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Deus santifica-se a si próprio e santifica-se no ser humano

2. Santificado seja o Vosso Nome

2.3. Deus santifica-se a si próprio e santifica-se no ser humano

Após esta propedêutica, adentramo-nos mais densamente nesta petição, com o auxílio de João Alberto Correia que principia por identificar nela um duplo movimento que se implica mutuamente. No primeiro, pede-se a Deus que intervenha na história, mostrando o seu poder causando admiração entre os povos, uma vez que o comportamento do povo tinha profanado o nome do Senhor327. A este título canta o salmista: «Não a nós, ó Senhor, não a nós, mas ao teu Nome dá glória. Pelo teu amor e fidelidade, porque haveria os pagãos de continuar a dizer: Onde está o teu Deus?» (Sl 115,1-3). Por este motivo, Deus intervirá, dizendo: «Santificarei o meu nome grande, que vós profanastes entre as nações. Então as nações saberão que Eu sou o Senhor…, quando a seus olhos for santificado em vós» (Ez 36,22-23); «por vós mostrar-me-ei santo entre as nações» (Ez 20,41).

No segundo, deseja-se que o ser humano louve o nome de Deus (cf. Ml 1,6). «Ao identificar-se com Deus, o ser humano participa da sua santidade (“Sede santos porque Eu, o vosso Deus, sou Santo” [Lv 11,45]), dela dá testemunho e assim santifica o nome de Deus»328.

325 A. VAZ, «Santificado seja o vosso Nome», 20. 326

I. LAMELAS, «O Pai Nosso comentado pelos Padres da Igreja», in Communio, 1 (2016), 43. 327 Cf. J. A. CORREIA, «As três primeiras petições do Pai Nosso», 9.

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Delinearemos o restante desta exposição, assente neste duplo movimento: Deus santifica-se a si mesmo (é a santidade em sentido próprio, é da sua ontologia) e santifica-se no ser humano (quando este se deixa envolver por Deus donde promana toda a santidade, e permite-se ser veículo/instrumento dela).

Com efeito, “santificar” é sinónimo de “louvar”, “glorificar”, isto é, tornar santo. Constitui, então, uma categoria basilar imprescindível na história das religiões e, concretizando, na judaico-cristã, nas Sagradas Escrituras. Segundo Boff, “santo” possui duas dimensões reciprocamente implicadas: “o ser e o agir”. A primeira apresenta um discurso ontológico (como é Deus? qual a sua natureza?) e a outra um discurso ético (que gestos faz? como age Deus?)329. Deste modo, expressando o seu próprio modo de ser, santo significa «o totalmente Outro, a outra Dimensão, Deus não prolonga o nosso mundo; Ele é outra realidade; Ele significa uma ruptura de nosso ser e de nosso agir»330. Isto significa que Deus escapa-nos totalmente, Ele habita numa luz inacessível (1 Tm 6,16). Na mesma linha de pensamento, se exprime Armindo Vaz que

«pela santidade, Deus está para além do visível e sensível. Ela separa-o do profano (…) torna-O único, diferente da natureza e do humano (…) ou seja, a santidade de Deus revela-o como mistério, contemplado na sua inacessível grandeza infinita: é a sua divindade»331.

Veja-se que “santo” - o sentido etimológico de sanctus, sancire é ser cortado, separado, afastado - denota Aquele que está do outro lado, separado332, para lá da linha do horizonte meramente humano. Impede qualquer ato idolátrico, bem como de um reducionismo funcional de Deus, pois a modalidade do ser de Deus é distinto do nosso, sem comparação. Com feito, «a única atitude face ao santo é a do respeito, acatamento, reverência;

329 Cf. L. BOFF, O Pai-Nosso…, 56-57. 330 Ibid., 57.

331 A. VAZ, «Santificado seja o vosso Nome», 20. 332 Cf. L. BOFF, O Pai-Nosso…, 57.

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estamos diante do Inefável, de uma palavra sem sinónimos, de uma Luz sem qualquer sombra, de um Profundo sem fundo»333.

Assim, melhor entende-se a atitude de Moisés que cobriu a cara com medo de olhar para Deus, no episódio da sarça ardente334 (cf. Ex 6,7). Todavia, se o santo pode repelir – porque o homem na sua pequenez, contingência e finitude se acerca do absoluto, do transcendente, da alteridade, da luz das luzes – também atrai, pelo facto de ver uma sarça ardente que não se consome [«vou acercar-me e olhar este espectáculo tão admirável» (Ex 3,3)].

De facto, pedimos que Deus mostre o seu ser, mostre que existe, que intervenha no mundo dilacerado pela guerra, pelo ódio, pelo fratricídio, pela maledicência, pela injustiça, pela desonestidade, pela perversidade, a fim de que todos O reconheçam como Deus verdadeiro, como Senhor último da história e cale, portanto, os blasfemos e críticos. Em suma, que Deus seja incessantemente exaltado: «santo, santo, santo, é o Senhor Deus todo poderoso, o que era, o que é, e o que há-de vir» (Ap 4,8-9) pois «Senhor, quem não reverenciará o teu Nome? Quem não lhe dará glória? Porque só Tu és santo!» (Ap 15,4).

