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1. Capítulo – Curitiba do século XIX e a Imigração Alemã

1.3 Imigração Germânica

1.3.1 Deutschtum (Germanidade)

Quando se fala em imigrantes alemães, sabe-se que a variedade de suas origens impede pensá-los como grupo homogêneo. Sob a denominação “alemães” aloca-se aqueles emigrados do campo e de zonas urbanas, da Europa Setentrional ou da Europa Central, com dialetos diversos e diferentes religiões (alemães católicos e alemães luteranos). Apesar dessas diferenças, da heterogeneidade social e também das diferenças no tempo da emigração, alega-se que eles construíram uma cultura em comum, uma cultura imigrante. Segundo Nadalin, esta cultura se caracterizou pela edificação de uma identidade étnica comum e de uma língua habitual (re)construída

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. Isso aconteceu, segundo o autor, pelo fato de que a sociedade que os acolhia (ou os hostilizava), em face da inserção em uma sociedade que nem sempre os compreendia, e reciprocamente, os imigrantes e aqueles que assim se mantinham protegiam-se na idealização de uma pátria mãe e de um passado, protegiam-se, inclusive, na idealização de uma comunidade

61

.

No caso dos alemães, a historiografia vem apontando que eles reproduziram uma cultura imigrante alemã, baseada no Deutschtum, que asseguraria proteção e idealização de uma comunidade. O Deutschtum está vinculado à idéia de etnicidade.

Segundo Fredrik Barth, a etnicidade é uma forma de organização social, baseada na atribuição categorial que classifica as pessoas em função de sua origem suposta, que

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SEYFERTH, Giralda. A Identidade teuto-brasileira numa perspectiva histórica. p.13. In:

MAUCH, Cláudia; VASCONCELLOS, Naira (org). Os alemães no sul do Brasil: cultura, etnicidade, história. Canoas: ULBRA, 1994.

59

NADALIN, Sérgio Odilon. Cidade, ciclos matrimoniais e etnicidade: imigrantes e descendentes

de origem germânica e luterana em Curitiba; 1866-1939. História: Questões e Debates. Curitiba:

Editora da UFPR, ano. 1999, n. 30. p.210.

60

NADALIN, Sérgio O. Gestão de Análise da População: Por uma História Demográfica dos Contatos Culturais em Curitiba: 1866-1939. (www.abep.org.br).

61

Ibid.

se acha validada na interação social pela ativação de signos culturais socialmente diferenciadores

62

. Desse ponto de vista, os alemães e seus descendentes, ao se constituírem em comunidades e se organizarem em associações recreativas ou religiosas, aparecem como perpetuadores da etnicidade, expressada pelo conceito do Deutschtum. O que está vinculado a este conceito é a idéia de uma ligação nacional com a Alemanha que se baseia no direito de sangue e que é reforçado pela utilização da língua, pelas associações, escolas, etc. Esse conceito se perpetua através das gerações, não importando quão distante estas gerações se separam da Alemanha. O fator de identificação étnica do teuto-brasileiro é principalmente a língua alemã

63

.

Seyferth, a respeito da identidade étnica, diz que esta é uma da muitas manifestações da identidade social

64

. Mas o que é a identidade? A identidade, segundo Hall, preenche o espaço entre o “interior” e o “ exterior” – entre o mundo pessoal e o mundo público. O fato de que projetamos a “nós próprios” nessas identidades culturais, ao mesmo tempo em que internalizamos seus significados e valores, tornando-os “parte de nós”, contribuiu para aliar nossos sentimentos subjetivos com os lugares objetivos que ocupamos no mundo social e cultural. A identidade, então, costura o sujeito à estrutura. Estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e previsíveis

65

.

Os processos de identificação é que vão determinar a emergência de uma identidade étnica, a partir das oposições entre os indivíduos ou entre grupos de diferentes etnias. Nesse caso, as diferenças são observadas no que Barth chama de fronteiras étnicas, e essas são demarcadas em função do outro, do não-membro, e em função dele são valorizadas ou não as características de um grupo

66

. Para que a noção de grupo étnico tenha sentido, é preciso que os atores possam se dar conta das fronteiras que marcam o sistema social ao qual acham que pertencem, e para além dos

62

POUTIGNAT, Philippe. Teorias da Etnicidade. Seguido de Grupos Étnicos e suas fronteiras de

Fredrik Barth. São Paulo: UNESP, 1998. p. 141.

63

SEYFERTH, Giralda. Nacionalismo e Identidade Étnica: a ideologia germanista e o grupo étnico teuto-brasileiro numa comunidade do Vale do Itajaí. Florianópolis: FCC, 1981. p.155.

