3. A geografia escolar no fortalecimento da resistência e esperança dos homens lentos na cidade contemporânea.
3.4. Devorando o mapa luminoso.
Um mapa do mundo que não inclua Utopia não merece nem mesmo uma espiada (Oscar Wilde).
“Devorando o mapa luminoso” refere-se a um exercício geográfico intencionalmente preparado para potencializar o ensino da geografia no desvendamento do lugar de existência dos quatro alunos envolvidos nesta pesquisa. Portanto, com o objetivo de contribuir no fortalecimento da resistência e da esperança dos homens lentos na cidade contemporânea, foi escolhido como ponto de partida a leitura do mapa turístico oficial de Sorocaba (Anexo 1) elaborado pelo poder local em 2004 e estrategicamente usurpado de um grande hotel da cidade por minha orientadora e intencionalmente indicado a mim como leitura obrigatória.
Trata-se de um mapa turístico luminoso, extremamente seletivo, já que nele é possível ver representada a localização dos principais pontos de utilidade turística, principalmente para os empresários que visitam a cidade de Sorocaba: Shopping Center, lugares para alimentação, principais hotéis, aeroporto, parque industrial, principais vias de circulação, como também áreas de lazer revestidas na natureza capitalizada destinada ao ecoturismo. No seu verso, a quantidade de símbolos de propagandas também é intensa. Nesse sentido, partindo do princípio de que todo mapa é uma distorção da realidade e não a própria realidade, posso afirmar que o mapa turístico de Sorocaba, enquanto representação da dimensão espacial da sociedade, criada para instituir a orientação, não é neutro, mas carregado de ideologia. Pelo exposto e pelos mecanismos de distorção da realidade presentes nos mapas como a escala, projeção e a simbolização, posso dizer com Bourdieu que:
Não bastar notar que as relações de comunicação são, de modo inseparável, sempre, relações de poder que dependem, na forma e conteúdo, do poder
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material ou simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidos nessas relações e que (...) podem permitir acumular poder simbólico. É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os „sistemas simbólicos‟ cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço da sua própria força às relações de força que as fundamentam e contribuindo assim, segundo a expressão de Webewr, para a domestificação dos dominados.
Dessa forma, o mapa escolhido para realizar o exercício geográfico com os alunos contribui, sob a tutela do poder local, para reproduzir no plano do simbólico uma visão política que legitima a desigualdade no uso do solo urbano. Assim, o mapa turístico de Sorocaba, elaborado pelo poder local, exaltando os lugares luminosos da cidade para os turistas que aqui chegam, esconde o lugar de existência dos trabalhadores pobres. O bairro Habiteto não existe no mapa. Entretanto, na capa do mapa-folder, aparece a seguinte mensagem: “para sentir-se em casa, siga o mapa”.
O exercício geográfico “devorando o mapa luminoso” aconteceu na pastoral do menor. Após explicar para o grupo quem eu era e o que eu estava pretendendo com eles, todos aceitaram participar do exercício. O mapa turístico de Sorocaba foi colocado ao chão e foi pedido que os alunos fizessem uma leitura sobre o mesmo. A primeira reação dos alunos ao verem o mapa foi debruçar-se sobre o mesmo e procurarem o bairro Habiteto. No dizer da poetisa Adélia Prado, “o mapa é certeza de que o lugar existe”. Como ponto de referência para encontrar o lugar de existência, escolheram a Avenida Itavuvu, principal espaço circulação de mercadorias e pessoas da zona norte de Sorocaba, caminho que eles usam para chegar ao bairro Habiteto. Logo, surgiram as primeiras falas: “cortaram a metade da Avenida Itavuvu, o Habiteto não está no mapa”. Outro diz: Se não tem no mapa não existe. Nós não existimos para quem fez o mapa”. Diante dessa constatação, os alunos me perguntaram quem havia elaborado o mapa e o porquê de o bairro deles não estar no mesmo. Sem dar respostas fechadas, direcionei a leitura para todos os elementos representados no mapa. Instiguei, perguntando: “Qual era o título do mapa? O que ele significava? Quais elementos estão representados? Qual o significado das cores e das propagandas? Por fim, o que o mapa revela? O que ele esconde? Vocês se reconhecem na
83 cidade ai representada?” Entretanto, as observações dos alunos, dos quais faço um elenco, surgiram voluptuosas durante o virar e revirar do mapa:
“Se não está no mapa, por que mandam policiais aqui?”.
