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4 ALGUNS ELEMENTOS CONCEITUAIS DO DIÁLOGO

4.3. DETERMINAÇÃO SOCIAL DAS PRÁTICAS DE LINGUAGEM: OS GÊNEROS DO

Compreender a noção bakhtiniana de esfera discursiva e saber seu funcionamento e as implicações ideológicas desta para os eventos discursivos é fundamental ao estudo dos fenômenos da linguagem na perspectiva bakhtiniana e, agora, mais especificamente, à compreensão dos gêneros do discurso. Por isso, nesta parte do texto, traremos a noção de gêneros do discurso de Bakhtin para, em seguida, lançar olhar para o gênero discursivo que compõe o nosso corpus: a notícia.

Para falar dos gêneros do discurso, tomamos como ponto de partida o ensaio de Bakhtin (2011c [1952/53], p. 261-306), intitulado Os gêneros do discurso. Para o filósofo, todas as esferas discursivas se utilizam de determinadas práticas de linguagem que se fazem necessárias para a interação entre seus indivíduos. Como esses indivíduos compartilham o mesmo ambiente social, acabam tendo necessidades comunicativas semelhantes, em condições, também, semelhantes, e isso gera a criação de formas linguísticas mais ou menos padronizadas – ou “enunciados relativamente estáveis” (p. 262), nas palavras de Bakhtin – que cumprem determinadas funções comunicativas do ambiente social. São essas formas linguísticas, que evidenciam ainda mais a relação de diálogo entre linguagem e sociedade, que Bakhtin chamou de “gêneros do discurso”.

Sendo assim, todas as interações entre sujeitos que se dão nos diferentes espaços sociais se efetivam por meio dos gêneros discursivos. Por esse motivo, esses enunciados relativamente estáveis, na acepção do filósofo, são tão diversos quanto os campos da atividade humana. E, no que se refere a sua constituição, Bakhtin afirma que

Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional (p. 261).

O que o autor propõe é que os gêneros são perpassados em todas as suas dimensões pelas especificidades que advêm da sua esfera discursiva de origem, pois ele defende que esses três elementos constituintes das formas de linguagem – conteúdo temático, estilo e construção composicional – agregam-se indissoluvelmente para constituir um todo sócio-ideológicamente determinado que cumpre uma função sócio-discursiva.

Sobre esses elementos supracitados, Fiorin (2006, p. 62), buscando sintetizar a noção de gênero discursivo de Bakhtin, ainda que numa perspectiva mais ligada à dimensão textual da enunciação, diz que “o conteúdo temático [...] é um domínio de sentido de que se ocupa o gênero”; “a construção composicional é o modo de organizar o texto, estruturá-lo”; e

O ato estilístico é uma seleção de meios linguísticos. Estilo é, pois, uma seleção de certos meios lexicais, fraseológicos e gramaticais em função da imagem do interlocutor e de como se presume sua compreensão responsiva ativa do enunciado.

Esses elementos, que são definidos social e dialogicamente, evidenciam a influência das esferas da comunicação humana na composição dos diversos gêneros do discurso.

Essa influência dá conta de explicar, também, o fato de falantes, mesmo tendo um conhecimento amplo da língua (enquanto sistema de signos), se sentirem incompetentes a usar determinados gêneros que não fazem parte de seu repertório. Isso é decorrente do fato de que as formas relativamente estáveis de linguagem comportam especificidades do seu domínio e dominá-las vai além do estritamente linguístico. Segundo Bakhtin, “São muitas as pessoas que dominam magnificamente a língua sentem amiúde total impotência em alguns campos comunicação precisamente porque não dominam na prática as formas do gênero de dadas esferas” (2011c [1952/53], p. 284).

O domínio de um gênero exige, assim, mais que apenas conhecimento linguístico, conhecimento técnico; ele requer conhecimentos de ordem social, cultural, etc. Por conseguinte, justifica-se a escolha de Bakhtin a respeito da questão dos

gêneros, por não propor um estudo de suas regras gerais de funcionamento, pois, para ele,

A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório dos gêneros do discurso que cresce e se diferencia a medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo (2011c [1952/53], [p. 262).

O que filósofo propõe é a classificação dos gêneros em dois grandes grupos: os gêneros primários e os secundários. Os gêneros primários, segundo o autor, fazem parte da comunicação imediata, “simples”, que se molda e se realiza no próprio momento de interação; os secundários são gêneros que se servem dos primários para a criação daqueles mais complexos, caracterizando uma comunicação não imediata e que “(...) surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito)” (BAKHTIN, 2011c [1952/53], p. 263-264).

Cabe apontar aqui que, em vista da consideração a respeito dos dois grandes grupos supracitados, Bakhtin defende que “(...) a natureza do enunciado deve ser descoberta e definida por meio de análise de ambas as modalidades (gêneros primários e secundários)” (p. 264). Por isso, o mesmo autor defende que o estudo da natureza do enunciado e dos gêneros de enunciado nas diferentes esferas da comunicação é de suma importância para quase todos os campos da linguística e para a filologia. Isso porque, no entender do filósofo,

Todo trabalho de investigação de um material linguístico concreto [...] opera inevitavelmente com enunciados concretos (escritos ou orais) relacionados a diferentes campos da atividade humana e da comunicação” (2011c [1952/53], p. 264).

