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5 DAS ANÁLISES

5.2 Centro de Humanidades – Campus 3

5.2.2 DEUS SEJA LOMBRADO

Neste subtópico, abordamos a última inscrição feita no campus do Centro de Humanidades III, que se trata de uma pichação em cor dourada feita sobre um dos muros de uma área interna, semelhante a uma praça. Abaixo reproduzimos a inscrição.

Figura 23 – Inscrição “DEUS SEJA LOMBRADO!”

Fonte: arquivo pessoal da autora.

Como se vê, o texto-enunciado dessa inscrição é “DEUS SEJA LOMBRADO!”, que, com muita clareza, faz intertextualidade com a expressão “Deus seja louvado”, presente nas cédulas de real, e é um enunciado estereotipado do discurso religioso. Conforme se sabe, essa expressão de louvor a Deus passou a

figurar, inicialmente, em cédulas de cruzado, em 1986, por decisão do então presidente José Sarney. Em 1994, com a mudança de moeda para real, o lema foi mantido pelo ministro da Fazenda da época, Fernando Henrique Cardoso. Há alguns anos, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo chegou a solicitar à Justiça Federal a retirada dessa expressão de exaltação a Deus das cédulas de nossa moeda por considerar que a laicidade do Estado brasileiro não era resguardada, já que, segundo sua argumentação, o Estado não pode privilegiar qualquer religião e a presença desse lema em algo emitido pelo Estado seria prestigiar religiões monoteístas e cristãs32.

Evidenciada, então, essa intertextualidade e explicadas algumas circunstâncias concernentes ao uso e à querela em torno dessa expressão, consideremos o seguinte: se o Estado assume um discurso religioso, pode-se dizer que o sujeito inscritor recusa, a um só tempo, o destinador sociedade e o destinador igreja, tomando seu discurso, subvertendo-o e, pela via da insubordinação, instaurando novo sistema de valores. Dentro desse sistema de valores que propõe, a irreverência perante aspectos religiosos e a insubmissão a valores apresentados como da sociedade dão o tom. Se o destinador sociedade e/ou igreja intentam atribuir ao sujeito um /dever fazer/ e um /dever não fazer/, ele, por meio da inscrição, não faz o que o destinador espera dele, mas faz o que /quer fazer/. Assim, nega as convenções sociais atinentes ao contrato fiduciário estabelecido, infringindo-as num ambiente que ampara sua transgressão. Isto afirmamos considerando, por enquanto, apenas o vocábulo lombrar, que, consoante o dicionário Aulete, significa “estar sob efeito de drogas, especialmente de maconha”33. Ora, ao enunciar “Deus seja

lombrado”, o enunciador põe-se no lugar, por meio do recurso da intertextualidade já referida, de destinador, que lança novos valores para uma audiência hipotética, assim como o destinador Estado ou sociedade o faz ao enunciar “Deus seja louvado”. Ambos esperam de seus destinatários, pode-se supor, uma concordância, um “amém”, pela própria estrutura do enunciado, construído no imperativo para convocar a anuência do enunciatário.

32 Informação disponível em <https://www.terra.com.br/noticias/brasil/procuradoria-quer-excluir expressao-deus-seja-louvado-das-cedulas

dereal,675874e30862d310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>. Acesso em 10 de junho de 2018. 33 Informação disponível em <http://www.aulete.com.br/lombrar>. Acesso em 10 de junho de 2018.

Pensamos que, nessa inscrição, o enunciador quer fazer-se ver, quer, como o pichador que deixa sua inscrição no topo de um prédio alto, ser visto. A diferença entre ambos os inscritores consiste nisto: se este quer a fama entre seus pares, aquele quer a divulgação de suas ideias, de sua irreverência e insubmissão, apoiando-se, inclusive, no anonimato para difundi-las. Ele quer ser visto para que a inscrição e, consequentemente, sua insubmissão ideológica sejam vistas. A favor de nossa argumentação estão os aspectos cromáticos dessa inscrição, já que a cor utilizada atrai a atenção por seu brilho, embora não haja um contraste gritante entre a cor do muro e a cor da inscrição.

No que tange à transgressão em si, claro está, já de partida, que ela é de ordem religiosa. Utilizando a nomenclatura de Saraiva (2012), temos um sujeito que tece para si, via enunciação, a identidade de um eu que é alguém que recusa os valores religiosos e propõe a subversão deles e de um eu que é alguém que não aceita as determinações da sociedade e não se acanha, ainda que numa situação controlada pelo entorno e pelo suporte, de zombar dela no que diz respeito à reverência que se deve ter à religião, conforme os valores dessa mesma sociedade. Ademais, podemos afirmar que essa transgressão de natureza religiosa ramifica-se em transgressões de outros tipos, uma vez que rejeitar a religião implica rejeitar a moral que lhe é correspondente. Aqui, consideramos sobremodo pertinente pensar no ambiente, isto é, no lugar onde a inscrição se encontra como determinante para a plausibilidade dessa ponderação.

