CAPÍTULO 2 – LOCALIZAÇÃO E PERFIL DO PROJETO INFLUENCIAM O
2.3 Determinantes de sucesso do financiamento
Os elementos críticos do sucesso dos projetos podem ser diferentes por causa dos modelos de negócios empregados nas diversas plataformas de financiamento coletivo (Butticè, Colombo & Wright, 2017). Em geral, os empreendimentos anteriormente bem-sucedidos
11 Em 2011 (US$ 1,5 bilhão), 2012 (US$ 2,7 bilhões), 2013 (US$ 6,1 bilhões) e 2014 (US$ 16,2 bilhões).
atraem novos investidores, os quais são otimistas por natureza, porém eles buscam regular essa euforia por meio de uma taxa de desconto aplicada sobre o aporte realizado (Dushnitsky, 2009).
Nesse sentido, Agrawal, Catalini e Goldfarb (2015) afirmam que os investimentos anteriores tendem a gerar um herding behavior, aumentando a probabilidade de investimentos futuros. A literatura atual aponta alguns determinantes que podem interferir na dinâmica do financiamento coletivo, dentre eles: as metas definidas pelos empreendedores, finalidade dos projetos, recompensas prometidas, redes e laços sociais, duração dos projetos, tempo de investimento e número de apoiadores.
De acordo com Mollick (2014), os projetos de crowdfunding bem-sucedidos são aqueles que obtiveram taxa de captação superior a 100% e, em geral, 50% desses projetos obtêm cerca de 110% da meta inicial. Por outro lado, os projetos fracassados são aqueles que não conseguem ultrapassar a taxa de captação inicial e, normalmente, recebem apenas 10% do montante total almejado (Mollick, 2014). Esse autor observou que a quantidade de financiamento desejado pode ser um fator essencial para o sucesso do financiamento e projetos fracassados tendem a solicitar uma quantia com o triplo do valor dos projetos bem-sucedidos. Isto é, valores distorcidos da necessidade do negócio. Em entendimento com esse achado, Cordova, Dolci e Gianfrate (2015) consideram que o montante dos investimentos solicitados tem relação significativa e efeito negativo com relação ao sucesso do financiamento de projetos coletivos.
Segundo Lambert e Schwienbacher (2010), a finalidade do crowdfunding pode influenciar positivamente no sucesso dos projetos, como por exemplo, se o projeto é ou não sem fins lucrativos. Já Burtch, Ghose e Wattal (2013a) revelam que a duração do projeto e o esforço destinado ao marketing no início do financiamento apresentam relação positiva com o êxito da arrecadação de recursos coletivos. Frydrych, Bock, Kinder e Koeck (2014), por sua vez, descobriram que a meta e a estrutura de recompensas são os elementos que atuam com maior intensidade no funding dos projetos. As recompensas materiais (Vukovic, Lopez &
Laredo, 2010) e de reconhecimento social (Kazai, 2011) exercem papel de incentivo e incrementam a participação dos indivíduos nos projetos de crowdfunding (Steinberg, 2012;
Cholakova & Clarysse, 2015).
A extensão do projeto, o capital social, os likes do Facebook e a renda per capita das cidades de origem dos projetos foram os drivers de sucesso encontrados por Giudici, Guerini e Rossi-Lamastra (2013). Tais elementos também foram contemplados no estudo de Skirnevskiy, Bendig e Brettel (2017). De acordo com esses autores o capital social interno, desenvolvido por meio do histórico do projeto e pelas comunidades externas, também parece ser um elemento
importante para o sucesso do financiamento dos projetos. A quantidade de amigos no Facebook e a presença de vídeos apresentaram-se como fatores significativos na pesquisa de Zvilichovsky, Inbar e Barzilay (2015).
O tamanho das redes sociais, comprometimento, duração do investimento e capital acumulado podem também exercer alguma influência na captação de recursos (Mollick &
Kuppuswamy; 2014; Gera & Kaur, 2016). Mollick (2014) afirma que a amplitude das redes sociais e a qualidade do projeto são elementos que estão significativamente associados ao sucesso do financiamento de projetos via crowdfunding. Em linha com esse pensamento, Belleflamme, Lambert e Schwienbacher (2014), Lu et al. (2014), Byrnes, Ranganathan, Walker e Faulkes (2014) e Kshetri (2015) sugerem que a web 2.0 e o uso das redes sociais promovem maiores chances de sucesso nos pedidos de financiamento dos projetos de crowdfunding, aumentando, inclusive, o valor captado no final da campanha.
A imagem do empreendedor associada à descrição do projeto também pode ser considerada uma boa estratégia para otimizar as chances de sucesso do financiamento, conforme apontam Boeuf, Darveau e Legoux (2014). Ahlers et al. (2015) investigaram como os empreendedores que utilizam o crowdfunding tendem a sinalizar o valor e qualidade das suas empresas. Esses autores utilizaram como atributos o capital humano, social e intelectual nos documentos de ofertas de capital das empresas, considerando o nível de incerteza nesse cenário.
Seus achados sugerem que o capital humano influencia positivamente no sucesso do funding.
