• Nenhum resultado encontrado

2.3 Deveres de Cooperação Processual

2.3.7 Dever de Respeito ao Autorregramento da Vontade no Processo

A ideia de comunidade processual de trabalho, com o relevante papel que se atribui às partes na condução do processo e na construção da decisão judicial, leva à valorização da

217 BARREIROS, Lorena Miranda Santos. Fundamentos constitucionais do princípio da cooperação processual. Salvador: JusPODIVM, 2013, p. 198-199.

218 Art. 256 do CPC de 2015. A citação por edital será feita: I - quando desconhecido ou incerto o citando;

II - quando ignorado, incerto ou inacessível o lugar em que se encontrar o citando; III - nos casos expressos em lei.

[...]

§ 3°. O réu será considerado em local ignorado ou incerto se infrutíferas as tentativas de sua localização, inclusive mediante requisição pelo juízo de informações sobre seu endereço nos cadastros de órgãos públicos ou de concessionárias de serviços públicos.

219 Art. 319 do CPC de 2015. A petição inicial indicará: I - o juízo a que é dirigida;

II - os nomes, os prenomes, o estado civil, a existência de união estável, a profissão, o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o endereço eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu;

[...]

§ 1°. Caso não disponha das informações previstas no inciso II, poderá o autor, na petição inicial, requerer ao juiz diligências necessárias a sua obtenção.

220 Art. 373 do CPC de 2015. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;

II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor.

§ 1°. Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. 221 Art. 400 do CPC de 2015. Ao decidir o pedido, o juiz admitirá como verdadeiros os fatos que, por meio do

documento ou da coisa, a parte pretendia provar se:

I - o requerido não efetuar a exibição nem fizer nenhuma declaração no prazo do art. 398; II - a recusa for havida por ilegítima.

Parágrafo único. Sendo necessário, o juiz pode adotar medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub- rogatórias para que o documento seja exibido.

222 Art. 772 do CPC de 2015. O juiz pode, em qualquer momento do processo: I - ordenar o comparecimento das partes;

II - advertir o executado de que seu procedimento constitui ato atentatório à dignidade da justiça;

III - determinar que sujeitos indicados pelo exequente forneçam informações em geral relacionadas ao objeto da execução, tais como documentos e dados que tenham em seu poder, assinando-lhes prazo razoável.

autonomia privada, melhor dizendo, do autorregramento da vontade, no processo civil contemporâneo.

Nesse sentido é que a doutrina, nacional e estrangeira, costuma afirmar que o

modelo cooperativo de processo e o fenômeno da contratualização do processo são novas perspectivas de pensar o processo civil que andam lado a lado.223

Assevera Fredie Didier Jr. que “na verdade, todas normas que atribuem relevância à autonomia da vontade no processo, estimulando comportamentos negociais entre os sujeitos processuais, reforçam o modelo cooperativo; afinal não há negociação juridicamente lícita sem obediência aos deveres de cooperação”.224

O mencionado processualista baiano defende, ainda, a existência, no Direito Processual Civil brasileiro, do princípio do respeito ao autorregramento da vontade no

processo. Tal princípio é construído a partir do direito fundamental à liberdade, consagrado no art. 5°, caput, da CF de 1988225.226

A partir dessas lições, sustenta-se, nesta Dissertação, que, como espécie do dever de cooperação, há o dever de respeito ao autorregramento da vontade no processo, o qual encontra fundamento normativo no retro citado princípio constitucional processual.

Se a parte tem o direito de, “ora sozinha, ora com a outra, ora com a outra e com o órgão jurisdicional, disciplinar juridicamente as suas condutas processuais”227, avança-se para

defender, nesta pesquisa, que todos os sujeitos do processo terão, por conseguinte, o dever de respeitar este direito. Veja-se um exemplo prático: conforme se depreende dos arts. 1.002228 e

1.013229 do CPC de 2015, à parte recorrente cabe, como expressão da sua autonomia privada,

delimitar o objeto do recurso. Nesta hipótese, o Tribunal ad quem e a parte recorrida ficarão obrigatoriamente adstritos às questões relativas ao capítulo do decisum de piso impugnado.

223 DIDIER JR. Fredie. Curso de Direito Processual Civil: Parte Geral e Processo de Conhecimento. 18. ed. Salvador: JusPODIVM, 2016, p. 136.

224 Ibidem, p. 132.

225 Art. 5º da CF de 1988. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]. (g.n.)

226 DIDIER JR., Fredie. Princípio do respeito ao autorregramento da vontade no processo civil. In: CABRAL, Antonio do Passo; NOGUEIRA, Pedro Henrique. Negócios processuais. 2. ed. rev., atual e ampl. Salvador: JusPODIVM, 2016, p. 31-37.

