Parte integrante do trabalho antropológico, o processo de “devolver a pesquisa às pessoas” foi, no caso do eu projecto, duas faces da mesma moeda. O filme que produzi não foi visto apenas no fim, como um produto final do meu trabalho de mestrado, mas antes, quase desde início, como work in progress, em diferentes fases e para públicos diferentes. O objectivo deste processo de trabalho foi extrair opiniões dos vários intervenientes no projecto e, claro, testar as reacções e conclusões de quem vê o filme sem estar dentro do processo de pesquisa. É fácil para quem está imerso num projecto perder o sentido de lógica externa ao objecto, perder a noção do que faz sentido para quem não esteve lá e apenas vê através daquilo que filmamos e optamos por deixar na montagem (e como o fizemos).
Considero que as mostras de que falo a seguir foram parte, não só integrante, mas essencial e determinante no processo de montagem. Para além das mostras de que falo nas páginas seguintes, quero, dentro do possível, expôr o meu trabalho ao máximo, a diferentes públicos com diferentes expectativas, para ouvir opiniões, recolher ideias e reacções para construir, no futuro, outros trabalhos etnográficos com base em imagens filmadas.
Deste modo, a análise do processo de montagem adquire um novo significado quando vista através de uma sequência de works in progress, mostrados a diferentes públicos e tendo em vista a construção de uma filme em que a visão do antropólogo é fortemente influenciada pelas reacções ao material que vai sendo mostrado. Este processo, ao invés de ser um longa e solitária tarefa, torna-se em parte uma visão de conjunto, e o empenho que dediquei a ouvir o feedback das várias versões que mostrei a outras pessoas não fica atrás do empenho dedicado à minha própria visão.
Ao devolver a pesquisa às pessoas, a ideia passa também por dar continuidade ao trabalho etnográfico, invertendo o fluxo de informação. Para o investigador, perceber as reacções ao seu trabalho, principalmente das pessoas que fazem parte dele, é de valor incalculável como plataforma para desenvolver um pesquisa mais profunda.
Para este projecto, tentei ir partilhando o meu trabalho o máximo possível, quer com colegas na área da antropologia e documentário, quer com um público mais variada com o objectivo de ter outras visões que não a minha a ter em conta.
IV. 1. MOSTRA NO FACA - CINEMATECA
A primeira edição do FACA - Festival de Antropologia, Cinema e Arte decorreu em Março de 2014 com a projecção de, essencialmente, filmes resultantes de trabalhos universitários em moldes semelhantes ao meu.
Por esta altura tinha já uma montagem rudimentar, uma ideia central de como queria construir a narrativa do filme. Procurei fazer uma filme sobretudo observacional, com planos longos e poucos cortes. Na altura desta primeira montagem considerei ser a melhor abordagem para o material que tinha.
O meu trabalho estava marcado para projecção numa sessão de “Mesa de Montagem”, uma mostra de work in progress , juntamente com o filme da minha colega de mestrado, Ana Rita Matias, também a trabalhar na Mouraria. Esta sessão foi um ponto de viragem para a montagem do material. Percebi que o que funcionava para mim, que estava dentro do contexto do material, não funcionava tão bem para quem está de fora e que os planos longos e observacionais de que eu tanto gostava não transmitiam o mesmo para quem não esteve lá antes e depois. Foi muito importante a conversa que se seguiu à projecção porque pude captar reacções diferentes de quem viu o material pela primeira vez nos moldes em que eu o estava a montar.
Claro que não podemos construir o nosso trabalho de investigação com base na opinião alheia, mas quando fazemos um filme a ideia é transmitirmos aquilo que nos tocou a nós. Se não estamos a ser bem sucedidos nesse objectivo, é altura de revermos as premissas sob as quais trabalhos e qual será então o melhor molde para a divulgação da investigação. Depois desta projecção revi todo o material que tinha e comecei com um novo plano de montagem.
Considero por isso, que esta primeira mostra do meu trabalho em curso foi extremamente valiosa como processo de aprendizagem. Consegui um retorno que seria impossível de obter de outra forma, por parte de uma audiência variada mas, na sua maioria, com conhecimentos na área do filme antropológico. Depois desta mostra, decidi rever o material todo que tinha, imagens em conjunto com o diário de campo, e reconstruir a minha narrativa com base numa abordagem mais estruturada e, de certa forma, com linhas temáticas mais óbvias.
IV. 2. MOSTRA NO PÁTIO AMBULANTE
Em Julho de 2014 fui contactada pelo projecto Pátio Ambulante - Colectivo Frame para mostrar o filme. 36
A ideia era fazer uma projecção, ao ar livre, no pátio Fradique Mendes. Outros filmes foram projectados, dentro do tema da vida urbana actual. Concordei imediatamente; pareceu-me ideal para o processo de montagem mostrar a pessoas fora do meu projecto aquilo que já estava feito e tentar perceber as reacções não só ao tema mas principalmente à minha abordagem em concreto.
