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2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.4 Indicadores e determinantes educacionais

2.4.1 Determinantes de desempenho na escola básica

O primeiro grande estudo que apontou para a importância das características sociais e demográficas do discente ficou mundialmente conhecido como Relatório Coleman – originalmente intitulado de “Equality of Educational Opportunity” (COLEMAN et al., 1966). Focado no ensino básico (EB), o longo trabalho realizado nos Estados Unidos da América (EUA) apresentou resultados que influenciaram nas decisões políticas tomadas quanto à educação e ao sistema educacional daquele país, no período.

A pesquisa, um survey educacional (termo utilizado para descrever as metodologias e procedimentos baseados no tratamento probabilístico de conjuntos de informações colhidas de um grupo de estudantes a partir de um objetivo previamente traçado, elaborado ou planejado [BABBIE, 1999]), foi uma demanda do Governo e Congresso dos EUA, conforme explicitado no documento oficial intitulado Civil Right

Act (1964). A intenção era investigar, nas escolas públicas de todos os níveis do país,

“a ausência de oportunidades educacionais para os indivíduos em razão do sexo, da raça/cor, da religião, ou da região de origem” (ALVES; SOARES, 2007, p. 27).

O estudo partiu da hipótese de que há uma relação entre a estrutura social e a conduta individual e, a partir disto, preocupou-se com a investigação dos fatores sociais que explicariam a maior parte das diferenças de desempenho estudantil: a instituição escola ou o indivíduo aluno (ALVES; SOARES, 2007, p. 27). Dentre as muitas conclusões obtidas, os autores identificaram, principalmente, que os fatores socioeconômicos individuais estavam mais relacionados às diferenças de desempenho escolar do que as características do corpo docente ou da estrutura da instituição (COLEMAN et al., 1966).

O trabalho de Coleman e colegas foi fundamental ao avanço dos estudos com o desempenho estudantil, sendo responsável por abrir portas e incitar pesquisadores posteriores a seguirem caminhos similares como Plowden (1967) e Hanushek (1970). A relevância dos condicionantes ligados ao contexto familiar do aluno, achado do Relatório, é ainda relatada nos dados empíricos de trabalhos recentes (ALVES; SOARES, 2008; CÉSAR; SOARES, 2001; PALERMO; SILVA; NOVELLINO, 2014).

O autor Eric Hanushek, ligado aos estudos da área da eficácia escolar e pesquisador da economia da educação, concordou com a relevância que o Relatório deu ao contexto socioeconômico das famílias na influência do desempenho

acadêmico estudantil, porém discordou quanto ao ínfimo impacto que a escola ou o professor teria sobre o indicador. Hanushek constatou, através da exposição de evidências, que as diferenças entre escolas e professores tinham impacto significativo no desempenho, e ao contrário do que se pensou, não seria um impacto ínfimo ou desimportante (HANUSHEK, 1979, p. 377).

As conclusões do Relatório Coleman foram contestadas no campo metodológico por trabalhos publicados por uma série de estudiosos (HANUSHEK, 1970). Para citar alguns: Samuel Bowles (1970), Bowles e Henry Levin (1968), Hanushek e John Kain (1972), além dos trabalhos de Cain e Wats (1970), William Sewell (1967) e Madaus, Airasian e Kellaghan (1980).

Autores descrevem, dentre os problemas, deficiência de dados por conta de respostas não fornecidas ao questionário, erros na mensuração de algumas variáveis (CAIN; WATS, 1970), uso de análise em dados de cross-section contendo apenas informações contemporâneas sobre insumos (HANUSHEK, 1971) e problemas de “efeitos de agregação” (PALERMO; SILVA; NOVELLINO 2014, p. 368).

Hanushek, um dos principais estudiosos da política e gestão escolar, se tornou uma referência da pesquisa com desempenho escolar. Os debates trazidos em seus produtos científicos (ver Hanushek, 1970; 1971; 1979; 1997; 2002), voltados à gestão administrativa e de recursos financeiros, foram importantes à pesquisa educacional.

Em texto de 1997, Hanushek fez uma revisão do histórico do estudo com eficácia educacional e, dentre os debates conceituais e que tocam o cerne metodológico, descreveu alguns resultados relevantes para a área. Um dos resultados foi que o desempenho estudantil, em dado momento, se relacionou aos insumos primários: influências da família, dos pares e das escolas (HANUSHEK, 1997, p. 141). Outro resultado de similar relevância permitiu identificar que o processo educacional como cumulativo e, logo, ambos os insumos históricos e contemporâneos influenciariam no desempenho presente do estudante (HANUSHEK, 1997, p. 141).

Outro trabalho com mensuração educacional e que corresponde aos modelos de grandes surveys educacionais é o chamado Relatório Plowden (1967), realizado no Reino Unido. Neste trabalho, os investigadores se preocuparam com a investigação dos fatores individuais, familiares e escolares que explicariam o rendimento acadêmico de todos os alunos com a finalidade de corroborar na tomada de decisões políticas. O principal resultado do Relatório Plowden apontou que as

diferenças familiares explicavam mais da variação dos resultados dos alunos que as diferenças escolares (MURILLO, 2003b, p.4).

Merecem menção também as antigas pesquisas de desempenho escolar citadas pelo escritor brasileiro Heraldo Vianna (1976): os clássicos trabalhos de Ebel (1965) e de Tyler (1942).

Apesar dos grandes surveys educacionais terem sido muito criticados, eles foram de vital importância para a pesquisa em educação e atentaram para a relevância das pesquisas quantitativas em larga escala. Os surveys contribuíram nos debates acerca das políticas de gestão educacional, o que culminou em mudanças das políticas dos EUA e em outros países. Isto valorizou a área da pesquisa com o desempenho estudantil e induziu a incrementos nos procedimentos metodológicos aplicados nas análises.

O desenvolvimento dos procedimentos metodológicos das pesquisas foi corrente a partir de 1980 com os estudos em eficácia escolar (pode se destacar autores como Hanushek e Mortimore). As pesquisas foram responsáveis por reduzir “o forte pessimismo em relação às escolas, que dominou a sociologia da educação até os anos 1970” (ALVES; SOARES, 2007, p. 27).

Alves e Soares (2007) expuseram dois motivos para o favorecimento da pesquisa em eficácia escolar após os anos 1980: (1) transformações na política educativa dos principais países produtores de conhecimento na área sociológica e (2) mudanças na metodologia das pesquisas na área. As transformações políticas permitiram maior autonomia às escolas e ao que era feito em nível de gestão de políticas educacionais, enquanto os trabalhos científicos passaram por inovações com o desenvolvimento de modelos para análise estatística de dados com variáveis medidas em múltiplos níveis e o incremento de softwares analíticos. (ALVES; SOARES, 2007)