3 MARCO TEÓRICO
3.2. O MODELO DE KALECKI
3.2.3 Determinação do lucro
Resumindo, as lutas de classe se concretizam através das reivindicações sindicais que podem afetar à distribuição de renda de forma dinâmica e não como supunha a teoria tradicional. Segundo Kalecki, as mudanças na distribuição de renda são determinadas por (a) a relação com a concorrência imperfeita e (b) pelos seus estreitos limites.
Outro fator determinante da distribuição da renda é a relação matéria – primas/salários, que mostra como os custos diretos estão conformados, de modo que se a relação permanece constante, um incremento do grau de monopólio leva a um aumento dos lucros, provocando uma queda da participação dos salários no valor produzido. Se, pelo contrário, permanece constante o grau de monopólio e aumenta a relação matéria – primas/salários tem-se aumento nos lucros, reduzindo a participação dos salários na renda.
3.2.3 Determinação do lucro
Uma das grandes inovações introduzidas por Kalecki no seu modelo foi separar trabalhadores e capitalistas no que diz respeito ao consumo, diferentemente de Keynes, que
estabeleceu o consumidor como uma pessoa física indeterminada, trabalhando com o consumo das famílias. Pode-se dizer que a principal contribuição de Kalecki foi utilizar os agregados econômicos inspirado nas Ideias de Marx, uma vez que introduziu as classes sociais como categoria de análise na determinação da demanda agregada.
Supondo-se que os capitalistas e os trabalhadores disponham de um dado nível de consumo e que na economia se produz uma variação do investimento autônomo que leva a um aumento do emprego e da massa de salários no Departamento I, o acréscimo na massa de salários, por sua vez, provoca uma imediata elevação no consumo dos trabalhadores e nas receitas do Departamento III, então a variação do consumo dos trabalhadores (Cw) produz um efeito multiplicador que dependerá das decisões dos capitalistas do Departamento III quanto do seu próprio consumo e do nível de emprego. Se o consumo dos capitalistas vier a aumentar, o mesmo acontecerá com as suas receitas e os seus lucros do Departamento II. A continuidade deste processo multiplicador de expansão da economia está nas mãos dos capitalistas. Para o total da economia tem-se que:
Cw = W1 + W2 + W3 = W (6)
Esta equação mostra que os trabalhadores gastam toda sua renda e de forma imediata. Na equação de determinação da renda numa economia fechada e sem Estado tem-se a seguinte equação.
I + Ck + Cw = Y = W + P (7) Sendo:
I : os investimentos brutos capitalistas (antes de deduzir a depreciação); Ck : o total de consumo dos capitalistas ;
Cw : o total de consumo dos trabalhadores ; P : os lucros.
Como Kalecki supõe que os trabalhadores não poupam, pode-se escrever que o lucro será igual à soma do investimento e o consumo dos capitalistas, como na equação (3).
Este resultado demonstra que os lucros dos capitalistas são determinados por suas próprias decisões de gastos. No entanto, é necessário ter cautela na sua interpretação. E o próprio Kalecki esclarece qual deve ser a interpretação que se deve fazer dessa equação, conforme o seu questionamento.
O que significa essa equação? Quer dizer que os lucros em um dado período determinam o consumo e o investimento dos capitalistas? Ou o contrário? A resposta depende de qual dos itens estiver diretamente sujeito às decisões dos capitalistas. Ora, é claro que os capitalistas podem decidir consumir e investir mais num dado período que no precedente, mas não podem decidir ganhar mais. Portanto, são suas decisões quanto a investimento e consumo que determinam os lucros e não vice-versa. (KALECKI, 1978, p.86).
Ou seja, o princípio da demanda efetiva oferece a resposta, investimento e consumo dos capitalistas decorrem de suas decisões de gasto, são os gastos dos capitalistas que determinam o montante de suas receitas35. Assim, respondendo a primeira proposição, chega-se ao conhecido aforismo kaleckiano: os capitalistas ganham o que gastam, ao passo que os trabalhadores gastam o que ganham.
É importante explicar como são determinados os lucros num Departamento, ou seja, como os gastos dos capitalistas são transformados em lucro. Se se considerar, por exemplo, que os capitalistas do Departamento III decidem aumentar a produção e dão emprego a um número determinado de trabalhadores - que são pagos por W3 -, e estes como consumidores gastam o que ganham, os custos salariais voltam em forma de receita total. Assim, os salários pagos nos departamentos I e II são gastos no Departamento III. Ou seja, as decisões de gasto de um departamento têm uma influência direta nos outros dois departamentos e indireta no próprio departamento. Como assinalou Macedo (1999), uma decisão de gasto tomada por um capitalista qualquer elevará os lucros alheios (e não os próprios). Cabe salientar que as decisões de gasto são tomadas isoladamente por cada empresário, segundo as avaliações que realizam sobre o quanto venderá a um determinado preço.
Até aqui, supôs-se que os trabalhadores gastam tudo o que ganham, mas se pode pensar que eles consomem uma parte - propensão marginal e média a consumir (v) - dos salários, portanto, a equação de consumo se modifica da seguinte maneira:
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Como assinalou Macedo (1999), as decisões de consumir e investir dos capitalistas são determinadas pelos lucros do período imediato anterior, porém existem outras variáveis além dos lucros do período anterior que podem exercer um papel importante.
Cw = v W = v (W1 + W2 + W3) sendo 0 < v < 1 (8)
Desta forma, os lucros no departamento III ficarão redefinidos da seguinte maneira:
P3 = v W - W3 (9)
Se v adota um valor entre 0 < v < 1, os lucros no departamento III serão menores a (W1 + W2), se v >1 – caso os trabalhadores possuam estoques ou riqueza – os lucros serão maiores que W1 + W2 .
A determinação da massa de lucros também sofre modificações, considerando a equação (7), tem-se:
I + Ck + Cw = Y = P + W (7) P = I + Ck + (Cw - W) = I + Ck - Sw (10)
Desta forma, observa-se que a propensão marginal a consumir “v” – ou a poupança dos trabalhadores - provoca uma queda na massa de lucros, influindo no processo de acumulação capitalista.