64

Ibid., p. 6.

65

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro : DP&A, 2000. p. 12.

66

POUTIGNAT, op. cit., p. 195.

quais eles identificam outros atores implicados em um outro sistema social. Na análise de Barth, a noção de fronteira étnica é que define o grupo e não o material cultural em que este está envolvido

67

.

Cardoso de Oliveira, seguindo a esteira interpretativa aberta por Barth, chama essa diferença de identidade contrastiva. Isso significa que, a identidade contrastiva é a que se constitui na essência da identidade étnica. Isto implica na afirmação do nós diante dos outros. Quando uma pessoa ou um grupo se afirmam, o fazem como meio de diferenciação em relação a alguma pessoa ou grupo com que se defrontam. É uma identidade que surge por oposição. Ela não se afirma isoladamente. No caso da identidade étnica ela se afirma “negando” a outra identidade, “etnocentricamente” por ela visualizada.

68

A situação de oposição do teuto-brasileiro em relação aos que estão fora do seu grupo étnico é algo verificado para aqueles que acompanham o processo de inserção de imigrantes alemães, desde o início da colonização. Como afirma Seyferth, a comunidade étnica teuto-brasileiro foi definida objetivamente por seus membros a partir do uso cotidiano da língua alemã, da preservação de usos e costumes alemães (incluindo outras coisas, como hábitos alimentares, organização do espaço doméstico, formas de sociabilidade, comportamento religioso etc.) da intensidade da vida social expressa pelas muitas associações que assumiram forte caráter étnico (como as sociedade de tiro, de ginástica, de canto, escolares, auxílio mútuo)

69

.

Nestas associações estava presente a idéia da preservação da identidade étnica e cultural sob a forma do Deutschtum (germanidade). Segundo Seyferth, o que explica a proliferação nas colônias e nas cidades, das sociedades de ginástica, de canto e de tiro, associadas juntamente à família, à preservação e uso da língua alemã, está vinculada a idéia de reapropriação da própria ideologia nacionalista que antecedeu a unificação da Alemanha.

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67

Ibid.

68

CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Identidade, etnia e estrutura social. São Paulo: Pioneira, 1976. p.5.

69

SEYFERTH, Giralda. A Identidade teuto-brasileira... op.cit., p.17.

70

Ibid., p.17.

***

Se o Deutschtum implicava na preservação de costumes e de uma tradição do grupo de alemães que se estabeleceram aqui e os seus descendentes, a perspectiva elisiana acerca da relação entre estabelecidos e os outsiders se torna pertinente e relevante. Neste caso os outsiders (alemães) que se estabeleceram, não queriam ser assimilados pela sociedade local. Assim, esse grupo teve a tendência de interpretar e avaliar a cultura do país em que se encontrava pela sua própria, ocorrendo, portanto, o fechamento do grupo e o estabelecimento de fronteiras.

Nas relações sociais dentro do grupo era essencial o uso da língua alemã, isto tanto na família como em todas as instituições por eles fundadas. A língua era o elo que mantinha a ligação entre todos os indivíduos do grupo, pois segundo Elias, a língua comum que o indivíduo partilha com os outros é que, sem dúvida, representa um componente integral no hábito social

71

. A língua em comum desse grupo, pressupõe a existência não só de um ator mas de um grupo de duas ou mais pessoas co-atuantes. Ela estimula e, ao mesmo tempo, exige um determinado grau de interação do grupo

72

. Por isso era muito importante para os alemães, tanto nas colônias quanto nas cidades, ensinar as suas crianças a falar o alemão; dessa forma, as crianças adquirem, inevitavelmente, parte do fundo de conhecimento da sociedade em que crescem, as quais se interligam, de forma sistemática com o conhecimento que pode ser adquirido através de sua própria experiência

73

.

A língua alemã era praticada na família, na igreja (principalmente a protestante), na escola, nas mais diversas associações, portanto era nestes lugares que ocorreu a manipulação dos sentimentos em relação ao grupo, pois toda a instituição visa o aprofundamento e a consolidação de um sentimento direcionado para a tradição

74

.

71

ELIAS, Norbert. A Sociedade do Indivíduos. Lisboa: Dom Quixote, 1993. p. 205.

72

ELIAS, Norbert. Teoria Simbólica. Celta, 1994. p 23.

73

Ibid. p. 38.

74

ELIAS, Norbert. A Sociedade …op. cit., p. 234.