“Será que o nome do Habiteto não está como Jardim das Dores ou Jardim da Miséria no mapa?”
“Se é para eu seguir o mapa, como vou chegar em casa?”
“Eu conheço o shopping porque vendi bala lá perto no semáforo”
“Somos invisíveis no mapa. Só mostra uma parte da Zona Norte. O mapa mostra que as pessoas valem pelo que têm. Será que eles têm medo que os turistas veem a gente?”
“O shopping não é lugar para nós. É só ficar um minuto e os seguranças te perseguem.” “Os carinhas com roupa de boy, os segurança nem chegam. Eles são daquele lugar” “Buscamos respeito com nosso lugar. E vamos lutar por isso. Não é o Habiteto só que sofre com discriminação, mas é o mais atingido na cidade de Sorocaba. Não só pela sua estrutura, mas pela imagem negativa que se constrói.”
“No Campolim, também tinha muitos jovens bebendo e consumindo drogas. Mas o bairro é visto como bonito, chique pelo resto da cidade, isso não é justo.”
“O mapa é para turista. Agora, veja onde está o Habiteto. Você não vai encontrar o bar do Severino nesse mapa.”
“O comércio que temos na comunidade é porque as próprias pessoas da comunidade arrumaram.”
84 “O prefeito pegou todos os favelados da cidade que estavam separados e juntou num lugar só para controlar. Somos restos.”
“Não estar no mapa é a certeza que estamos no fundão da cidade. Mas considero o Habiteto como meu lugar porque estou dentro. Junto com a comunidade, vamos conseguir mostrar o que é o Habiteto.”
“Imagine a gente fazer no mapa de Sorocaba e fazer o mapa do Habiteto e colar em cima, tirar uma cópia e fazer circular isso na cidade. Se esse mapa fosse meu, eu rasgava.”
“Nunca fui nestes lugares que estão no mapa (apontam Mc Donald’s, Carrefur, Colégio Objetivo). Se passar na frente, é muito. Só de passar, as pessoas ficam olhando.”
Muitas outras falas foram se fazendo ouvir. Mas as elencadas acima permitiram definir o Habiteto como um espaço relacional, ou seja, aquele que permite estabelecer outras relações espaciais, não mais como espaço absoluto. Após entender o significado da distribuição territorial dos fenômenos representados no mapa, com especificidade à não representação do bairro, os alunos tiveram possibilidade de entender a sociedade, suas histórias, as contradições existentes, para sonhar utopias demarcadas a partir do chão do lugar de existência no espaço da cidade contemporânea. Perceberam também que a globalização produz historicamente espaços desiguais, com uma divisão territorial do trabalho perversa, marcando os espaços do mandar e os espaços do fazer, como duas faces de uma mesma realidade, ou seja, a expansão do capitalismo pelo globo e sua busca desenfreada pela mais valia universal. A partir da categoria lugar, desenvolveram uma visão totalizadora do espaço geográfico e iluminaram-se no sentido de saber que o mapa turístico de Sorocaba não é Sorocaba, como o mapa do Brasil não é o Brasil. Como expressa um aluno: “O mapa é para turista. Agora, veja onde está o Habiteto. Você não vai encontrar o bar do Severino nesse mapa.” Portanto, entender o lugar ultrapassou a visão de localização geométrica dos mapas. Nesse caminho, entender onde se está exigiu que os alunos ultrapassassem a localização meramente geométrica para se inserirem como
85 membros de uma classe social, de grupo que compartilha, por meio do bairro, as precárias condições de existir, como também suas lutas políticas travadas no espaço da cidade.
Assim, descortinar o lugar implicou na habilidade de traduzir a realidade observada e suas contradições. No dizer de Soares (2001, p. 109), é preciso “subir escadas de costas” para “desvendar o primeiro véu da aparência”. E é no ir e vir constante entre aparência- essência que o espaço (re) produzido pela sociedade será desvelado. Por fim, para subir escadas de costas, Soares (2001, p.101) com suas maneiras criadoras para o conhecer geográfico, propõe como enfrentamento no cotidiano escolar a seguinte bula:
“Indicação: em todos os estados em que há deficiência ou aumento das
necessidades de pensar dialeticamente o espaço produzido pela sociedade.