Nesse ponto, e também em vista do que foi visto até agora, percebemos que o autor usa as particularidades do enunciado como definidores dos diferentes gêneros do discurso. Isso se justifica pelo fato de que as atividades humanas são ininterruptas, e as trocas verbais e/ou trocas culturais, que estão na base do estudo, são vistas pelo filósofo segundo critérios enunciativos; ou seja, ele considera os elementos do enunciado para conceituar gênero.

É interessante notar que, diferentemente da maioria dos estudiosos, Bakhtin não se dedica à classificação dos gêneros, mas à descrição das cinco particularidades do enunciado ou gênero do discurso:

1ª) o enunciado é delimitado por fronteiras claras que são as mudanças de

locutor. Pode portanto ser uma réplica de diálogo ou um romance; 2ª) o enunciado é acabado: ele tem fronteiras – um começo e um fim, um

acabamento, que é percebido pela exaustividade do objeto de sentido, pelo projeto discursivo do locutor e pelas formas-tipo de estruturação do gênero; 3ª) o enunciado é marcado pela expressão do locutor, ou seja, os enunciados trazem a marca do locutor, não havendo possibilidade de neutralidade quando se fala de enunciados concretos;

4ª) o enunciado mantém relação com aqueles que lhe precederam e com os que estão por vir, sobre o mesmo objeto. Todo enunciado é um elo na cadeia verbal, respondendo, interrogando, polemizando com outros sobre o mesmo objeto;

5ª) o enunciado é voltado para o alocutário (outro), trazendo assim a resposta presumida, as objeções, restrições do alocutário.

Essas particularidades do enunciado apontadas pela autora são também particularidades dos gêneros porque, como mostrado acima, os gêneros são também “tipos” enunciados relativamente estáveis.

No que se refere à historicidade, Bakhtin diz que “os enunciados e seus tipos, isto é, os gêneros discursivos, são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem” (2011c [1952/53], p. 268). Isto é, eles evoluem à medida que a própria sociedade evolui. É por isso que, a respeito dessa noção bakhtiniana, Rodrigues (2001, p. 49) diz que, quanto à origem, os gêneros se constituem historicamente para atender a necessidades dos falantes de determinada esfera social e, por isso, são regidos pelo meio social que acaba por perpassá-los. Assim, segundo a autora, acabam por refletir suas esferas discursivas, ambientes sociais, e, em decorrência disso, sua compreensão vai muito além do linguístico: passa pela situação social que os provoca.

Além de considerar particularidades dos ambientes sociais que os fazem surgir, os gêneros também evidenciam o enunciador. As formações e posições ideológicas dos autores de textos podem ser demonstradas por meio de seus enunciados, tendo em vista que estes são sempre concretizados por meio de gêneros.

No que diz respeito às refrações ideológicas e a esta noção bakhtiniana, Flores e Teixeira (2012, p. 133) dizem que

Os gêneros são plurívocos, trazem vozes, posições sociais, retomam e antecipam discursos outros, ou seja, suscitam respostas. São materiais discursivos dinâmicos, que têm como pressuposto a construção do enunciado

concreto a partir de uma esfera da atividade, em que locutor, interlocutor, tempo, lugar e finalidade do dizer são constitutivos.

O que os autores apontam é algo inerente à linguagem e suas formas de manifestação (texto, enunciados e etc.), ou seja, o diálogo entre vozes sociais. Como os gêneros do discurso são linguagem e são também texto e enunciado, eles não poderiam se eximir desse diálogo. Além disso, os autores também tocam em outro ponto essencial: o sujeito e os diferentes elementos que estão por trás da materialização, na interação verbal, dos gêneros do discurso. Esses elementos são essenciais para o seu funcionamento e sua circulação.

Cabe enfatizar que os gêneros do discurso estão presentes em todas as esferas da comunicação humana, pois, sempre que fala, um sujeito se serve deles, obedecendo, mesmo que involuntariamente, a determinadas “regras” de funcionamento dessas “formas de linguagem”. Além disso, sendo os gêneros do discurso formas relativamente estáveis de enunciados, a posição valorativa que compõe o enunciado da comunicação efetiva é, também, inerente aos gêneros, não havendo nenhum gênero do discurso que se excetue da carga axiológica de um sujeito.

Nesse sentido, para que seja possível a interação entre diferentes indivíduos, faz-se necessário o compartilhamento de conhecimentos de um mesmo sistema linguístico bem como outros tipos de conhecimentos. Mas é indispensável, também, o conhecimento prático das formas de linguagem que circulam dentro da esfera comunicativa onde a interação se dá. Esse conhecimento é basilar para as relações discursivas pela interação verbal.

A partir do que vimos, notamos que, tomando conhecimento da noção de gêneros do discurso, sua importância para a compreensão dos fenômenos de linguagem se evidencia. Não há como pensar de forma diferente se se considera que sempre que há uso de linguagem, há uso de gêneros e que esses gêneros trazem reflexos e refrações das suas esferas discursivas de origem; são marcados por posições axiológicas dos sujeitos que enunciam. É pensando assim que levamos em consideração essa noção para o estudo dos fenômenos enunciativo-discursivos que nos propomos a analisar.

Por isso, apoiados no supradito, agora, passamos à discussão das especificidades do gênero notícia, exemplificando-as por meio de trechos do corpus da pesquisa.