No entanto, se até aqui debruçamo-nos sobretudo no apontamento ontológico - que ressalva a sua sempre distância e alteridade incontornáveis – centremo-nos, agora, no ético. Aliás este «deriva do ontológico, porque o agir (ético) resulta do ser (ontológico)»335. De facto Deus não é impassível – respondendo aos blasfemos -, ele ouve os clamores do seu povo (cf. Ex3,7) é um Deus que ama a justiça (um dos sinónimos de santo) e abomina a iniquidade336. Isaías afirma-o peremptoriamente «Deus quer ser santificado na justiça» (Is 5,16). A este respeito, elucida-nos L. Boff, afirmando que

333 L. BOFF, O Pai-Nosso…, 57. No mesmo sentido, afirma A. Vaz que «a santificação ou o louvor da glória de Deus é a última palavra de quem se sente criatura e a última palavra da salvação» (A. VAZ, «Santificado seja o vosso Nome», 27).

334 «Afasta-te porque o lugar que pisas é sagrado» (Ex 3,5). 335 L. BOFF, O Pai-Nosso…, 58.

336 Como nos revela Isaías, Deus, enquanto santo, é Aquele que tudo e todos transcende e simultaneamente se compromete com o seu povo, que é seu filho (cf. Is 6,3).

88 «o Deus ontologicamente distante (santo), faz-se eticamente próximo (santo):

socorre o desvalido, quer ser vingança do oprimido, identifica-se com os pobres. Deus mesmo supera o abismo que se interpõe entre a sua realidade santa e a nossa realidade profana. Ele sai de sua luz inacessível e penetra a nossa realidade profana»337.

E assim, do mesmo modo que Deus superou a distância ontológica que O separava dos homens pelo agir ético, também deseja que o homem supere a sua sempre distância ontológica incontornável, também, do mesmo modo, pelo agir ético. Por este motivo, Deus deseja que nos assemelhemos a Ele na sua santidade, participando dela: «Sede santos como Eu vosso Deus sou santo» (Lv 20,7), Mais tarde, dir-nos-á, no Sermão da Montanha, o seu próprio Filho338: «Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5,48).

Por este motivo, o homem «vive no mundo e com o mundo, mas o mundo não lhe é adequado; é um ser histórico, mas a sua dinâmica essencial reclama ruptura da história e realização na trans-história»339. Na verdade, este convite inusitado e sem precedentes “sede santos como eu sou santo” não significa que o ser humano se demita de construir o Reino aqui na terra, não é um demitir-se das suas responsabilidades, mas sim um redirecionar do enfoque para o que verdadeiramente importa: Deus e o seu Espírito340. Esta petição, encontra-se muito bem explanada, sinteticamente, por Boff, declarando que

«o ser humano (homem e mulher) é vocacionado a participar ontologicamente (na ordem da natureza) de Deus e a imitar Deus eticamente (na ordem do agir). O ser humano encontra sua verdadeira humanidade na total extrapolação de si mesmo e na penetração na dimensão de Deus; é no outro e no totalmente Outro que ele encontra o seu verdadeiro eu. É o que significa ontologicamente ser santo como Deus é santo»341.

Esta categoria da santidade aplicada a Deus une-O e separa-O do ser humano. Separa, porque marca distintiva inultrapassável, definindo-O como diferente das criaturas, como o seu

337 L. BOFF, O Pai-Nosso…, 58.

338 «Manifestei o teu Nome aos homens… Pai Santo, guarda-os no teu Nome… Pai justo, dei-lhes a conhecer o teu Nome» (Jo 17,6.11.25-26).

339 L. BOFF, O Pai-Nosso…, 58; Numa palavra, a vocação e meta final do homem é o céu e não a terra, é Deus e não o paraíso terrestre. Também isto não nos soa a estranho.

340 «A oração é um caminho para pouco a pouco purificar os nossos desejos, corrigi-los e conhecer aquilo de que temos verdadeiramente necessidade: Deus e o seu Espírito» (J. RATZINGER, Bento XVI, Jesus de Nazaré, 183). 341 L. BOFF, O Pai-Nosso…, 59.

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próprio modo de ser. Une, porque só em Deus, participando da sua santidade é que o homem pode almeja-la, isto é, o homem só pode ser santo em estreita ligação com o três vezes Santo342.

Na verdade, Deus quer santificar-se em nós343! Como assevera Stº. Agostinho, o que pedimos é que o santo em si seja santificado em nós (Sermão 56,5)344. Pois bem, encontra-se reunido, sinteticamente e de modo brilhante, nesta sentença do doutor de Hipona este duplo movimento identificado por J. A. Correia. Por este motivo, não nos cansemos em momento algum de rezar a Deus para que seja santificado em nós, pois devemos sempre pedir, todos os dias345, para perseverar no que começamos a ser desde o baptismo, isto é, santos346.

Enfim, o nome santo de Deus, não sendo santificado por nós, é santificado em nós, não apenas com palavras mas com o esplendor da vida347. Por este motivo, urge conformar a nossa vida com a de filhos de Deus, para que os homens vendo as nossas boas obras não cessem de bendizer e glorificar o Pai celeste (cf. Mt 5,16) e findem de uma vez por todas as blasfémias, no, agora, «povo eleito, sacerdócio real, nação santa» (1 Pe 2,9) que é a Igreja!

342 Cf. L. BOFF, O Pai-Nosso…, 59.

343 «[Deus] Quero-Me santificar em ti» (Ex 28,22).

344 Cf. M. de MATOS, Interpretação Trinitária do Pai Nosso, 336.

345 «A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias» (Sophia de M. B. ANDRESEN, Contos Exemplares, ed. Figueirinhas, Porto, 200234, 118).

346 Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2813.

347 «Devemos praticar boas obras para que o nome de Deus seja louvado por todos (…) para que (…) vejam que não foi em vão que Deus vos fez seus filhos» [I. LAMELAS, «O Pai Nosso comentado pelos Padres da Igreja», in

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