Para esta mostra revi o material que já tinha mostrado na Cinemateca e o que tinha entretanto filmado. Depois na mostra do FACA já tinha decidido reestruturar o filme, mudando a perspectiva mais observacional para uma estrutra em três actos com base nas entrevistas. O filme final teria então 3 linhas:
1) O jornal da Associação, o “Rosa Maria”, como ponto de ligação entre os moradores e a associação e como reflexo daquilo que esta entende serem os temas relevantes para os moradores. A entrevista principal, que aparece no filme, foi feita com a editora actual do jornal. As outras imagens são da distribuição do jornal pelo bairro, na sua maioria no dia em que uma equipa de televisão francesa esteve a acompanhar todo o processo.
2) A organização do arraial de Santo António, com uma pequena conversa com a Filipa Bolotinha, da direcção, que foca a importância que os santos populares têm na Mouraria e como a associação tenta encontrar um equilíbrio entre aquilo que é o “típico” arraial popular e o ao mesmo tempo apelar a outros públicos, mais jovens, imigrantes e turistas.
3) Uma visão geral do trabalho da Associação, pela Inês Andrade, onde se fala da dificuldade em ganhar a confiança dos moradores, habituados a viver num bairro
http://patioambulante.pt/pt/ 8/2014
pobre, em mau estado de conservação e a passar por processos de gentrificação e fortes fluxos de chegada de imigrantes.
Para esta mostra, optei por recomeçar a montagem de fresco, com uma nova visão do material. Nesta altura, revi todos os clips de filmei e fiz uma nova selecção. Optei por uma montagem mais activa, menos observacional, à procura do equilíbrio difícil entre informar e simplesmente mostrar. Não queria, para este projecto, entrar por um caminho em que o meu filme apontava para uma situação e dizia, sem dúvida, isto é assim; antes, tentei mostrar o que captei com a câmera de modo mais aberto, para abrir a possibilidade de outras pessoas tirarem as suas impressões, fora do meu próprio espectro de conhecimento das histórias que passaram por mim.
A projecção dos filmes foi feita ao ar livre, à noite. Assistiram moradores da zona perto do pátio Fradique Mendes e jovens, muitos ligados ao projecto do Pátio Ambulante e a outros semelhantes. Percebi de imediato que esta montagem narrativa fazia muito mais sentido do que a anterior e a partir desta projecção retomei a montagem do filme.
IV. 2. MOSTRA NA MOURADIA
Logo desde o início do meu trabalho, ficou acordado que no fim seria feita uma projecção do filme final na sede da Associação, para quem quisesse assistir. Esta ideia mantêm-se e, à data em que escrevo as linhas finais neste texto, estou também a finalizar o filme. Nos últimos 3 meses o meu contacto com a Associação tem sido escasso, pois tenho concentrado todo o meu tempo na finalização do projecto. No entanto, o plano original mantêm-se e, em princípio, será feita uma projecção ao ar livre neste Verão.
O facto desta mostra vir a ser realizada depois do fim “oficial” do projecto de mestrado tem a clara desvantagem de impossibilitar qualquer alteração incorporando o feedback dos membros da associação. No entanto, irá sem dúvida ter impacto em qualquer projecto futuro que eu desenvolva nesta área.
CONCLUSÃO
Mesmo antes de iniciar este mestrado que sabia que o meu percurso iria incluir um trabalho de projecto com o uso da câmera. Parti então para este patamar académico com essa certeza, embora sem uma visão muito clara do que queria observar. A minha única outra certeza é que estaria dentro do âmbito da antropologia urbana, que, juntamente com o documentário, têm sido as minhas áreas de eleição para estudo e investigação. Ao longo do ano inicial, entre seminários e leituras, foi-se moldando a ideia estudar associações de bairro, bairros em processos de gentrificação, com fluxos de imigração, e tudo isto gerou o resultado final: a Associação Renovar a Mouraria.
Trabalhei neste projecto cerca de um ano e meio e sempre a descobrir coisas novas. O percurso que fiz dificilmente se pode classificar com um início, meio e fim, quando muitas vezes, já depois de ter encerrado determinado tema, vejo-me “obrigada” a rever todo o material recolhido de modo a encaixar uma nova ideia, uma outra perspectiva ou uma imagem que não podia deixar de fora. Quando elaborei a minha pergunta de partida, fi-lo consciente de que, neste pequeno projecto poderia apenas raspar a superfície do tema e, possivelmente, abrir caminho para futuras investigações.