Orientação: a escada deve ser usada por pessoas de qualquer idade, sem
restrições. Não desaparecendo os sintomas, procure orientação.
Reações Adversas (Adversas?): o uso prolongado da escada durante o
tratamento faz entender que a realidade é uma totalidade que envolve sociedade e natureza. Deve ser mencionado que se observou desigualdades e contradições sociais durante o processo de tratamento.
Contra indicação: ainda não foram relatadas contra-indicações para o uso em
quantidades correspondentes às necessidades diárias.
Posologia: administrar ao menos um degrau por dia, preferencialmente pela
manhã. Não interromper o tratamento. Ao final, todos os degraus devem ter sido ingeridos para chegar-se ao concreto pensado.
Forma e Apresentação: o texto “ Mas sobre Escaleras”, de Julio Cortazar é para
ser lido enquanto se sobe escadas de costas, com as adaptações necessárias à realidade a ser observada, analisada, interpretada e pensada criticamente.
Conduta na superdosagem: não foi descrita superdosagem com este
medicamento. Devido à elevada margem de segurança terapêutica, nenhuma preocupação é necessária.
86 CONSIDERAÇÕES FINAIS.
As atuais formas geográficas, resultados do conjunto das espacialidades físicas, biológicas e sociais, expressas nas diversas paisagens dos lugares, são valores de uso e valores de troca, são mercadorias, têm valor para perder e ao mesmo tempo transformarem valores (MARX, 1987). Nesse sentido, quanto maior a quantidade de trabalho material ou imaterial, maior será o valor das formas geográficas, maior será o valor dos lugares. Isso indica que alguns lugares, pela importância real ou potencial de suas formas espaciais e pelo alcance de sua atuação, apresentam valor maior do que outros em função da atividade ou conjunto de atividades aí existentes.
Nesse caminho, o universo de minha pesquisa - o Bairro Habiteto, que não existe no mapa turístico de Sorocaba, conforme fala dos alunos, não tem representação. Apanhando Adélia Prado, poetisa, ao dizer que o mapa é a certeza que o lugar existe, posso afirmar com os alunos-leitores que eles e os demais habitantes do bairro Habiteto não existem para o poder local, escamoteando consciências de homens comuns na vida cotidiana. Entretanto, a vida cotidiana é o ponto de partida e de chegada, porque é dela que provém a necessidade de o homem objetivar-se e ir além dos seus limites habituais. Da mesma forma, é para a vida cotidiana que retornaram os produtos de suas objetivações, como afirma a moradora Cleuza: “nóis enverga mais não deita”. Ou, como expressa o aluno, ao entender o que o mapa esconde: “estamos no fundão da cidade.”
A geografia escolar, enquanto ensino no mundo contemporâneo, absolutamente capitalista, tem na cartografia um dos seus pilares. Faz-se necessário, portanto, ver os mapas como imagens carregadas de juízo de valor, com um modo de imaginar, articular e estruturar o mundo dos homens. Traduzir as imagens cartográficas para os alunos como representações carregadas de mensagens políticas, seja nos signos convencionais ou no claro simbolismo das decorações, é aprofundar-se sobre o próprio contexto histórico- geográfico vivido - o Habiteto – e, assim, compreender como o poder local opera e os afeitos desse poder na sociedade a partir da dimensão espacial da cidade.
87 Nenhum mapa é inocente. Nenhuma geografia é inocente. Nenhum professor de Geografia é inocente. Nenhum aluno é inocente. Eu não sou inocente. Por essa razão, coloquei sob suspeita junto aos alunos o mapa turístico, a política do poder local para retirada de moradores em áreas de risco e áreas verdes de Sorocaba ao encaminhá-los para o bairro Habiteto, bairro caracterizado por suas carências e/ou atributos negativos. Como não há projeto realista sobre o futuro - falando em termos de vida social - que se possa fazer sem o ensino de geografia, eu pretendi, captando as vidas que estão nas formas (e não apenas as formas), uma geografia da existência concreta. Por fim, a partir do concreto pensado seguindo os passos de Guimarães Rosa, com verdade posso afirmar que o Habiteto é, hoje, quase lugar, mas, de repente, tão bonito.
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91 Anexo I – Mapa Turístico de Sorocaba – 2004
92 Verso: