2. O TRATAMENTO NORMATIVO DOS DESAPARECIDOS POLÍTICOS
2.3 Dever estatal de localizar, identificar e devolver os restos mortais dos desaparecidos
Além dos comandos constitucionais, existem leis específicas que prescrevem o dever de localizar, identificar e devolver os restos mortais dos desaparecidos políticos.
O art. 4º da Lei 9.140/1995 foi reforçado pelo art. 3º, II e IV, da Lei 12.528, de 18 de novembro de 2011, que criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV). Segundo este dispositivo, dentre os objetivos da CNV, estão o de esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de graves violações de direitos humanos mencionados no caput de seu art. 1º; promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria, ainda que ocorridos no exterior, e encaminhar aos órgãos públicos competentes toda e qualquer informação obtida que possa auxiliar na localização e identificação de corpos e restos mortais de desaparecidos políticos, nos termos do art. 1º da Lei 9.140/1995.
No plano internacional, a Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas foi aprovada pela Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) em seu XXIV período ordinário de sessões, realizado em Belém do Pará, em 9 de junho de 1994. Logo após, em 10 de junho de 1994, a República Federativa do Brasil assinou o documento. O Congresso Nacional a aprovou, por meio do Decreto Legislativo 127, de 11 de abril de 2011, quase vinte anos depois. O próximo passo para finalizar a ratificação é a sanção da Presidente da República e o depósito da convenção na Organização dos Estados Americanos206.
A Convenção Interamericana foi o primeiro instrumento internacional com força normativa obrigatória sobre o tema do desaparecimento forçado de pessoas, tendo por antecedente internacional mais importante a Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado ou Involuntário, da Assembleia Geral das
206 A Convenção Interamericana impõe obrigações estatais, a começar por seu art. I, “a”, que estabelece o compromisso primário de: “não praticar, nem permitir, nem tolerar o desaparecimento forçado de pessoas, nem mesmo em estado de emergência, exceção ou suspensão de garantias individuais”. A segunda obrigação que se destaca é a de tipificar a conduta e reprimir os autores, cúmplices e encobridores do delito de desaparecimento forçado de pessoas, inclusive na forma tentada (arts. I, “b”, III, IV, VII e VIII). A terceira obrigação é a de cooperar com outros Estados-membros a fim de contribuir para a prevenção, punição e erradicação do desaparecimento forçado de pessoas (arts. I, “c”, V, VI e XII). A quarta obrigação, relacionada com as demais, é a de “tomar as medidas de caráter legislativo, administrativo, judicial ou de qualquer outra natureza que sejam necessárias para cumprir os compromissos assumidos nessa Convenção” (art. I, “d”).
Nações Unidas (Resolução nº 47/133 de 1992), que possuía caráter inicial de recomendação.
Somente em 2007, em Paris, foi celebrada a Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas Contra as Desaparições Forçadas, aprovada em 1º de setembro de 2010 pelo Congresso Nacional (Decreto Legislativo 661 de 2010) e ratificada pelo Brasil em 29 de novembro de 2010. Essa Convenção das Nações Unidas reafirma boa parte dos dispositivos da Convenção Interamericana, cronologicamente anterior.
A ratificação da Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas foi uma das determinações da Corte Interamericana de Direitos Humanos no julgamento do caso Gomes Lund (Guerrilha do Araguaia) versus Brasil, assim como a tipificação do delito de desaparecimento forçado de pessoas no ordenamento jurídico brasileiro207. A eventual ratificação da Convenção constituirá um passo fundamental para a universalização e o fortalecimento do sistema interamericano de proteção de direitos humanos e um novo instrumento para impedir a perpetração do desaparecimento forçado de pessoas208.
Em 24 de novembro de 2010, a CIDH, condenou o Brasil por violação ao Pacto de São José da Costa Rica (Convenção Americana sobre Direitos Humanos), no caso Gomes Lund, levado à Corte após denúncia de familiares de mortos e desaparecidos políticos da Guerrilha do Araguaia à Comissão de Direitos Humanos.
No julgamento, ficou consignado que “a privação do acesso à verdade dos fatos sobre o destino de um desaparecido político constitui uma forma de tratamento cruel e desumano para os familiares próximos” e se declarou que o Brasil impinge aos familiares “sofrimento e angústia, além de ter provocado neles um sentimento de insegurança, frustração e impotência diante da abstenção das autoridades públicas de investigar os fatos”209.
207 A tipificação do crime de desaparecimento forçado de pessoas ainda não ocorreu no ordenamento jurídico brasileiro, como exposto no item 2.
208 O texto da convenção já foi ratificado pela Argentina, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela.
209 Íntegra da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no sítio eletrônico da Procuradoria Regional da República da 3ª Região. Disponível em: http://www.prr3.mpf.mp.br/arquivos? func=fileinfo&id=2847. Acesso em 1º de setembro de 2014. Para análise ver WEICHERT, Marlon Alberto. A questão dos desaparecidos políticos no Brasil. Perspectivas com a Comissão Nacional
da Verdade. In: BRASIL. Ministério da Justiça. Comissão de Anistia. Vala clandestina de Perus.
Desaparecidos políticos, um capítulo não encerrado da história brasileira. São Paulo: Ed. do Autor, 2012. Também: KOIKE, Maria Lygia de Almeida e Silva. O direito à verdade e à memória no caso da
Em síntese, o Estado brasileiro foi declarado responsável pelo desaparecimento forçado de vítimas da repressão e por violação dos direitos ao reconhecimento da personalidade jurídica, à vida, à integridade e à liberdade pessoal, estabelecidos nos artigos 3, 4, 5 e 7 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, bem como pela violação à integridade pessoal dos familiares dessas vítimas.
Portanto, há instrumentos normativos suficientes a exigirem do Estado brasileiro a localização, identificação e devolução dos restos mortais dos desaparecidos políticos. Está-se diante de descumprimento injustificado.
2.4 Ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal sobre as ossadas de