2 SOBRE ASSIMETRIA
2.2 Determinantes da APT
2.2.1 Determinantes da APT espacial
Como demonstrado anteriormente, a APT espacial ocorre quando a relação entre preço de impulso (pim) e preço de resposta (pres)11 refere-se aos preços para o mesmo produto em diferentes regiões geográficas, ao invés de preços em diferentes níveis da cadeia de comercialização. As justificativas listadas por Bailey & Brorsen (1989) para APT, em relação à transmissão espacial de preços, são semelhantes às discutidas na seção 2.2, ou seja,
diferenças dos custos de ajustamento, poder de mercado e assimetria de informação entre as regiões. Em outras palavras, as justificativas para a análise espacial também se pautam nestas mesmas hipóteses.
Dado que o preço é um importante indicador de como o mercado opera, a medida de como o preço é repassado reflete, em boa parte, o nível de eficiência deste mercado. A análise espacial tenta reiterar aspectos de eficiência entre mercados homogêneos situados em diferentes regiões. Assim, se em um mercado as reduções e os aumentos são repassados de forma diferente em relação aos seus vizinhos, a justificativa mais plausível para esta diferença vem das hipóteses de imperfeições de mercado citadas anteriormente.
Em relação à hipótese relacionada ao custo de transporte, especificamente para o caso do mercado de gasolina do Brasil, a infraestrutura do comércio deste produto, que é bastante diversificada12, poderia afetar a forma como os preços são repassados em diferentes regiões. Assim, dependendo da forma com que as refinarias transportam o combustível, as variações nos custos poderiam implicar em assimetrias de preço entre diferentes regiões, já que os custos de transporte podem pressionar as margens de lucro.
Meyer e Von Cramon-Taubadel (2004) destacam, no entanto, que, se os custos de transporte são assimétricos, os resultados obtidos seriam de uma APT espúria, pois as variações no custo de transporte sempre conduziriam a APT, sem necessariamente que ela ocorra no produto. O esperado, no entanto, é que os preços do transporte sejam constantes para variações no preço do produto transportado, ou que suas variações não afetam diferentes formas de ajustamento. Dito de outra forma, se os preços do produto aumentam ou baixam em um dado local, isto não afeta os custos de transporte, dado que importam no seu cômputo apenas o volume da carga, a distância percorrida e o preço do combustível, e não as variações do preço do produto transportado. No caso do transporte de combustíveis, no entanto, fica claro que as variações dos preços podem levar a assimetrias nos custos de transporte e, por conseguinte no produto ao longo do espaço. Mas, deforma geral, independentemente do tempo em que uma variação do preço em um dado mercado demore a ser transmitida aos mercados vizinhos, as variações dos preços seriam igualmente repassadas entre choques positivos e negativos para grande parte dos produtos.
Assim, como no caso da APT vertical, a hipótese mais relevante para APT espacial está relacionada ao poder de mercado, em especial na capacidade de uma ou mais empresas exercerem poder de mercado em certos locais. Se uma empresa é responsável por grande parte
do comércio em uma determinada região, ela pode gerar ganhos de escala no transporte, minar o interesse de novas entrantes estabelecendo o preço em que seja desvantajosa a entrada de novas concorrentes e, ao mesmo tempo, obter proveito de ajustes de preços na produção, como postergar reduções, para obter maiores lucros. Meyer e Von Cramon-Taubadel (2004) mostram que se uma empresa goza de poder em determinados mercados locais, ele pode usá- lo para garantir que as mudanças de preços em resposta às variações de preços sejam postergadas ou adiantadas para obter maiores margens de lucro. Os autores destacam, no entanto, a necessidade de um rigor na especificação de modelos para testes de poder de mercado usando a análise de APT, pois erros de especificação ou de corte transversal, como a agregação de preços, poderiam não garantir a identificação de poder de mercado por esta análise. Além disso, assim como no caso da APT vertical, para a APT espacial o poder de mercado pode levar tanto a APT negativa como positiva. Mesmo reconhecendo as limitações desta análise, principalmente por modelos relacionados à APT ainda estarem em estado de evolução e demandarem um maior desenvolvimento teórico, é possível fazer ligações relevantes entre a APT encontrada e as possíveis imperfeições de mercado.
Abdulai (2000) cita outro aspecto relevante para formação de assimetria espacial: a questão de rede de informações dos mercados13. O autor argumenta que os preços em um mercado central, em virtude de seu tamanho e o fato de que ele está no centro de uma rede de informação, i.e., transaciona simultaneamente com vários mercados, o torna menos sensível às alterações de preços em diferentes mercados periféricos do que o contrário. De forma simplificada, um mercado central tende a ser formador de preços, i.e., as variações de preços deste mercado são diretamente refletidas nos mercados vizinhos, enquanto o contrário nem sempre ocorrerá.
Em outro artigo, Abdulai (2007) destaca o importante papel da análise da transmissão espacial de preços na análise de integração entre mercados espacialmente separados. O autor mostra que mercados espacialmente isolados podem transmitir os preços de forma assimétrica o que, por sua vez, levaria a distorções nas decisões de mercado, tanto produtor quanto consumidor. Tal situação, segundo o autor, poderia contribuir para movimentos ineficientes dos agentes. Neste sentido o autor destaca que o papel de políticas públicas, tais como reformas de mercado, dependem amplamente do processo de transmissão de preços entre diferentes níveis de mercado e, especialmente, de mercados geograficamente separados. Abdulai (2007) destaca ainda ser imprescindível à atuação do governo para
integrar mercados e reduzir distorções regionais, bem como o uso de modelos de identificação de APT como ferramentas relevantes para a construção de políticas públicas.
Em resumo, estudos sobre APT geralmente envolvem análises empíricas para examinar como as mudanças de preços em um mercado são transmitidas para outros mercados separados pela distância, refletindo o grau de integração do mercado, ou como mudanças de preços em um nível de uma cadeia produtiva são transmitido aos demais níveis, indicando a medida que os mercados funcionam de forma eficiente. Os fatores determinantes da APT quase sempre geram um resultado ambíguo quanto ao tipo de assimetria gerado, sendo que, na literatura, é possível encontrar exemplos diferentes para um mesmo tipo de assimetria, seja poder de mercado ou custos de ajuste. A ligação empírico-teórica dependerá quase sempre da estrutura e das hipóteses de ineficiência previamente relacionadas aos mercados. No caso do Brasil, a hipótese predominante é a da existência de conluios, que apesar de ser tomada como fator relevante na formação de assimetrias neste trabalho, não é testada diretamente. Neste estudo, apesar da destacada importância de se analisar os links entre teoria e empirismo, o esforço foi no sentido de traçar um perfil detalhado da assimetria no Brasil para o atacado e para o varejo.
Assim, a próxima seção descreve alguns resultados empíricos encontrados na literatura destacando inclusive alguns cruzamentos entre teoria e resultados obtidos pelos autores.