3.2 Padrão moral e universalismo
3.2.3 Dever moral
Uma das críticas contidas no Tratado que Hume (2009, p.509) apresenta, penso que ironicamente, como uma “observação que talvez se mostre de alguma importância”, alegando que todos os sistemas morais até então apresentados possuíam um formato semelhante, partindo de raciocínios “estabelecendo a existência de Deus” ou “fazendo observações sobre os assuntos humanos”. Dessas observações e raciocínios os autores deduzem preceitos morais. Além disso, afirma Hume, os autores que realizam essa dedução ilegítima de proposições descritivas para proposições prescritivas não tomam a precaução de esclarecer como é possível conceber essa passagem. A “observação” humeana, possui apenas um parágrafo, que é finalizado com uma advertência, também irônica:
Mas já que os autores não costumam usar essa precaução, tomarei a liberdade de recomendá-las aos leitores; estou persuadido de que essa pequena atenção seria suficiente para subverter todos os sistemas correntes de moralidade, e nos faria ver que a distinção entre vício e virtude não está fundada meramente nas relações dos objetos, nem é percebida pela razão. (HUME, 2009, p.509)
É interessante ressaltar que realmente não há prescrições na teoria moral de Hume. A obra como um todo praticamente descreve as nossas ações e juízos morais na tentativa de buscar um ponto em comum, o que indicaria sua origem. Poderíamos concluir que para Hume, prescrições morais não fazem parte da esfera da moralidade. No entanto, seria estranho conciliar essa conclusão com a passagem da primeira seção da Segunda investigação:
A finalidade de toda especulação moral é ensinar-nos nosso dever, e, pelas adequadas representações da deformidade do vício e beleza da virtude, engendrar os hábitos correspondentes e fazer-nos evitar o primeiro e abraçar a segunda. (HUME, 1995, p. 22-23)
Poderíamos alegar que essa passagem da Segunda Investigação contradiz aquela do Tratado, mostrando uma grande inconsistência em seu pensamento ou, ao menos, uma recusa do argumento utilizado em sua primeira obra. Todavia, é possível afirmar que Hume pretende
erigir uma filosofia cujos dados podem ser averiguados, pois estão amparados pela natureza observável, porém, não tem pretensão de extrair verdades eternas e absolutas, como já mencionado. Portanto, assim como o conceito de universalidade, também o conceito de dever teria que ser revisado. Nesse sentido, seria lícito afirmar que o filósofo escocês não está comprometido com um conceito de dever cuja validade se assemelharia aos mandamentos divinos, mas uma noção mais fraca, calcada em nossas expectativas e inclinações naturais. Para defender essa interpretação, lanço mão do que Norton afirmou sobre a impossibilidade, por Hume mencionada, de passarmos de uma descrição a uma prescrição:
Seu argumento como declarado é de alcance muito limitado. Ele argumenta apenas que é “totalmente inconcebível” que uma proposição contendo o termo modal “dever” pode ser deduzido a partir de outras proposições que não contenham esse termo (T 3.1.1, 469-70). Ele argúi, portanto, que aqueles que supõem ter racionalmente deduzido obrigações de meras premissas factuais cometeram um erro lógico, mas ele não afirma que a obrigação em si é inexplicável ou um conceito ilícito sem sentido. (NORTON, 1993, p.169, tradução nossa) 49
Além disso, Norton afirma que já no Tratado podemos encontrar evidências de que essa interpretação seria a mais próxima de Hume. Para isso, o comentador menciona o exemplo, já citado, do pai que tem o dever de amparar seu filho, mas também tem uma inclinação natural a isso e se não tivesse, não se sentiria obrigado a fazê-lo. Nesse sentido, nossa compreensão usual de dever é a expectativa que temos em relação às ações que usualmente são realizadas a partir dos motivos que consideramos bons. Quando, ao contrário, as ações não se adéquam às nossas expectativas morais, por assim dizer, consideramos que o agente não cumpriu com o seu dever. Nas palavras de Norton,
Porque a natureza humana é uniforme, as ações humanas geralmente seguem certos padrões: Existe um curso natural ou usual de comportamento que corresponde às paixões ou princípios que motivam a natureza humana (T 3.2.1, 483). Consequentemente esperamos que o comportamento se conforme a estes padrões. Quando ele não consegue fazê-lo, nossas expectativas são desapontadas, e nós respondemos com sentimentos de desaprovação ou culpa. Nós dizemos então que o indivíduo que é culpado não agiu corretamente ou falhou com o seu dever. (NORTON, 1993, p. 169 tradução nossa)50
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“His argument as stated is of very limited scope. He argues only that it is "altogether inconceivable" that a proposition containing the modal term "ought" can be deduced from other propositions that contain no such term (T 3.1.1, 469-70). He argues, that is, that those who suppose they have rationally deduced obligations from merely factual premises have committed a logical blunder, but he does not claim that obligation itself is inexplicable or an illicit, meaningless concept.” (NORTON, 1993 p.169 grifo do autor)
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Because human nature is uniform, human action generally follows certain patterns: there is a natural or usual course of behaviour that corresponds to the passions or motivating principles that constitute human nature (T 3.2.1, 483). Consequently, we expect behaviour to conform to these patterns. When it fails to do so, our expectations are disappointed, and we respond with feelings of disapprobation or blame. We then say that the individual who is blamed has failed to act rightly or has failed to do his duty (NORTON, 1993, p. 169)
Acredito que compreender a noção de dever ou obrigação dependente das nossas expectativas e noções gerais está de acordo com os princípios da filosofia humeana. É interessante recordar que a nossa simpatia torna universal a preocupação que sem esforço nenhum dedicamos aos nossos amigos; que sentimos desprazer à primeira imagem de uma ação viciosa, julgando-a condenável; que nos sentimos seriamente feridos quando alguém atenta contra a nossa reputação. Ao lembrarmo-nos dessas e outras constatações da filosofia moral humeana, podemos compreender que os nossos juízos morais estão voltados às expectativas – amparadas pelos afetos - que temos de que certos padrões naturais guiem nossa conduta.
Portanto, é possível defender um conceito fraco de dever na filosofia humeana, semelhante ao conceito de universalidade anteriormente analisado. Todavia, devemos ter em mente que ambos os conceitos sofrem grandes alterações em relação à tradição. Nesse sentido, ao lidarmos com uma noção de dever – e de modo semelhante o conceito de universalidade – devemos ter em mente uma teoria moral pautada em uma estrutura conceitual empirista. Se olharmos sob uma perspectiva racionalista, ambos os conceitos parecem ser desprovidos de valor e incabíveis para uma legítima fundamentação moral. Na próxima seção, portanto, pretendo abordar ligeiramente a crítica kantiana às teorias morais que possuem elementos empíricos em suas bases. Tal crítica nos ajudará a compreender alguns dos limites da filosofia moral humeana, que podem, por vezes, ser negligenciados ao nos deixarmos conduzir em seus argumentos por um longo tempo.