A pergunta que me propus a começar a responder, “como é que o trabalho de uma associação reflecte as mudanças sociais em curso”, neste caso concreto, no bairro da Mouraria, assume à priori, que de facto, essas mudanças sociais são refletidas pelo trabalho da associação. Admito que nem outra coisa me passou pela cabeça quando iniciei o projecto, e felizmente, posso dizer que sim, que com possíveis falhas e faltas, esta premissa é verdadeira. No entanto, em conclusão a este relatório quero abordar alguns pontos.
A importância de projectos como o da Associação Renovar a Mouraria sente- se sobretudo em duas áreas, a dinamização cultural e o apoio cívico. No caso concreto desta associação, ambas as vertentes de actuação refletem fortemente o que
é, actualmente, a realidade da Mouraria. A dinamização cultural revela dois pólos principais: a Mouraria “tradicional” com actividades ligadas ao fado, arraias populares e pratos típicos, e a Mouraria que tem sido destino de imigrantes de vários pontos do mundo, com festas e jantares temáticos, música e convívios inspirados nessas comunidades. Estas actividades revelam um reconhecimentos das mudanças em curso no bairro e uma vontade inequívoca de criar um ambiente multi-cultural, capaz de acolher quem chega e dar a conhecer a quem cá está.
A vertente de apoio cívico demonstra igualmente a adaptação dos projectos da Associação à realidade actual da Mouraria. Nesta área de trabalho são tratados assuntos dos moradores que, na maioria dos casos, não teriam acesso a outro tipo de apoio. São ajudados os residentes idosos ou com baixo nível de escolaridade em situações de rendas, preenchimento de IRS, e igualmente este apoio é essencial para imigrantes, recém-chegados ou já a habitar a Mouraria há algum tempo, a navegar pela primeira vez no sistema burocrático português. É, portanto, exactamente o tipo de trabalho que denota um verdadeiro conhecimento das necessidades da comunidade, ainda que não seja um garante de enraizamento total, como é demonstrado pela falta de uma maior participação na associação por parte dos moradores mais antigos.
E este é o segundo ponto que quero concluir aqui. O que mais salta à vista no trabalho da Associação Renovar a Mouraria é a falta de participação activa dos moradores. As festas (que não incluam fado) são frequentadas principalmente por pessoas de fora; os moradores têm essencialmente uma participação passiva, que se desenvolve sobretudo de acordo com as suas necessidades imediatas, como ter um sítio para deixar os filhos a receber apoio escolar ou usufruir do apoio cívico. No entanto, há pouca participação activa por parte dos moradores. Creio, depois de ter observado o trabalho da associação durante este ano, que isto acontece devido a uma combinação de factores, que, de certa forma, já mencionei. Trata-se de uma conjugação de desconfiança generalizada entre a população relativa a projectos “novos” na Mouraria, aos poderes políticos que são associados, e à desmoralização geral entre os moradores.
Para futuras investigações que recaiam sobre este tipo de projectos associativos em contexto urbano, considero portanto de notar ser essencial ir preparado para lidar exactamente com este tipo reacção por parte das pessoas com quem queremos falar e de quem queremos ouvir, e, sobretudo, procurar entender o que as motiva tanto a querer partilhar connosco as suas histórias como a recusarem- se a fazê-lo.
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Plano de filmagem
O plano de filmagem deixa claro a intenção do filme de mostrar os contrastes presentes nas actividades da Associação. O objectivo passa por registar diferentes actividades e incentivar uma interpretação das relações entre moradores antigos/moradores recentes/associação, tendo em vista os processos de gentrificação e apropriação de cultura “típica” como mecanismo de pertença.
É relevante notar quem são as pessoas que frequentam as actividades e eventos promovidos pela associação em foco e qual a diferenciação de públicos. Através da câmera, pretende-se obter uma sequência de imagens-ideias que possibilitem um espectro de interpretações possíveis das mudanças em curso na Mouraria. O enfoque estará nos processos recentes que têm vindo a alterar a textura do bairro e as relações com o exterior, tanto a nível turístico como, e principalmente, no que concerne aos que “vêm de fora” querendo tomar parte dos rumos da Mouraria.
I
Cena Função Data
possível
Planos gerais da casa comunitária da Mouraria - Sede da Associação
Localizar o espaço Julho
Planos pormenorizados de símbolos re-apropriados “tradicionais” da Mouraria
Localizar o espaço Agosto
Entrevista a presidente da Associação
Abordar temas: gentrificação; apropriação do “típico”; necessidades actuais da Mouraria
Janeiro
Visitas Cantadas Turistas e moradores: como encaram as visitas e o fado
Julho
Noite VHS Materiais exibidos e público alvo. Março
Mercado de Sábado Quem visita? Que tipo de produtos são vendidos?
Abril
Entrevista a moradores Opiniões acerca do trabalho desenvolvido pela Associação.
Dez/Jan/Fev
Distribuição do jornal “Rosa Maria”
Interacção entre elementos da Associação e moradores