O ensinamento da linguagem que era passada de geração a geração contribuiu para a reprodução da imagem do Eu e do Nós. Segundo Elias, a auto-experiência enquanto indivíduo e a sua auto-experiência enquanto representante de um grupo do Nós, como o alemão, mostrava que as características da identidade do grupo são implantadas na estrutura da personalidade dos homens de forma muito firme e profunda como um nível do hábito social

75

. Pois o hábito social, a atitude e a forma do indivíduo expressar-se, ou seja, esses eram reveladores da constituição da estrutura de personalidade social. O habitus pode ser visto como balizador das ações dos indivíduos e, em uma situação social concreta, pode ser considerado como produto da história que relaciona práticas individuais e coletivas.

Chamo atenção que o grupo de teutos não conseguiram manter-se coesos na relação com o Deutschtum o tempo todo. Isso é facilmente verificado principalmente na cidade, como é o caso de Curitiba no final do século XIX. Alguns alemães e descendentes conseguiram ascender-se socialmente estabelecendo casas comerciais e até mesmo chegando a conquistar cargos políticos. Para isso tiveram que aprender a falar o português, ter relações com o grupo estabelecido e mostrar que eram socialmente necessários pois detinham algum conhecimento específico útil à sociedade local. A esse respeito Elias escreve: quando os grupos outsiders são necessários de algum modo aos grupos estabelecidos, quando têm alguma função para estes, o vínculo duplo começa a funcionar mais abertamente e o faz de maneira crescente quando a desigualdade da dependência, sem desaparecer, diminui — quando o equilíbrio de poder pende um pouco a favor dos outsiders

76

.

Concluindo, o Deutschtum é a imagem do nós e o ideal do nós, e isso para um indivíduo alemão fazia parte da sua auto-imagem e seu ideal de eu, tanto quanto a imagem e o ideal do eu da pessoa singular a quem ela se refere como eu

77

. Segundo Elias, não é difícil perceber que afirmações do tipo “eu sou Jacob Schimidt, sou alemão” implicava uma imagem do eu e uma imagem do nós. Afinal, esses aspectos da

75

Ibid.

76

ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos ... op.cit., p. 33.

77

Ibid., p. 42.

identidade grupal da pessoa não são menos integrantes de sua identidade pessoal do que outros aspectos que a distinguem de outros membros de seu “nós”

78

.

A maneira pela qual os alemães e seus descendentes procuraram resistir ao processo de assimilação, segundo Elias, leva a impressão de que a estabilidade, a força de resistência, a profundidade de implantação do hábito social dos indivíduos duma unidade de sobrevivência são tanto maiores quanto mais longa e contínua for a seqüência de gerações dentro da qual um determinado hábito social é transmitido nos seus traços básicos, persistentemente, sempre de novo, dos pais para os filhos

79

. Essa identificação que o indivíduo tem com o seu grupo era evidente e necessária, pois era, no caso do Deutschtum, a unidade mais significativa do nós, e este regulava o hábito social, o caráter e a estrutura social de cada indivíduo. E esta imagem-Nós e todo o hábito social destes indivíduos estava ligado a fortes cargas afetivas e à identidade do grupo e, graças a continuidade da tradição, concede ao indivíduo a hipótese de sobreviver para além de sua existência real e física na memória das gerações vindouras. O objetivo da manutenção do Deutschtum estava em manter a continuidade do grupo que se exprime entre outras coisas também pela continuidade da evolução lingüística, pela transmissão de história, músicas e muitos outros bens culturais

80

.

***

A partir do segundo capítulo, aprofundaremos melhor esta perspectiva elisiana em relação aos estabelecidos e outsiders, relacionando esses conceitos com a inserção dos alemães na sociedade curitibana no final do século XIX. Para isso contemplaremos duas categorias em que o grupo de alemães se insere: o tema do trabalho e, em segundo lugar, a família e o associativismo. A partir dessas categorias, observaremos como o grupo de alemães procurou estabelecer uma rede de relacionamentos que possibilitassem resolver a sua vida material a partir da formação de redes de interdependência (principalmente com a sociedade lusa). E, ao mesmo

78

Ibid.

79

ELIAS, Norbert. A Sociedade … op. cit., p.236.

tempo verificar quais são as estratégias por eles articuladas na tentativa de preservação e fechamento do próprio grupo no âmbito familiar (Deutschtum).

80

Ibid., p. 248-249.

