• Nenhum resultado encontrado

Nunca devidamente esclarecida, a data de edificação de um Gabinete de História Natural junto da 'Real Barraca' deverá ser, todavia, averbada não

SOB O SIGNO DE POMBAL: OS MUSEUS DE HISTÓRIA NATURAL E OS JARDINS BOTÂNICOS DA AJUDA E DE COIMBRA

5. Nunca devidamente esclarecida, a data de edificação de um Gabinete de História Natural junto da 'Real Barraca' deverá ser, todavia, averbada não

muito depois da criação do próprio Jardim Botânico. Na verdade, num curioso documento datado de 1802, um comerciante francês requer ao Real Museu a liquidação de dívida contraída havia mais de trinta anos - em Agosto de 1769 - pelo Director, Domingos Vandelli, na compra de duas pedras de mesa próprias para preparações naturalistas de museu: "Pedro Villiot, francês, vendeu ao Doutor Domingos Vandelli, como director do Real Muzeu, duas pedras de Meza, marchetadas em quadrados de diferentes qualidades de pedras e mármores, para servir, ao uso do mesmo real Muzeu pelo preço de 360$000, em Agosto de 1769, para lhe serem pagas em pagamentos de 10$000 réis cada mez" 273.

271 Cfr. Planta do Jardim Botânico da Ajuda (séc. XVIII), AHMOP, D 5C. Manuel de

Azevedo Coutinho, ob. cit., considera que esta Planta reproduz, de facto, um projecto e não o levantamento de existências, na medida em que nela se representam construções que nunca chegaram a fazer-se no Jardim, nomeadamente os "tanques com cascatas".

272 Sobre os projectos actuais de recuperação e valorização destes espaços, vide: Ana

Luísa Brito dos Santos de Sousa Soares, e Teresa Maria Pires Fevereiro Chambel,

Jardim Botânico da Ajuda. História/Inventariação/Proposta de Recuperação do Material Vegetal, 1995, vol. 1.

273 Requerimento de Pedro Villiot pedindo a liquidação de verba em dívida (1802) AHMB,

Pese embora as limitações espaciais já apontadas, estamos em crer que estes estabelecimentos cedo se viram imbuídos de uma forte componente experimental intimamente ligada à estratégia ultramarina da Coroa. A vocação recreativa e instrutiva que vimos atribuída, nestes tempos iniciais, ao Jardim Botânico não é dominante, tanto quanto os documentos o permitem afirmar, nas funções e actividades do Laboratório e do Museu. De facto, aqui o grande desígnio estruturante parece ser, segundo a narrativa vandelliana, o da publicação de uma História Natural das Colónias 274, objectivo que ganhará

compreensível consistência quando, depois de 1777, os primeiros naturalistas formados em Coimbra chegarem à Ajuda para aí receberem treino profissional para as missões filosóficas ultramarinas 275.

Assim se compreende que o Laboratório Químico seja prontamente associado à função utilitária de estudo e exploração dos recursos do Império, já que a destilação do Anil brasileiro permitia um retorno financeiro apreciável: "Por causa das analyses, e experiencias que me forão incumbidas sobre algumas produções naturaes das Colonias o Snr Rei D. Jozé mandou que se fizesse hum Laboratorio Chymico, que se construiu segundo o fim ao qual estava destinado. Nesse se fez depois a Fabrica da purificação do Anil. Porque sendome determinado examinar a pouca, e ma qualidade, e quantidade de Anil, que vinha do Brazil (....) remetti varias relações, e advertencias instrutivas para as Fabricas do Anil no Brazil ainda este genero não vinha perfeito, e capaz de servir nas Tinturarias, se fiz no mesmo laboratorio huma fabrica de purificação de muitos quintaes de Anil, que as duas Companhia do Pará, e Pernambuco compravão por conta da Real Fazenda; o qual depoes de bem purificado se vendia aos Tintureiros e Commerciantes" 276.

É também deste universo que emerge o coleccionismo naturalista na Ajuda, em conexão física e funcional com o Laboratório e o seu múnus ultramarino mas

274 "Jardim, e seus annexos estabelecimentos, porque se conservem, e augmentem,

concluindo-se a Historia Natural das Colonias pelo qual principal fim o Snr. Rei D. José deo principio a esta grandiosa Obra" (Domingos Vandelli, Relação da origem, e estado

prezente...).

275 Vide infra Cap. V.

museologicamente devedor, antes do mais, às actividades colectoras de Vandelli (primeiro em Pádua, 1757-1763 e, depois, em Lisboa, 1764-1772) e a alguns objectos e armários de uma colecção privada doada, em 1774, à Universidade - "Na Caza poes destinada no Laboratorio p.a conservar-se as amostras das produçoes Naturaes das Colonias, e os resultados das suas Analyses, e experiencias dei principio ao Museo com algumas produçoens naturaes daquelle, q. eu tinha formado neste Real Jardim, e que dei de prezente a Universidade de Coimbra, com outras daquelle, q. possuía em Padova, e que veio p.a a mesma Universidade, e com algumas, e os armarios do Museo do Cap.m Vandeck " 277 .

Mas esta proximidade física se, por um lado, conferiu ao Museu de História Natural o carácter inovador de instrumento científico ao serviço de uma estratégia de desenvolvimento económico, por outro lado, condicionou dramaticamente as opções metodológicas e epistemológicas presentes no novo discurso museológico, de índole iluminista, protagonizado por Domingos Vandelli

278 e linearmente exposto no Prefácio ao seu Diccionario dos termos

technicos de Historia Natural: "Neste século he a Historia Natural mais cultivada, que nos passados, o que demonstrão as grandes, e interessantes descubertas, e o avultado numero de Museos. No seculo passado, e no principio do presente havião muitos Museos de Medalhas, dos quaes agora há poucos, e preferem-se os da Historia Natural. (....) A impossibilidade de se poderem ver todas as producçoens da Natureza espalhadas em paízes taõ remotos, supre o Museo, no qual como em hum Amphitheatro apparece em huma vista de olhos, o que o nosso Globo contém" 279.

277 Domingos Vandelli, Relação da origem, e estado prezente do Real Jardim Botanico, Laboratorio Chymico, Museo de Historia Natural, e Caza do Risco [1795], ANTT,

Ministério do Reino, Maço 444.

278 Vide desenvolvimento desta ideia infra Cap. VI.

279 Diccionario dos termos technicos de Historia Natural e a Memoria sobre a utilidade dos jardins botanicos, Coimbra, Na Real Officina da Universidade, 1788, pp. I-II. Esta

passagem, tal como as três primeiras páginas do Prefácio a esta obra, foram retiradas integralmente por Vandelli de um outro texto que tem permanecido inédito, datado muito provavelmente de 1785, Memoria sobre a utilidade dos Muzeos d'Historia Natural (s/d), BACL (Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa), ms. 143/2, Série Vermelha (Vid.

6. A correspondência naturalista (ultramarina e europeia) com a

Outline

Documentos relacionados