227 Ibidem, p. 35.

228 Art. 1.002 do CPC de 2015. A decisão pode ser impugnada no todo ou em parte. (g.n.)

229 Art. 1.013 do CPC de 2015. A apelação devolverá ao tribunal o conhecimento da matéria impugnada. (g.n.) § 1°. Serão, porém, objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal todas as questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que não tenham sido solucionadas, desde que relativas ao capítulo impugnado. (g.n.)

Por isso mesmo é que, nesta pesquisa, afirma-se que o dever cooperativo de respeito

ao autorregramento da vontade no processo imputa situação jurídica passiva de respeito à

autonomia privada da parte a todo aquele que de qualquer forma participa do processo, e não apenas ao órgão jurisdicional.

Em resumo, a parte tem o direito fundamental ao autorregramento da vontade no processo. Por sua vez, todo aquele que de qualquer forma participa do processo – isto é, o juiz, a outra parte, os procuradores, os intervenientes, os auxiliares da justiça, os peritos etc. – tem o

dever de respeito ao autorregramento da vontade no processo.

Frise-se que o art. 190 do CPC de 2015, dispositivo sem correspondência no CPC de 1973, traz a cláusula geral de negociação sobre o processo. Esse artigo é a mais relevante concretização normativa do princípio do respeito ao autorregramento da vontade no processo, o qual, por sua vez, repise-se, é a dimensão processual do princípio da liberdade.230

Afirma-se, ainda, que, dessa cláusula geral, extrai-se o subprincípio da atipicidade

da negociação processual, que, relacionado ao princípio do respeito ao autorregramento da

vontade no processo, dando a este princípio importante densidade normativa, possibilita às partes a criação de diversas espécies de negócios processuais atípicos.231 É dizer, de negócios

jurídicos processuais não necessariamente previstos na lei.

A seu turno, atualmente, inúmeros são os negócios processuais típicos, isto é, previstos na própria lei de processo. Um exemplo inovador, sem correspondência no CPC de 1973, consta no art. 191 do CPC de 2015, o qual traz a possibilidade de calendarizar o processo. Consoante se depreende do referido dispositivo, o juiz e as partes, de comum acordo, podem fixar calendário para a prática de atos processuais.

Trata-se de um negócio jurídico processual que contribui sensivelmente para que a decisão judicial seja tomada em tempo razoável, máxime pelo fato de que se dispensa a intimação das partes para a prática de ato processual ou a realização de audiência cujas datas tiverem sido designadas no calendário.

Evita-se, com isso, o chamado “tempo morto” do processo. Tempo esse em que o processo fica no cartório judicial, aguardando o cumprimento de diligências. Note-se que pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas para a Secretaria de Reforma do Judiciário do

230 DIDIER JR., Fredie. Art. 190. In: STRECK, Lenio Luiz; NUNES, Dierle; CUNHA, Leonardo (orgs.).

Comentários ao Código de Processo Civil. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 295. 231 Ibidem, p. 295.

Ministério da Justiça apontou que, “descontados os períodos em que os autos são levados ao juiz ou retirados para vista e manifestação, os processos ficam nos cartórios por um período equivalente a até 95% do tempo total de processamento”232-233.

Nesse ínterim, uma vez proposto o “calendário processual” pelo juiz ou por uma das partes, a outra parte não tem o direito de se negar a participar. Pensar de outra forma é autorizar o abuso de direito; o abuso do direito de anuir. A Constituição Federal de 1988 e o Código de Processo Civil de 2015 almejam um processo cooperativo. E, decerto, um processo cooperativo não se faz com partes anticooperativas.

Perceba que caberá à parte fixar conjuntamente com o juiz e a outra parte as datas pré-definidas para a realização dos atos processuais pendentes, podendo eventualmente questionar que em determinado dia e hora, por exemplo, terá outro compromisso previamente agendado.

Isso é razoável e é nesse sentido que a expressão “de comum acordo”, prevista no

caput do art. 191 do CPC de 2015, deve ser interpretada, pois nenhum dos sujeitos do processo pode se negar deliberadamente a participar de um calendário processual. Em um processo jurisdicional cooperativo, não pode.

No CPC de 2015, são exemplos de concretização do dever de respeito ao

autorregramento da vontade no processo os artigos: 63; 65; 190; 191; 357, § 2°; 362, inciso I; 373, §§3° e 4°; 471; 515, § 2°; 775; 998; 999; 1.000; 1.002; 1.013 etc.