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Determinação, assimilação e atribuição em compostos nominais

reside na compreensão das relações que se estabelecem entre os dois termos. Isso implica considerar a ausência mesma de qualquer preposição entre eles – o que, para o autor seria uma “sinapsia” – uma vez que essa ausência colabora para a polissemia do composto e é constitutiva de seus sentidos. Guimarães (2010) elucida que é justamente pela via das sistematicidades das relações que Benveniste ilumina a significação das línguas que estuda. Falando sobre o autor francês, Guimarães acrescenta que “seu procedimento de reconstituição semântica inclui como decisiva a consideração dos empregos das formas linguísticas”, contribuindo

para a descrição dos fenômenos sociais que envolvem diretamente a linguagem humana (idem, p. 48).

Direcionando a atenção para as relações entre os dois elementos do composto “consciência negra”, podemos considerá-lo, junto com Benveniste (1967), como um exemplo de expressão portadora de uma “micro sintaxe” em que enunciados sintáticos livres (independentes) estão presentes de maneira condensada.

A primeira asserção de Benveniste sobre esse tema é que um composto comporta sempre e somente dois termos, ainda que um desses termos seja ele próprio um composto. Como exemplo, ele menciona “cocktailmixer”, em que o primeiro termo “cocktail” já é formado por dois elementos, mas na formação final ele contará como apenas um único termo do composto “cocktailmixer” (1967, p. 148 e páginas seguintes, nos próximos parágrafos).

Outro aspecto importante a ser considerado é a distinção entre a relação lógica e a estrutura formal dos compostos: a primeira ganha relevância ao determinar a ordem em que os termos aparecem. Isto é, a relação lógica fornece subsídios para que os compostos sejam funcionalmente classificados. A partir dessa constatação, Benveniste estabelece duas grandes classes: uma em que a relação entre os dois termos é equidimensional, e outra em que a relação ultrapassa os dois termos, atribuindo-lhes uma nova função.

Como exemplos do primeiro grupo, Benveniste cita compostos constituídos de dois substantivos, como “oiseau-mouche” (pássaro-mosca) e “poisson-chat” (peixe-gato). No intuito de acrescentar casos semelhantes em língua portuguesa, citamos “couve-flor” e “tatu-bola”. O autor explica que

dos dois membros, é sempre o primeiro que fornece a designação: um “oiseau-mouche” é um pássaro [oiseau] e um “poisson-chat” é um peixe [poisson]. O segundo membro traz ao primeiro uma especificação apondo-lhe o nome de uma outra classe. Mas entre os dois referentes não há senão uma relação de disjunção: as moscas [mouches] não são um ramo dos pássaros [oiseaux] nem os gatos [chats] são um ramo dos peixes [poissons]. (...) Se essa designação dupla resulta todavia não- contraditória, é porque a relação que ela institui não é nem lógica, nem gramatical, mas semântica. O objeto assim denominado não se vincula igualmente às duas classes. A uma ele pertence por natureza, à outra ele é atribuído de modo figurado (1967, 149)

Aspectos da explicação de Benveniste serão retomados, posteriormente, durante a análise de “consciência negra”. Neste momento, resta acrescentar, a partir do autor, que a constituição sintática que dá origem a esses compostos remete a um sintagma de definição (definidor), ou seja, “pássaro-mosca” equivaleria à constatação de que “há um pássaro que é uma mosca” e “há um peixe que é um gato”. Entretanto, a relação expressa pelo verbo “ser” nesses casos não deve ser entendida de maneira literal (meramente informativa/expositiva), mas sim como uma “relação de assimilação semântica entre duas noções distintas, na base de um traço comum que é implicado” (1967, p. 150). O que existe é a identificação de semelhanças entre o ser designado e o ser comparado. Retomando os exemplos, haveria um pássaro que se assemelha a uma mosca. Nesse caso, o traço compartilhado é o tamanho, tendo em vista que o “oiseau-mouche” é um dos menores pássaros do mundo (uma espécie de colibri) e haveria um peixe que se assemelha a um gato, uma vez que uma das características mais marcantes do “poisson-chat” é o fato de ter uma cabeça arredondada e longos bigodes que o fazem parecer ter cara de felino, diferentemente de outras espécies de peixe.

