3. REPRESENTAÇÕES DA ORALIDADE EM BALADA DE AMOR AO VENTO
3.4. Dezesseis elementos relevantes em Balada de amor ao vento
O romance Balada de amor ao vento ora ganha aspecto religioso, ora ambiental, justaposto às narrativas orais. De acordo com esses dimensionamentos da obra, procuramos pontuar dezesseis elementos relevantes, mediante os quais Chiziane aborda a oralidade consoante as práticas culturais locais e ocidentais.
1. O amor fundamenta todo o enredo da balada no decorrer da vida das personagens protagonistas. Sarnau e Mwando são guiados por esse princípio fundamental de vida, destacado por Paulina Chiziane. Por intermédio de uma epígrafe, que marca a abertura da obra, podemos perceber a principal temática da narrativa:
Amor És o tear
Em que fabrico a vida...
Leite Vasconcelos (In: CHIZIANE, 2003, p. 10).
O amor, que une sob a força de destino dois seres que se amam, direciona a narrativa como um elemento de destaque, de sobrevivência das personagens.
2. O elemento água compõe a circularidade da narrativa, pois a história começa com os relatos dos acontecimentos às margens do rio Save e termina com a descrição das chuvas do subúrbio de Maputo, em Mafalala. Chiziane trata a água como elemento relevante, e a associa ao amor como o princípio da existência humana.
3. A natureza nas margens do rio Save estabelece ligação entre o ar e a terra e favorece o poético no romance. Ana Mafalda Leite (2012, p. 299) assevera que existe a junção de dualidades na literatura moçambicana como elementos simbólicos. Dessa forma, encontramos em Chiziane um elo com a teoria de Ana Mafalda Leite a respeito dessa dualidade terra/ar, que pressupõe a pátria entrelaçada à ideia de universalidade e liberdade, que sugere um diálogo entre as culturas de Moçambique.
4. O rio Save é visto como um espaço físico, metafórico e sagrado em Balada de amor ao vento, um local de trânsito e vida, de onde emergem o poético e o mítico, em que a autora estabelece os mistérios e o poder da religiosidade.
5. As árvores centenárias sugerem o respeito que devemos ter com a vida na natureza: “Quem me dera voltar aos matagais da minha infância, galgar as árvores centenárias como os gala-galas e comer frutas silvestres na frescura e liberdade da planície verde”
(CHIZIANE, 2003, p.11). Além de evidenciar o poético no texto ficcional, Chiziane considera o elemento “árvores centenárias” como algo sagrado. Consoante as narrativas de Chiziane (2003) e Mia Couto (2006), a floresta é tida como habitação dos espíritos nobres, concebida como espaço sagrado.
6. O griô é uma figura humana respeitada como ilustre representante da tradição oral, do ato performático, destacado ser em Chiziane. O contador de histórias possui uma didática própria e confere à obra a preocupação em preservar o passado. Para Ana Mafalda Leite, nas interrupções das narrativas de Chiziane prevalece “[...] o componente didático-moral, como compete a um contador de histórias, cujo papel consiste em manter vivo o espírito crítico e educativo, necessários para alertar e conscientizar a comunidade” (LEITE, 2012 p. 210). Por meio do griô, o imaginário coletivo é estruturado, em busca de criar histórias maravilhosas para a formação da comunidade moçambicana.
7. O imaginário coletivo no romance tenta preservar a memória do grupo comunitário para a representação das tradições locais, como contos orais históricos, lendas e fábulas. À imaginação são conferidas formas didáticas nas estruturas narrativas. Segundo Leite (2012, p. 226), a criação romanesca, a partir do conto oral, retira o imaginário cultural do anonimato e o traz para dentro da narrativa por meio da representação do intemporal, relacionado ao mito e, ao mesmo tempo, aborda um mundo fantástico. A realidade e a imaginação entrelaçam-se para despertar o interesse do leitor como expectador da história ficcional e do conto oral.
8. O mito na estrutura de Balada de amor ao vento proporciona formas de contar pequenas histórias relacionadas à imaginação, mas com o objetivo de construir a moral e a ética. Chiziane toma-o como tradicional, mas, em alguns momentos, contesta a preservação de mitos tidos como absurdos para a época contemporânea.
9. A curandeira estabelece uma ligação sagrada entre o mundo dos vivos e o dos mortos e cumpre a função de guia espiritual. Chiziane ao usar a palavra “curandeiro” no feminino, concede poder à mulher do século XX, aquela que deveria possuir os mesmos direitos aos cargos masculinos.
10. As práticas ritualísticas proporcionam alegria e religiosidade às festividades tradicionais, como o nascimento, a passagem da adolescência para a juventude, o casamento, a iniciação sexual e, enfim, a morte.
11. A crença nos poderes dos antepassados guia o enredo mítico em Chiziane, no qual podemos conferir a força da religiosidade latente de Moçambique. O respeito aos espíritos ancestrais e a crença nos seus poderes para guiar o ser humano na terra são considerados elementos relevantes no romance.
12. O nascimento de uma criança é outra forma de mostrar o ritual de passagem, presente em Balada de amor ao vento, pois, ao nascer, o recém-nascido recebe um tratamento especial, próprios para a ocasião, para crescer forte e livre das doenças.
13. A religiosidade - Chiziane foi educada de acordo com os princípios cristãos, mas se divide entre a crença nos espíritos ancestrais, em Dumezulu e no cristianismo. No decorrer da narrativa, percebemos as influências cristãs sendo aceitas e convivendo com a religiosidade local. Segundo a narradora-protagonista, o padre Mwando, o amado de Sarnau, é um exemplo de um personagem cristão culto, educado segundo os princípios cristãos.
14. O casamento é muito discutido na narrativa. A escritora destaca esse tipo de
ritual de passagem, juntamente com o lobolo e a poligamia no matrimônio, como temáticas centrais do discurso romanesco.
15. O enterro, para as pessoas dos países africanos de língua portuguesa, é sagrado, assim como é para o cristianismo. O corpo do morto não pode ser deixado ao relento. Chiziane aborda o assunto, por meio de um conto oral, no capítulo XVII. O griô, no velório, relata a história dos condenados que morrem e não são enterrados, como o cabo-verdiano José, que pede ao colono, antes de morrer, para enterrá-lo debaixo de uma figueira. Como o pedido não foi cumprido, José transforma-se em um fantasma.
16. O respeito à liberdade do indivíduo como princípio fundamental da existência humana é destacado no romance e narrado nos capítulos IV, XV, XVI e XVII. Chiziane posiciona-se contra a escravidão continuada em Moçambique, como a escravidão masculina no campo dos condenados e sobretudo a feminina pela poligamia, sistema em que a mulher deve trabalhar para o marido, para a sogra e para toda a família, sem distribuição de tarefas. Paulina Chiziane aborda como sagrada a liberdade das pessoas. “Sarnau, em breve partirás para a escravatura. Chamar-te-ão preguiçosa, estúpida, feiticeira, enquanto o teu sangue pare felicidade para eles, enquanto o teu coração fermenta de miséria e sofrimento” (CHIZIANE, 2003, p. 35). Em Balada de amor ao vento, a mulher lobolada tem a obrigação de trabalhar para o marido sem nenhuma forma de remuneração. Já o homem, escravizado nos campos rurais ou em minas de extração de minerais, é tratado de forma desumana e não tem direito a salário, em uma época em que a escravidão já havia acabado em Moçambique, mas o tráfico de escravos e a exploração nos campos favoreciam a continuidade dessa sujeição.