6. OS SISTEMAS ACUSATÓRIO, INQUISITIVO E MISTO
7.1. Devido Processo legal.
O princípio do due process of law tem sua origem na Magna Carta de 1215.44 Trata-se de uma limitação ao Estado em prol do cidadão, impondo àquele o respeito aos direitos e garantias individuais no exercício de suas atividades persecutória e punitiva.
A doutrina enfoca o devido processo legal sob os aspectos material 45 e procedimental 46. O aspecto material (ou substancial) diz respeito ao conteúdo da norma abstrata e sua produção legislativa (devido processo legislativo), enquanto o aspecto procedimental trata da execução e aplicação das leis pelo Poder Público no caso concreto.
44 O artigo 39, da Magna Carta do Rei João Sem Terra continha a expressão legem terrae que acabou traduzida para a lingua inglesa como law of the land, dando origem ao princípio do due process of law (para nós o “devido processo legal”).
45 Tema abordado pelo Desembargador Celso Limongi, em voto vencido proferido no julgamento da Revisão Criminal nº 260.338.3/0, do 3º Grupo de Câmaras Criminais, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, 1º.06.2000, “para definitivamente buscar contornar os rigores da presunção de violência e da
cominação mínima da pena, deixando de dar cumprimento á lei”, absolvendo o peticionário do crime de estupro por entender não caracterizada a violência presumida in casu.
46 “Não é demais repetir-se, até que cale definitivamente em nosso meio jurídico, que o processo penal, mais do que a intrumentalidade (a que também serve), tem natureza constitucional; é uma garantia do indivíduo, uma defesa do cidadão contra, precisametne, o arbítrio. Contra os riscos de uma apuração informal, desordenada, imprecisa, genérica, casuística; por conseguinte, ao sabor de inclinações personalíssimas que fariam pender episódica, ocasionalmente para o maior ou menor rigor; na imponderabilidade; portanto, no franco antidireito” (TACRIM/SP – AP – Rel. Ary Belfort – JUTACRIM-SP 69/300).
O Devido Processo Legal irradia seus efeitos na esfera processual penal dando origem a todos os princípios do Processo Penal, inclusive o chamado devido Processo Penal. O devido processo legal impõe o respeito a todos os princípios a ele interligados, constituindo-se em uma malha garantista que se vê maculada como um todo mesmo que seja descumprida apenas em uma parte, mesmo que descumprido apenas um dos princípios constituintes. 47
A Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) garante a todos os acusados o direito de que sua responsabilidade seja apurada de acordo com a lei, em julgamento público onde sejam asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. 48
A Convenção Americana sobre os Direitos Humanos – Pacto de San José da Costa Rica –, aprovada pelo Decreto Legislativo nº 27, de 25 de
47 “Para que se possa, assim, sancionar alguém, no devido processo penal, é preciso que ele possa se defender da conduta que lhe é imputada. Sem conduta empiricamente imputável, verificável e refutável, inexiste o contraditório. Sem contraditório, ausente devido processo legal, ilegítima e inconstitucional a decisão. Aceitas as inconstitucionalidades apontadas, o processo é mero simulacro do arbítrio!” (5ª TRJE-SC – HC 12/02 – Rel. Alexandre Morais da Rosa – j. 23.09.1992 – Bol. IBCCRIM 125/696). 48 “Artigo 8 - Todo o homem tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei. Artigo 9 – Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado. Artigo 10 - Todo o homem tem direito, em plena igualdade, a uma justa e pública audiência por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele. Artigo 11 - I) Todo o homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias a sua defesa. II) Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Também não será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso”.
setembro de 1992, e promulgada pelo Decreto nº 678, de 06 de dezembro de 1992, também estabelece uma série de garantias processuais 49.
Em decorrência desse princípio o acusado tem direito à realização do seu interrogatório perante a autoridade judicial competente, quando poderá apresentar livremente a sua versão dos fatos. O ato deve ser público, garantindo o controle da sociedade na atividade judicial. Ao réu deve ser garantida ampla e efetiva defesa – autodefesa e defesa técnica –, conhecimento prévio das acusações e provas feitas contra si, bem como ter a oportunidade da produção de provas por todos os meios lícitos e respeitada a igualdade de partes.
Previsto no inciso LIV, do artigo 5º, da Constituição Federal, o princípio do devido processo legal assegura que a culpabilidade do acusado deverá ser apurada na forma da lei – “direito a defesa técnica, à publicidade do
processo, à citação, de produção ampla de provas, de ser processado e julgado pelo juiz competente aos recursos, à decisão imutável, à revisão criminal” 50 –, tendo como corolários diretos a ampla defesa e o contraditório. 51
49 “Artigo 8º - Garantias judiciais - 1. Toda pessoa terá o direito de ser ouvida, com as devidas garantias e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou Tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra ela, ou na determinação de seus direitos e obrigações de caráter civil, trabalhista, fiscal ou de qualquer outra natureza”.
50 Alexandre de MORAES. Direito Constitucional 6ª ed. rev. ampl. e atual. com a ec nº 22/99. São Paulo: Atlas, 1999, p. 112.
51 “O processo penal tem por primado o princípio do devido processo legal, cujos fundamentos repousam no contraditório e na ampla defesa” (STJ – 6ª T. – RHC 7.568 – Rel. Vicente Leal – j. 09.06.1998 – DJU 29.06.1998, p. 323 e STJ – RHC 7418).
O princípio do devido processo legal banha o interrogatório judicial com todas as garantias do Processo Penal, tornando-o ato público e obrigatório sempre que possível, de universo amplo para a defesa do acusado, a ele sendo permitidos e garantidos todos os meios legais para apresentar sua narrativa e justificação dos fatos. 52