Há, ainda, outro tipo de composto que, embora também seja formado por dois substantivos, possui elementos mutuamente determinantes. Os exemplos fornecidos por Benveniste são do inglês “arrow-head” (“ponta de flecha”), do grego “oiko-despótes” (“chefe de família”), do sânscrito “raja-putrá” (“filho de rei”). Segundo o autor, de todas as classes de composição, esta é, sob todos os pontos de vista, “a que oferece a relação mais clara e imediata com base sintática livre, a tal ponto que, algumas vezes, o composto e o sintagma parecem permutáveis à vontade” (1967, p. 151). Em “arrow-head”, ambos se determinam com a mesma “intensidade”. Destaque-se que, nas traduções para a língua portuguesa, o composto passa a se apresentar como “sinapsia”, pois não pode prescindir da preposição. Talvez um exemplo em português (embora neste caso específico se trate de dois adjetivos) fosse “morto-vivo” para denominar o zumbi: cada um dos elementos do composto funciona independentemente para designar outras ideias (há mortos e há vivos), entretanto, o “morto-vivo” é um ser específico, ainda que hipotético, em cuja denominação os dois termos do composto são igualmente imprescindíveis e determinantes para a produção de sentido de “zumbi”.

O último exemplo apresentado por Benveniste nessa categoria de compostos é aquele formado por um primeiro elemento nominal determinante, seguido de um elemento verbal determinado. Este seria o caso de “shoe-maker” (“fazedor de sapatos”), “medv-éd” (“comedor de mel”), entre outros. Em português, considerando a inversão do determinante-determinado, poderiam ser equivalentes os casos de “guarda-costas” e “porta-voz”.

Nesses casos, a relação atribuitiva acontece quando se reconhece o funcionamento sintático entre o elemento regente e o regido, “que é a acumulação de dois valores na forma verbal do enunciado livre no presente” (1967, p.157, destacado), e que pode ser representada da seguinte forma: “ele faz sapatos”, “ele come mel”, “ele guarda (protege) alguém”, “ele fala por [ou representa] alguém [ou um certo grupo/comunidade]” . Todavia, a relação vai ainda além desse aspecto. Com perspicácia, Benveniste percebe que o presente de “ele faz”, “ele guarda”, assim como nos exemplos aqui acrescentados, representa, na realidade, a transformação da locução predicativa “ele é profissional/artífice”, “ele é portador”, que lhe dá ao mesmo tempo o fundamento conceptual e sintático, pois “a forma verbal do presente contém a predicação de uma propriedade inerente, assim como ela também predica um processo efetivo” (1967, p. 157).

Tratando do segundo grande grupo de compostos – aqueles cuja relação não se limita aos dois elementos, mas os ultrapassa – o autor analisa “blue-eyed” (azul+olho), “quadru-peds” (quatro+pé), “rouge-gorge” (pescoço-vermelho) como principais exemplos.

A importância de se destacar como as relações de atribuição excedem o âmbito estrito do composto é expressa na nomenclatura “composto exocêntrico” mencionada por Benveniste, ainda que o autor ressalve que essa expressão é deveras insuficiente e imprecisa, uma vez que não seria possível que o centro de um objeto estivesse fora de si mesmo. Na verdade, o que os compostos desse tipo evocam é a existência de uma oração atribuitiva. Esta “tem como índice o predicado de existência [ser de] que implica necessariamente um possuidor, expresso ou não” (1967, p. 158). Em outras palavras, compostos desse tipo se fundamentam em uma construção atribuitiva, o que os aproxima da natureza dos adjetivos, tendo em vista que todos estes, sintaticamente, concordam com um “nome”, que seria o “possuidor” de uma “qualidade” (p. 159, nota de rodapé).

O que se quer demonstrar é que não existe “blue-eyed” independentemente de alguém (uma pessoa ou mesmo um animal) cuja característica seja ter “olhos azuis”, da mesma forma que “quadrúpede” está se referindo à quantidade de pernas que uma criatura de fato possui – as pernas não existiriam sozinhas, parece desnecessário dizer. Há uma pessoa (ou animal) que tem olhos azuis, há um animal que é dotado de quatro pernas14.

Nesta mesma direção, é possível identificar algumas semelhanças entre “consciência negra” (“consciência política”, “consciência ecológica”) e esses compostos atribuitivos. Para que haja uma “consciência” é preciso haver um possuidor.