O Deutero-Isaías é um escritor por si diferente dos demais. Sua característica é de ser pensativo e compassivo. Características típicas de quem ouve mais que fala. Ouvir é próprio do discípulo, e o texto está carregado deste termo, discípulo. De forma muito assertiva Brown (2012) diz que este termo se refere aos “seguidores imediatos que selaram a palavra profeticamente em seus corações” (BROWN, 2012, p. 682). Eis uma grande reflexão. O profeta é discípulo quando tem a Palavra no coração e por isso ela se derrama em seus lábios. O discípulo sela, guarda a Palavra que ouve como a um tesouro. O termo discípulo tem sua referência no verbo “ensinar” (lāmad), este verbo segue uma regra, ninguém dá o que não tem, logo, deve-se primeiro ter ou receber o que será transmitido, dado a outros (BROWN, 2012, p. 682). O discípulo ocupa um lugar de aprendizado, de quem ouve respeitosamente está na fase de aprender, receber. O Deutero-Isaías se coloca exatamente nesta posição, aquele que ouve.
O mais sério nesta perícope, diferente do que primeiramente pensamos para um profeta, não é falar e sim ouvir (50,4; 51,1.7). O profeta carrega o peso de proferir oráculos proféticos, umas das formas válidas de se receber a Palavra de Deus. Esse oráculo é válido na medida que tem propriedade manifestativa, ou seja, o que foi profetizado será realizado necessariamente. O profeta recebe a Palavra e a digere como sua, isso só é possível se de fato ele a recebe no silêncio, como que uma encarnação, um gerar em si. Pois muitas profecias não se veem sinais prováveis e, no entanto, quem garante e de fato executa é o Senhor. Caso o profeta seja surdo aos apelos nada poderá se proferir, ou se for dito não será manifestado, ou seja, trata-se de uma falsa profecia. O profeta é aquele que está afetado, ferido e marcado pela Palavra. É tão marcado pela Palavra que o profeta se torna o local histórico da Palavra, antes é necessário destacar que a Palavra de Deus “se faz realidade” no discípulo, no profeta (ARTOLA, 2011, p.28). Como nos ensina Artola:
Dessa identificação do profeta com a palavra surge a firme convicção de que seus oráculos são Palavra do próprio Javé. De Amós a Malaquias, toda a literatura profética está monotonamente marcada pela fórmula: “assim fala Javé”. É nessa posse do profeta pela palavra que se verifica aquela profunda união entre Deus e a pessoa do mensageiro, que faz com que o oráculo profético seja atribuído à Divindade. Porém, o critério seguro de tal atuação divina está na eficácia de sua palavra (ARTOLA, 2011, p. 27). Deutero-Isaías é um discípulo fiel, diferenciado. Primeiro pelo fato de ouvir atentamente e diariamente. Segundo porque para ele somente o Senhor pode anunciar antecipadamente os fatos históricos e cumpri-los (ARTOLA, 2011, p.28). Terceiro, porque carrega em si o peso do anúncio da Palavra e não por isso abandona a missão.
Agora é necessário expor o local, ou o como pode a Palavra de Deus ter tanto efeito, tanto poder sobre o profeta. Como é possível o ouvir humano captar o falar divino? Onde a Palavra encontra o repouso absoluto que unifica a realidade divina à humana? Podemos sem constrangimento afirmar que o Criador preparou esta estrutura, esta relação entre o divino e o humano quando infundiu no homem o espírito. Do Espírito Divino se faz a comunicação ao espírito humano. A pessoa vive na estrutura unitiva de corpo e alma, na alma Deus infunde o seu sopro, que é o espírito que o faz semelhante a Deus e diferente dos animais.
Este é um âmbito tão importante quanto belo de se falar: “o espírito é a realidade divina em que se pode realizar a união entre o homem e Deus” (ARTOLA, 2011, p.29). A realidade divina penetra preenche toda a realidade humana por meio
do Espírito. Na verdade, a união é tão estável por ser encontro de duas realidades espirituais. O espírito humano é a parte da pessoa que sempre está aberta ao Espírito Divino. É o que Artola (2011) diz de “parte permeável”. Parte que recebe o diferente nele mesmo, não deixa de ser, porém transmite e recebe o que não é. Então temos a inabitação do Espírito na pessoa. Esta inabitação é natural a ambas, pois é consolidada em uma realidade existente nos dois lados. Caso fosse diferente, a ação do Espírito no profeta, a recepção da Palavra de Deus no discípulo seria uma invasão, uma agressão estranha. Ao contrário, esta presença já foi preparada pelo Criador, esta presença é esperada e desejada por todo discípulo.
O profeta pode ser o porta-voz de Deus porque recebe a Palavra e recebe a Palavra porque é capaz de Deus. Na verdade, diz, Artola (2011) que o Espírito capacita e possibilita o discípulo para receber a Palavra (ARTOLA, 2011, p. 30).
Deus escolhe um homem como morada para si; o profundo divino se põe em contato com o profundo humano. Deus, em sua infinita bondade e onipresença, da esfera do divino e da esfera do homem faz uma única esfera: o sobrenatural e a vida humana. Essa compenetração se realiza na pessoa do profeta através do ruah, o resultado é uma ação tão unificada e uma colaboração interpessoal entre Deus e o profeta tão conjugada que a Palavra é de Deus e do homem em sua totalidade, porém atribuída propriamente àquele que a totaliza na forma mais perfeita e primordial, quer dizer, Deus. Dessa forma a locução profética é verdadeiramente Palavra de Deus (ARTOLA, 2011, p. 29).
O Servo vive em uma realidade paradoxal, de um lado um profundo sofrimento, e de outro vive em profunda intimidade e relação com Deus. Estas duas realidades se envolvem e se renovam a cada dia a partir do chamado de Deus, do ouvir manhã, pós manhã. Aqui percebemos uma mediação entre ouvir e testemunhar. Assim, vive o profeta entre a vontade de Deus e o sofrimento da humanidade. A Palavra que o profeta testemunha é a confiança que vem para fortalecer os fracos, perseguidos e excluídos.
A confiança, a força do Servo não é sua sabedoria, não é sua retórica afinada e imbatível. Sua força é sua língua de discípulo que fala do que Deus lhe confia.