Capítulo 2

2. OS ALEMÃES EM CURITIBA

Anteriormente à instalação da Província do Paraná, apenas três núcleos com pequenos contingentes de imigrantes foram estabelecidos em território paranaense. Em 1829 foram assentados alemães no Rio Negro, em 1847 franceses na colônia Tereza do Ivaí, e em 1852 suíços, franceses e alemães foram estabelecidos na Colônia Superagüi, em Guaraqueçaba. A fundação desses núcleos coloniais se inseriu no amplo programa de colonização, desenvolvido com o apoio do Governo Imperial, motivado notadamente pela preocupação de povoar vazios demográficos

81

.

Mesmo que a área do planalto de Curitiba estivesse à margem desse programa colonizador, logo teve início um movimento espontâneo de remigração para Curitiba, especialmente alemães de Rio Negro e da colônia Dona Francisca, de Santa Catarina, que passaram a se fixar em pequenas chácaras nos arredores da capital. Esta migração espontânea acontecia desde 1830, porém ela se acentuou a partir de 1850, quando aproximadamente 280 imigrantes haviam abandonado a região de Joinville (Colônia Dona Francisca) e tomado a direção do planalto curitibano. Segundo Nadalin, por mais que a saída destes imigrantes pudesse caracterizar uma espontaneidade, dadas as difíceis condições iniciais no referido núcleo, parece não ter sido uma simples coincidência o fato deste movimento ter ocorrido justamente após a instalação da província. Além disso, o que foi mais significativo para a argumentação do autor, é que existem evidências na correspondência recebida pelos presidentes de província

81

BALHANA, Altiva Pilatti e NADALIN, Sérgio O. A Imigração e o processo de urbanização em

Curitiba. IN: Anais do VII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História. São Paulo,

1974. p. 529.

indicando que as autoridades provinciais teriam prometido subsídios para os estrangeiros que aqui quisessem se estabelecer

82

.

Figura 3: Aspecto do rocio de Curitiba com casas de colonos alemães de 1881, aquarela de Hugo Calgan (Coleção Newton Carneiro)

Fonte: Arquivo Casa da Memória.

Os estrangeiros de origem germânica e oriundos da Colônia Dona Francisca adquiriram lotes principalmente na região ondulada das pequenas colinas situadas na periferia nordeste-norte-noroeste da capital, e é provável que este local tenha sido a eles destinado pelas autoridades provinciais. Suas chácaras rapidamente mudaram a paisagem ao redor de Curitiba. Os imigrantes transformaram também o colorido da cidade, com suas presenças, suas falas, seus templos, com seu comércio e oficinas, seu

82

NADALIN, Sérgio Odilon. Imigrantes de Origem Germânica no Brasil: ciclos matrimoniais e

etnicidade. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2000. p.174.

labor e suas carroças, integrados cada vez mais a uma população que se tornava paulatinamente mais citadina

83

.

Curitiba também propiciou de maneira especial um processo de integração entre os próprios imigrantes, tornados alemães em função da convivência e dos contatos culturais com o luso-brasileiro. De acordo com os registros paroquiais luteranos, pesquisado por Nadalin, em Curitiba os denominados “alemães” tinham várias origens. Eram prussianos, posnanianos, silesianos, pomeranos, hanoverianos, hamburgueses, renanos, suíços; alguns eram naturais de Schleswig-Holstein, outros de Mecklenburgo, Saxônia, Turíngia, Westefália, Alsácia e Lorena. Ainda havia alguns bávaros e austríacos

84

.

A experiência inicial dos pioneiros imigrantes, localizados nos arredores de Curitiba, vivendo como colonos de vida tipicamente rural, praticamente foi esquecida pela memória curitibana. Sendo que a história do imigrante alemão em Curitiba foi marcada pelo senso comum de que esse sempre foi visto como um elemento urbano que se imiscuiu nas atividades comerciais e industriais da cidade, fundando armazéns de secos e molhados, padarias, cervejarias, lojas de louças, ferragens, fábricas, ou exercendo profissões liberais diversas; tendo ascendido socialmente, ligando-se muitas vezes aos grupos econômicos oriundos da elite luso-brasileira

85

.

2.1 Relatos de Strobel

Esta trajetória de vários imigrantes alemães que vieram de Santa Catarina para Curitiba em busca de uma vida melhor, pode ser vista nos relatos de Gustav Strobel filho de Christian Strobel, um dos pioneiros da imigração alemã, em que este relata em

83

Ibid., p. 207.

84

NADALIN, Sérgio Odilon. A origem dos noivos nos registros de casamentos da Comunidade

Evangélica Luterana de Curitiba; 1870-1969.

Dissertação de mestrado, Curitiba, Universidade Federal do Paraná, 1975. p.122.