Além disso, os resultados indicaram que o nível de incerteza, a quantidade de participação oferecida e projeções financeiras apresentadas, foram sinais concretos de qualidade dos empreendimentos e, dessa forma, aumentaram as chances de sucesso da captação de recursos.
Allison, Davis, Short e Webb (2015) entendem que os apoiadores dos projetos de crowdfunding (não-financeiro) respondem positivamente a elementos internos, pois não procuram retornos monetários. Por outro lado, esses autores alegam que a utilização de elementos externos (e.g. incerteza e lucratividade) parece não despertar a atenção dos contribuintes, revelando que o empreendimento pode ser uma oportunidade para ajudar os outros e não apenas um negócio. Em contraste com essa ideia, Moss, Neubaum e Meyskens (2015) argumentam que a orientação empresarial na descrição dos projetos de crowdfunding pode ser considerada como um determinante de sucesso, ao invés de um aconselhamento valoroso, isto é, ações de natureza não-financeira podem influenciar no sucesso do financiamento ou na motivação dos participantes (Josefy et al., 2017).
Segundo Colombo, Franzoni e Rossi-Lamastra (2015), um número elevado de apoiadores iniciais dos projetos de crowdfunding pode atrair mais e mais participantes. Do contrário, espera-se que os projetos com pouca participação não alcancem, rapidamente, o sucesso em suas campanhas. Para esses autores, um maior volume de contribuições iniciais suaviza a incerteza presente no início do funding. Conectados com esse pensamento, Josefy et al. (2017) defendem que o histórico de apoios já realizados por um empreendedor pode ter efeito significativo no resultado final da campanha.
A qualidade do crédito e amizades podem aumentar as chances de o financiamento ser bem-sucedido, implicam em menores taxas de juros sobre os empréstimos concedidos e estão associados a menores níveis de inadimplência (Lin, Prabhala & Viswanathan, 2013). Os amigos e família (Agrawal, Catalini & Goldfarb, 2015), contatos pessoais do Facebook (Mollick, 2014) e relações internas constituídas no próprio processo de funding (Colombo, Franzoni & Rossi-Lamastra, 2015) podem, igualmente, afetar a arrecadação de recursos para os projetos que buscam financiamento por meio de crowdfunding.
O efeito da comunicação entre empreendedores e investidores de crowdfunding tem sido explorado pela literatura e algumas pesquisas sugerem que o tipo de comunicação e o modo de se expressar podem impactar na captação de recursos (Larrimore et al., 2011; Herzenstein, Dholakia & Andrews, 2011; Yörük, 2012; Moisseyev, 2013; Lu et al., 2014; Gorbatai &
Nelson, 2015; Dorfleitner et al., 2015). O diálogo intenso entre as partes pode servir de estímulo para maiores investimentos (Antonenko, Lee & Kleinheksel, 2014). Além disso, essa interação permite que as atualizações operacionais nos projetos otimizem as iniciativas empreendedoras, duplicando, assim, a chance de sucesso dos empreendimentos (Xu, Yang, Rao, Fu, Huang &
Bailey, 2014).
Mollick (2014) propõe que a geografia pode ser tanto relacionada com as categorias dos projetos, quanto ao sucesso do funding. Esse autor defende que, ao contrário do que acontece com as opções tradicionais de crédito, o crowdfunding pode relaxar os atritos geográficos convencionais, possibilitando maior acesso ao capital. Giudici, Guerini e Rossi-Lamastra (2017) também analisam possíveis efeitos geográficos no crowdfunding e descobrem que o altruísmo local das pessoas que habitam nas regiões onde os projetos são desenvolvidos aumenta a probabilidade de sucesso dos projetos, destacando que esse efeito depende do capital social da área. Em linha com essas argumentações, Kim e Hann (2014), Marwell (2015) e Agrawal, Catalini e Goldfarb (2015) sugerem que a geografia pode impactar o funcionamento de modelos econômicos, merecendo uma atenção especial em pesquisas futuras.
Por fim, Yuan, Lau e Xu (2016) sugerem que características discriminatórias das solicitações de financiamento são significantes e exercem influência positiva sobre o sucesso dos projetos, isto é, faz sentido acreditar que o sentimento do texto apresentado pelos empreendedores pode impactar a percepção dos apoiadores dos projetos. Outro estudo que segue a mesma linha de investigação, ou seja, impacto da escrita sobre o sucesso dos projetos, é o de Parhankangas e Renko (2017). Esses autores encontraram evidências de que o estilo linguístico pode impactar no total arrecadado pelos projetos que buscam financiamento via crowdfunding, sobretudo, por causa da formação de expectativas para a atrair os potenciais financiadores dos projetos.
Embora essas últimas pesquisas ofereçam insights relevantes sobre o sucesso do crowdfunding, ainda há espaço para novas contribuições acerca dos determinantes do êxito da arrecadação coletiva de recursos (Gera & Kaur, 2016). Isto posto, esta pesquisa pretende incorporar aos estudos realizados sobre os determinantes de sucesso do crowdfunding, variáveis que dizem respeito às características dos projetos e aos aspectos geográficos de suas origens.
Evidências preliminares de estudos anteriores indicam que o sucesso das campanhas de crowdfunding pode ser sensível a fatores inicialmente explorados, mas não devidamente entendidos, como exemplo a geografia.