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4 OLHARES: REFLEXÕES E PRÁTICAS

4.6 O VALOR DO DIÁLOGO INTEGRAL

4.6.3 O diálogo: uma proposta (David Bohm, Donald Factor e Peter Garret)

Este texto caracteriza-se por apresentar a proposta do diálogo de David Bohm, de forma sintética, porém, mantendo o mesmo matiz do texto visto anteriormente, com destaque

para uma espécie de “exercício prático”, como sugestão para a efetiva realização desse diálogo. A seguir, um resumo do mesmo.

a) Diálogo – uma proposta

Bohm e os demais colaboradores deste texto definem o diálogo como:

Diálogo é um caminho de observação coletiva de como valores e intenções escondidas podem controlar nosso comportamento, e como diferenças culturais desapercebidas podem entrar em conflito e oposição sem que nos apercebamos do que está ocorrendo. Desta maneira pode ser visto como uma arena aonde acontece aprendizado coletivo e da qual pode nascer um ampliado, crescente, senso de harmonia, camaradagem e criatividade (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 2).

A essência do diálogo é o aprendizado, de forma participativa e criativa entre iguais. É exatamente esta situação que é prejudicada pela crise comunicativa causada por um defeito no processo do pensamento humano, conforme enfatizam os autores: “[...] a penetrante incoerência no processo do pensamento humano é a causa essencial das infindáveis crises que afetam a humanidade” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 2).

Isto remete então à questão do que vem a ser o pensamento, ponto central desta discussão:

Estamos usando a palavra ‘pensamento’ aqui com o significado não somente de produtos de nosso intelecto consciente, mas também sentimentos, emoções, intenções e desejos. [...] Na essência, o pensamento, nesse sentido da palavra, é a resposta ativa da memória em todas as fases da vida. Praticamente todo o nosso saber é produzido, demonstrado, comunicado, transformado e aplicado no pensamento (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 2-3).

Ora, sendo assim, os autores enfatizam que o importante é acompanhar o próprio pensamento; “[...] observá-lo enquanto está precisamente ocorrendo” (BOHM; FACTOR;

GARRET, 1991, p. 3). Para tanto, chamam a atenção para a Própriocepcão: “Podemos estar cônscios das ações cometidas por nós enquanto estas estão ocorrendo” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 3). Porém, eles concordam que esta faculdade de percepção no que se refere ao pensamento é muito rara, e por isso agimos de forma incoerente.

b) Por que diálogo

O diálogo é a possibilidade de desenvolver uma nova cultura, coerente, harmônica, sem as desavenças e separações propiciadas pelas crenças e opiniões que não permitem o livre processo comunicacional. Pode possibilitar, ainda, atenção e entendimento do pensamento original, desvelado dos dogmas que o encobrem, conforme destaque a seguir acerca dos resultados possíveis do diálogo:

Como o microcosmo da grande cultura, o diálogo permite um largo espectro de possíveis relacionamentos a serem revelados. Pode expor o impacto da sociedade no indivíduo e o impacto do indivíduo na sociedade. Pode expor o poder e como é assumido ou relegado e quão difundidas e infiltradas são as não notadas leis do sistema que constituem nossa cultura. É o mais profundamente interessado na compreensão e entendimento das dinâmicas de como o pensamento concebe tais conexões (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 5).

Em suma, o diálogo não está “pré-ocupado” com nada a não ser o livre processo comunicativo; algo muito difícil em nossa sociedade.

c) Propósito e sentido

O diálogo não precisa de objetivo ou tarefa a ser atingida: dificuldades normalmente surgem, como raiva, conflitos e outras, mas também fazem parte do processo:

Enquanto sensibilidade e experiência crescem, a percepção de sentido compartilhado emerge, no qual as pessoas percebem que não estão nem se opondo umas às outras, nem simplesmente interagindo (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 6).

A tendência é crescer a confiança no grupo. O partilhar sentimentos e pensamentos mais reservados. Assim eles escrevem:

Os participantes verificarão que estão envolvidos em um conjunto que se encontra em constante desenvolvimento e mudança de sentido comum. Um conteúdo de consciência compartilhada emerge e permite um nível de criatividade e insight que não é normalmente acessível a indivíduos ou grupos que interagem de modos mais familiares (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 6).

O diálogo continua a avançar, alcançando estágios de coerência aumentada, onde os bloqueios do grupo são percebidos e superados. A tentativa é a promoção de algo novo; criativo.

d) O que o diálogo não é

O diálogo não é, conforme cotidianamente lhe é referido: discussão; debate; “bate-papo” ou similares, e sim, segundo os autores: “É, como enfatizamos, primordialmente um meio de exploração do campo do pensamento” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 8).

e) Como iniciar o diálogo

Basicamente, o início do diálogo começa com suspensão: “Suspensão envolve atenção, o ouvir e o olhar e é essencial para a exploração” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 8). O explorar, por sua vez, relaciona-se também ao estado de escuta de si mesmo e do grupo; o se expor; sentir-se e ser sentido. É dar atenção ao processo geral do pensamento

ao sentimento; à interação do grupo, promovendo, assim, uma espécie de inteligência

coerente e coletiva.

f) Números

Pela prática já desenvolvida pelos autores, é aconselhado que o grupo tenha de “20 a 40 pessoas sentadas em círculo único” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 9), para melhor desenvolvimento geral. Desta forma, as diferenças culturais se apresentarão e o ouvir / participar poderá acontecer de forma mais eficiente.

g) Duração

Com a participação e perseverança frente às possíveis dificuldades, “aproximadamente 2 horas é o tempo ideal de duração” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p.10). Assim, evita-se o cansaço. A freqüência dos encontros e a mobilidade dos participantes, bem como outras questões deste tipo dependem mais diretamente do grupo, além de caracterizar a liberdade presente no diálogo.

h) Liderança

Os autores afirmam: “O diálogo é essencialmente uma conversa entre iguais” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 10). Logo, não cabe a figura do líder. Porém, mesmo sendo um jogo livre pode ser que, em alguns casos, a figura de um facilitador colabore para iniciar o processo.

i) Assuntos

“O diálogo pode começar com qualquer tópico de interesse dos participantes” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 11). É importante, todavia, que o grupo perceba e declare suas dificuldades em algum assunto, caso apresente-se, para promover o diálogo coerente.

j) Finalizando

Os autores salientam que o que sugerem são, em sua grande parte, propostas, fruto de suas experiências, a serem desenvolvidas e exploradas por cada grupo em particular, não se tratando, portanto, de regras fixas (o que feriria o próprio princípio do diálogo): “O espírito do diálogo é o de um jogo livre, um tipo de dança coletiva da mente que tem o poder imenso e revela um propósito coerente” (BOHM; FACTOR; GARRET, 1991, p. 11).

4.6.4 O diálogo como atitude existencial indispensável à saúde da humanidade