85

NADALIN, Sérgio Odilon. Imigrantes de Origem Germânica no Brasil: ciclos matrimoniais e

etnicidade. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2000. p.196.

seu livro a saga de uma família pioneira alemã nos Estados do Paraná e Santa Catarina: o clã Strobel

86

.

Segundo Gustav, a sua família chegou em Santa Catarina (no Porto de São Francisco) a bordo do navio Florentim, em 11 de novembro de 1854. De lá eles foram levados para Joinville

87

(chegaram no dia 20 de novembro). O imigrante recebeu uma certa extensão de terras e narrou as dificuldades que passaram, pois as terras foram recebidas a crédito e deviam ser cultivadas por ele. Porém, antes de iniciar a plantação era necessário derrubar a mata existente

88

. Isso os desanimou, pois até derrubarem toda a mata, provavelmente morreriam de fome.

Christian então resolveu tomar uma decisão, veio para Curitiba em busca de trabalho (como carpinteiro), chegando aqui no início de 1855

89

. Ele teve sorte, pois encontrou na cidade uma mulher que lhe dirigiu a palavra em alemão e lhe disse que seu marido (Teodoro Gaspar), que morava em São José dos Pinhais, tinha trabalho para ele

90

.

Em São José dos Pinhais, Christian foi contratado para confeccionar balcões e prateleiras para uma loja, uma empreitada que durou três meses. Como Gaspar comercializava em Joinville, Christian solicitou a este que trouxesse a sua família para São José. E assim aconteceu e a família de Strobel chegou ao Paraná em 20 de abril de 1855, depois de 14 dias de viagem

91

.

Em 1860, os Strobel conseguiram se mudar para uma casa própria, depois de viverem de aluguel. A propriedade ficava a meia hora de São José dos Pinhais, no caminho que seguia para Morretes. Enquanto moraram nesta propriedade, eles plantavam mantimentos para o próprio sustento e o excedente era vendido em

86

STROBEL, Gustav H. Relatos de um pioneiro da imigração alemã. Estante Paranista, 27, Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. 1987. p.7. Este livro foi utilizado como fonte de pesquisa no trabalho de Cacilda da Silva Machado, a qual desenvolveu um estudo sobre a genealogia da família Strobel, em que destacou a socialização das gerações pela via do casamento e trabalho. In: MACHADO, Cacilda da Silva. De uma Família Imigrante: sociabilidades e laços de

parentesco. Curitiba: Quatro Ventos, 1998.

87

Ibid., p. 30.

88

Ibid., p. 31.

89

Ibid., p. 40.

90

Ibid., p. 41.

91

Ibid., p. 45.

Curitiba

92

. Além disso, Strobel passou a dedicar-se mais aos serviços de carpintaria, e ao longo do tempo foi adquirindo fama e era, cada vez mais, solicitado para prestação de serviços. Gustav também ajudava o pai nos trabalhos de carpintaria, quando era dispensado do trabalho doméstico

93

.

Com o tempo começaram a surgir várias propostas de trabalho em Curitiba. Em 1860 eles assumiram o primeiro trabalho a mando de Guilherme Mayer, conhecido como Buddelmayer. Ele residia a direita do Cemitério Municipal, onde plantava e mantinha um bar-restaurante. Também construiu a primeira cancha de boliche, que se constituía numa atração em Curitiba. Depois, Christian trabalhou em muitas empreitadas para o ferreiro Sprenger. Quando, em 1863, o farmacêutico Augusto Stellfeld terminou de construir a sua casa na Praça Tiradentes, e precisava de um carpinteiro que soubesse fazer a cobertura em madeira com técnica alemã. Foi então que o engenheiro responsável pela obra, Gottlieb Wieland, resolveu chamar Christian Strobel para fazer a cobertura. Nesta obra, Christian também construiu a primeira escada em caracol de Curitiba

94

.

Após terminada a obra na casa de Stellfeld, o “barão de Holleben” contratou o

carpinteiro para executar um trabalho de reforma e aumento de sua residência, que se

situava no Alto da Glória. Em seguida, Strobel participou também das obras de

construção da Estrada da Graciosa

95

. Muito antes de a mesma terminar, Christian já

havia recebido outras solicitações de construções em Curitiba. A primeira foi a

Após terminada a obra na casa de Stellfeld, o “barão de Holleben” contratou o

carpinteiro para executar um trabalho de reforma e aumento de sua residência, que se

situava no Alto da Glória. Em seguida, Strobel participou também das obras de

construção da Estrada da Graciosa

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. Muito antes de a mesma terminar, Christian já

havia recebido outras solicitações de construções em Curitiba. A primeira foi a

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