2,78 ± 0,50 0,92 0,61 D (m) 124,32 ± 34,71 104,05 ± 16,15 0,27 -0,08
* - indica ICCs que alcançaram significância estatística.
Nenhum dos parâmetros estudados apresentou diferença significativa entre si. Além disso, com exceção da potência pico, os parâmetros pico, máximo e médio das variáveis de potência, força e velocidade apresentaram ICCs para concordância absoluta
significativos, corroborando com a hipótese de uma boa reprodutibilidade entre teste e reteste para o protocolo de AO3’.
A coleta de dados desse experimento também envolveu a comparação entre resultados de um AO30s com os resultados obtidos nos primeiros 30s de um AO3’ em campo. A resistência ótima individual para realização ode potência em esforços de 6 segundos foi de 19.07 ± 2.08 %MC para essa amostra, resultando em 13.22 ± 3.46 kgf de resistência. A Tabela 14 aponta a comparação entre os dois testes, demonstrando poucas diferenças significativas entre os resultados obtidos para ambos. A potência pico foi significativamente menor, junto com o slope (inclinação da reta entre o valor máximo e o resto dos dados) para potência.
Tabela 14 – Análise comparativa entre os resultados de AO30s e os primeiros 30s de um AO3’ (n=8). AO30s AO3’ ANOVA - P ICC- A Ppico (W) 2368 ± 314 2027 ± 405 0,01 0,44* Pmax (W) 723 ± 83 687 ± 123 0,30 0,60* Pmed (W) 544 ± 74 495 ± 108 0,16 0,51* %FP 44,6 ± 8,3 47,9 ± 11,7 0,59 -0,33 SlopePot -11,7 ± 4,9 -9,9 ± 3,6 0,04 0,83* Fpico (N) 636 ± 100 611 ± 171 0,27 0,62* Fmax (N) 205 ± 19 210 ± 18 0,45 0,57* Fmed (N) 109 ± 15 105 ± 27 0,68 0,50* %FF 63,6 ± 6,3 63,7 ± 12,3 0,98 0,04 SlopeF -3,12 ± 1,39 -2,08 ± 0,52 0,03 0,35 Vpico (m/s) 6,44 ± 0,55 6,10 ± 0,80 0,04 0,77* Vmax (m/s) 5,99 ± 0,54 5,73 ± 0,78 0,11 0,77* Vmed (m/s) 5,19 ± 0,47 4,92 ± 0,64 0,06 0,74* %FV 16,35 ± 6,83 21,36 ± 7,97 0,21 0,04 SlopeV -0,060 ± 0,017 -0,062 ± 9,025 0,85 0,57* * - indica ICCs que alcançaram significância estatística.
Para força realizada, apenas o slope foi significativamente diferente. Entretanto, houveram diferenças significativa entre as velocidades pico, e uma tendência a diferença para a velocidade média. Apesar dessas diferenças, para os parâmetros pico, máximo e
médio das três variáveis estudadas, os ICCs de concordância absoluta alcançaram sempre significância estatística. Sendo assim, de maneira geral, os parâmetros pico, máximo e médio das variáveis de potência, força e velocidade parecem apresentar razoável concordância entre um teste de AO30s e os primeiros 30 segundos de um teste de AO3’, afastando a hipótese de uma inconsciente criação de estratégia submáxima na realização do AO3’ para prevenção da fadiga extrema.