No CH III, encontram-se muitas pichações e inscrições, conforme inclusive já demonstramos, que dizem respeito à sexualidade. Ora, tal combinação temática entre as inscrições somente é possível em razão de o espaço figurar como actante que abraça a transgressão, de modo que é imprescindível para a ocorrência da prática das inscrições urbanas que ali, e somente ali, podem se dar. O sema, portanto, que subjaz às inscrições que se encontram no CH III, embora não tenhamos podido analisar todas, evidentemente, é /transgressão/. Ele tanto se faz presente nos enunciados das inscrições, cujos conteúdos são subversivos, em sentido amplo, como na prática em si, que infringe regras. Dessa forma, as identidades do lugar e dos indivíduos que nele habitam retroalimentam-se, ou seja, constituem-se mutuamente por meio do dizer. Se, por um lado, o ambiente se torna um espaço de verbalização da transgressão, assim é, por outro lado, porque os indivíduos que o habitam habitam-

no transgressoramente. Percebe-se, então, mais uma vez como o ambiente atua como forte elemento de triagem até mesmo de produções discursivas, pois é no ambiente seguro do campus universitário que se pode enunciar ou produzir inscrições como as que vimos analisando. A transgressão que nele tem lugar não o teria em outro ambiente sem que não fosse censurada ou não recebesse as devidas sanções legais e/ou sociais. O dizer transgressor é possibilitado pelo lugar, portanto.

Observando agora os aspectos plásticos, podemos afirmar que, além do aspecto cromático já comentado, há aqui a presença arredondada e não uniforme da letra bastão utilizada, que, conforme já demonstramos, coopera para um efeito de sentido de subjetividade, dado que revela a presença de um sujeito autor da inscrição. É possível supor que o inscritor tenha utilizado a letra bastão também para servir à intertextualidade pretendida, já que, nas cédulas, a expressão “Deus seja louvado” é escrita com letras maiúsculas. Ali, sobre a cédula de uma moeda emitida por um destinador figurativizado pelo Estado e pelo poder público, as letras em formato bastão cooperam para a construção do efeito de sentido de objetividade. Entretanto, no muro da universidade, o efeito que ali é construído assemelha-se ao efeito alcançado pelo traço da inscrição “ABAIXO A DITADURA”, isto é, o traço do texto- enunciado permite entrever um enunciador que se aproxima de seu enunciatário a fim de persuadi-lo.

Quanto aos aspectos topológicos, o texto está posto num lugar alto, já próximo ao teto. Acima dele, encontra-se em vermelho e em maiúsculas uma nova inscrição, de cunho político, “OCUPA CH 3!!!”, realizada quando das ocupações feitas, em 2016, em protesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Abordando, assim, apenas o aspecto topológico, somos levados a considerar que a disposição do texto-enunciado no /alto/ serve ao propósito de destacá-la e, consequentemente, fazê-la mais visível. Por mais que a alocação da inscrição “OCUPA CH 3!!!” acima da inscrição “DEUS SEJA LOMBRADO!” tenha sido apenas casual, a proximidade de ambas permite-nos ver que, no que tange ao conteúdo, há um denominador comum, a saber, a transgressão. Por meio de ambas as inscrições, podemos ver um sujeito que não se submete a seu destinador, que, no que diz respeito às duas inscrições, é o mesmo: o poder público. Se com “DEUS SEJA LOMBRADO!”, como colocado, o inscritor insurge-se contra o Estado que até mesmo em sua moeda pede reverência a Deus, quando a ele caberia não confundir instâncias

religiosas com instâncias políticas, conforme a argumentação apresentada pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, com a inscrição “OCUPA CH 3!!!” o inscritor insurge-se contra o poder público instituído por meio de impeachment de uma presidente eleita normalmente.

Vemos, portanto, que a prática da inscrição urbana no ambiente acadêmico vale-se de princípios que Fontanille (2005) apontou como presentes na afixagem, embora tenhamos aqui outro tipo de inscrição. Do texto-enunciado passa-se à situação semiótica, que nos permite analisar como a pichação, o cartaz ou a inscrição, de modo geral, funcionam segundo as regras de sua própria prática semiótica e como regulam sua interação com as demais práticas dos espectadores. Acrescentamos: a situação semiótica permite ainda que tratemos de como as inscrições influenciam-se mutuamente, isto é, como determinam-se ao menos quanto à temática. O lugar e o suporte, como já vimos dizendo, são dois dos atores da situação semiótica, ou seja, constituem-se como participantes dessa prática social, porque triam espectadores e possibilitam ou impossibilitam discursos. Ora, se pensarmos conforme Fontanille (2005, p. 46), para quem é preciso entender a situação semiótica como “situação formal, que reagrupa e unifica o conjunto dos elementos pertinentes à cena e à

estratégiaenunciativas”, constatamos que o lugar e o suporte das inscrições urbanas presentes nos campi universitários fazem parte da composição de uma cena dedicada à transgressão, montada conforme uma estratégia enunciativa cujo fim é precisamente viabilizar a transgressão, consagrar a ela, por assim dizer, um espaço seguro que possa abrigá-la.

Consideremos agora que esse espaço de transgressão associado ao texto- enunciado, ao material escolhido para fazer a inscrição (spray) e às demais inscrições que ali se encontram compõem um simulacro para seu enunciador, permitem-nos tecer uma imagem a partir do que o sujeito diz e do modo como o diz. Veja-se que, nos termos de Discini (2009, p. 73), essa imagem “confirma (...) um modo de ser no mundo. Isso, porque o faz querer querer-ser de certo modo, ou seja, sobremodaliza a construção de sua competência modal”. Ora, se falamos em modo de ser, falamos em formas de vida e, assim, ligamos os pontos entre as propostas de Discini (2009) e Fontanille (2005). O que é investigado pelo instrumental da semiótica de linha francesa é o modo de ser no mundo, a presença do sujeito que, existindo semioticamente, única existência possível, existe compondo textos e signos dentro de

cenas predicativas e, por seu turno, compondo cenas dentro de estratégias para ser o que quer ser.

É dentro deste raciocínio e – por que não dizer? – desta narratividade que o inscritor de “DEUS SEJA LOMBRADO” faz-se um contraventor, um sujeito que quer destituir um sistema de valores e instaurar outro.