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Na história da humanidade, foram vários os marcos de explicação para o processo saúde-doença, sempre elevando a compreensão humana com vistas a encontrar ações práticas de intervenção, seja no mundo físico ou metafisico. Combinados, esses mundos geravam um olhar com predominância de aspectos ontológicos da doença (se apossando do corpo como uma entidade) ou de aspectos funcionalistas (desequilíbrio interno ou externo ao corpo). Durante a história da humanidade e das inúmeras civilizações, foram várias as explicações para os eventos relativos à saúde de pessoas e populações (Carvalho e Buss, 2009, p. 142).

Na antiguidade era vigente a explicação metafisica para os fenômenos de doença, no que seria a vontade dos Deuses, levando à busca de terapêuticas mágicas como oferendas, porções e sacrifícios. Com Hipócrates, na idade clássica, tem-se o início dos fundamentos do pensamento científico tendo por base observações clínicas e da natureza. Na idade média, com o monoteísmo cristão, as ações divinas eram responsáveis pelas doenças e males, resposta à punição por pecados, período marcado por retrocesso no conhecimento, mantendo-se até o renascimento. Na Europa, durante o renascimento, o pensamento racional é retomado, as epidemias passaram a ser elemento de reflexão e observação, passando assim a vincular doenças a fatores externos de causalidade. Tem-se início a teoria miasmática, que tenta explicar a disseminação das doenças como resposta a mudanças sociais e às práticas de saúde (Buss e Pellegrini Filho, 2007; Carvalho e Buss, 2009, p. 142–143).

Com os avanços epistemológicos da modernidade a partir de novos paradigmas, bem como com a emergência de negociações mercantis, reestruturação das classes e dos seguimentos sociais e estado organizado, políticas públicas foram elaboradas com ações coercitivas e de regulação do estado sobre a sociedade, tendo como justificativa o bem-estar social (Souza, Silva e Silva, 2013).

Desde o início da industrialização nos países do ocidente, tem sido reportada literatura social com foco na saúde, apresentando condições de vida e pobreza e ambientes físicos e sociais. Johann Peter Frank publicou no século XVIII a obra “A Miséria do Povo, Mãe

das Enfermidades”, em que afirma que más condições de vida e pobreza eram as causas vigentes

de doenças, preconizando a execução de reformas econômicas e sociais (Buss, 2000). No mesmo século, período de consolidação dos Estados Nacionais, as políticas públicas se

desenvolveram de forma organizada e sistemática, visando o abastecimento de bens necessários e o escoamento de dejetos, a população passou a ser um bem do estado. Outra obra de referência para os determinantes sociais em saúde foi escrita pelo médico filosofo George Rosen, em “História da Saúde Pública (1994)”, a partir da associação do movimento de industrialização na Europa Ocidental, vinculado ao capitalismo, com o advento da saúde pública, apresentando problemas ocasionais à saúde em virtude do capital (Carvalho e Buss, 2009, p. 143–144).

Nos anos de 1970 tem-se a preocupação de compreender os fatores que determinam a saúde ou a sua perda. Com inspiração no processo de reestruturação do sistema de saúde canadense nos anos de 1970, elaborou-se um modelo mais explicativo e abrangente – o padrão do campo da saúde – afirmando que as condições de saúde podem ser explicadas por quatro conjunto de fatores: biologia humana, estilo de vida, serviços de saúde e ambiente (Laframboise, 1973).

Na década de 1990, Alvin Richard Tarlov indicou um exemplo com cinco níveis de determinação social da doença, do individual ao coletivo: 1- biológico, físico e químico, 2- estilo de vida, 3- determinantes ambientais e comunitários (família, escola, emprego e outros), 4- determinantes ambientais físicos, climáticos e de contaminação ambiental, 5- estrutura macrossocial, política e percepção populacional (Ceballos, 2015, p. 11).

Nesse contexto a assistência à saúde torna-se uma estratégia reparadora, não sendo entendida como determinante da saúde. Os determinantes são fundamentais para compreender como a saúde é instável frente ao ambiente social, tornando-os elementos referenciais para justiça social (Carvalho e Buss, 2009, p. 160; Ceballos, 2015, p. 11).

O modelo de Göran Dahlgren & Margaret Whitehead é o mais estudado no Brasil (Comissão Nacional Sobre Determinantes Sociais da Saúde, 2008, p. 13). Este estabelece níveis de determinantes, do individual ao macrossocial, permitindo identificar pontos de intervenções políticas com objetivo de reduzir os diferenciais de DSS, originados a partir de indivíduos e grupos pelas suas posições sociais (Buss e Pellegrini Filho, 2007; Ceballos, 2015, p. 11–12).

Para o cenário brasileiro, os determinantes sociais são distintos nas diferentes regiões do país. As regiões Sul e Sudeste do Brasil detêm os melhores índices médios de qualidade de vida e melhores situações gerais de saúde (Ipea, 2015, p. 49–51). Por sua vez, as demais regiões ainda padecem com elevada carga de doenças infecciosas e parasitárias, a exemplo da hanseníase e outras DTNs (Garcia e Silva, 2016, p. 15). As estratégias de controle priorizam áreas mais endêmicas, para mobilização de recursos e de políticas públicas de saúde para fortalecimento da vigilância à saúde no SUS (Brasil, 2012).

áreas-chave para execução, a exemplo de compromisso político e recursos suficientes para programas de controle da doença, cobertura universal, conscientização das pessoas afetadas e da comunidade, promoção da inclusão social intermediando todos os moldes de estigma e discriminação, empoderamento de pessoas afetadas pela hanseníase e fortalecimento de sua capacidade de participação, inclusão da comunidade para melhoria dos serviços, promoção do acesso e recursos financeiros além de apoio à reabilitação na comunidade (WHO, 2016a).

O plano de estratégias de enfrentamento coloca as políticas do país direcionadas para a controle da doença, porém reconhecendo a necessidade de compreensão de realidades distintas fruto de iniquidades sociais promotoras de diferentes dimensões de vulnerabilidade. A ocorrência de DTNs, inclusive hanseníase, traduz a força dos DSS demarcando este grupo de doenças como causa e também como consequência de condições relativas à pobreza nos contextos em que as pessoas estão inseridas, aumentando impactos geração após geração por miséria crônica, baixas condições de saúde, precária qualidade de vida, preconceito e estigma (Brasil, 2018b, p. 101–102).

Diante da perspectiva dos ODSs na agenda para 2030, à luz dos DSS, há de se destacar que o setor saúde está fielmente interligado a outros objetivos, a exemplo do objetivo 1, fim da pobreza, do objetivo 2, fim da fome, do objetivo 4, garantia de educação de qualidade, e objetivo 13, combate as mudanças climáticas e seus respectivos impactos (Pnud, 2015, p. 20). Para além dos objetivos, destacam-se também as metas, a exemplo de: meta 3.8, cobertura universal à saúde, meta 6.1, acesso universal à água potável, e meta 6.2, saneamento, como marcadores fundamentais para monitorar a equidade. Ressalta-se que as populações em cenários de alta endemicidade para hanseníase e outras DTNs são as menos propensas a terem acesso a esses serviços (Engels, 2016). A existência de hanseníase, como de outras DTNs, remete-se a um proxy de desenvolvimento humano e social, indicando a existência também de mais pobreza, riscos ao ambiente, absenteísmo escolar e fome (Brasil, 2018b, p. 103).