2.3. A “instalação íntima no intemporal e no eterno”
3.1.2 Diário – a escrita sobre o eu como processo de alteridade
“O meu combate de amor: este diálogo entre mim e eu.”
José Régio
Na medida em que o escritor se assume como eu-sujeito que reflecte (que, à maneira de Narciso, se debruça) sobre o eu-objecto, escolhendo-se para objecto do seu próprio discurso, instaura- -se um desdobramento do eu. Assim, a escrita sobre si aparece-nos como um processo de alteridade.
O desdobramento do eu é condição preliminar de conhecimento, nomeadamente de autoconhecimento, e de escrita (recorde-se o que atrás dissemos, partindo do ensaio de Piero Ceccucci). Régio tem consciência desse imperativo do sujeito se desdobrar para, através desse processo de distanciamento de si mesmo, se constituir eu-sujeito que (a maior ou menor distância) observa e analisa o eu-objecto.
Na “Introdução a uma obra”, Régio reflecte sobre esta problemática essencial a toda a escrita autobiográfica. A páginas tantas desse texto de auto-análise sucessivamente reescrito, pode ler-se:
“Uma coisa, porém, me interessa, entre várias outras, neste ensaio: Esboçar, sob certos aspectos, um estudo da minha própria personalidade estética. O arrojo e a ambição desse projecto, já no princípio os deixei assinalados. Mas não estará ele de acordo com algumas tendências que supus visíveis logo nas minhas primeiras tentativas? não será manifestação do meu pendor a gostosamente me servir de mim como dum indivíduo estranho? em desdobrar-me em observado que se exprime e observador que o exprime?” (Régio 1969: 156).
Mais tarde, ainda sobre esta problemática, o poeta de Biografia, servindo-se da terceira pessoa gramatical, considera que uma das suas características mais vincadamente afirmadas é “cavar e escavar no mundo interior – e não só dum ponto de vista estético […]” (Régio 1969: 158).
Neste momento, porém, o que nos interessa salientar é o carácter essencial do “desdobramento” que ocorre neste processo de auto-análise. O diarista, ao escrever-se, desdobra-se “em observado que
se exprime e observador que o exprime”. Tal desdobramento implica a existência de um “eu sujeito” e
um “eu objecto”.
Já anteriormente nos referimos à recorrente associação metafórica entre a escrita do diário e a contemplação de si diante de um espelho. No conto “O fundo do espelho” (Régio 2000b: 259-266), um narrador homodiegético, num delírio tipicamente moderno(ista), desce dentro de si e vê-se “transportado a outras regiões” (Régio 2000b: 259). Neste conto estabelece-se claramente uma divisão do eu (sujeito observador) que se vê outro (objecto observado) no espelho (Régio 2000b: 262-263).
Este sair de si para se analisar enquadra-se, na perspectiva regiana, num mais vasto movimento: o da criação. O poeta d’ As encruzilhadas de Deus, já em plena maturidade, explicita que toda a criação implica sair de si e, desta forma, criar um outro. Nas páginas do seu diário, a vinte de Julho de 1964, ele afirma:
“Vai-se-me radicando essa ideia da imperfeição divina. Poder-se-ia admitir a ideia de criação sem reconhecer essa imperfeição? Não está a imperfeição implícita no acto de criar, – de sair para fora de si, de conceber um outro? E se a criação, ou a criatura, é imperfeita, como poderia ser gerada pela perfeição?” (Régio 2000a: 360).
Importa, de momento, fixar a atenção na referida dualidade que necessariamente se instaura em todo o acto de criar. O que se diz para toda a criação, é válido, a fortiori, para a criação literária – até porque, através desta, o autor tanto cria um mundo novo, como se (re)cria a si mesmo57. Como afirma Paul Ricoeur, a reflexão sobre si mesmo é sempre mediata e nunca imediata. Trata-se de uma mediação reflexiva (Ricoeur 1990: 11). Recorde-se que já antes afirmámos que, ao escrever sobre si próprio, o eu instaura um processo de alteridade, de desdobramento de si mesmo, tornando-se sujeito e objecto do seu próprio discurso (Monteiro 1998ª: 128). É suficiente pensar na variável tempo – no seu ininterrupto curso –, para percebermos que há um desfasamento entre o sujeito que reflecte e o eu que viveu determinada experiência e que é tomado como objecto de reflexão. Acrescente-se que este desfasamento não é meramente temporal – ele é (em consequência da passagem do tempo) resultado da constante mobilidade e evolução na maneira de sentir e de pensar do ser humano. Assim, o sujeito que, no diário, reflecte sobre si (sobre as suas vivências recentemente ocorridas), além de seleccionar os factos sobre os quais reflecte, fá-lo numa posição diferente daquela em que se encontrava quando foi experienciador. Já agora, recorde-se que, após anos de debate sobre a problemática do
57 Sobre a questão da criação literária, leia-se o capítulo “Criação ou produção literária?” inserido na Teoria da literatura
«paradigma», reconhece-se hoje como válido que mudar de posição, mudar de olhar é mudar o mundo (Coelho 1987: 25).
Como afirma Assunção Morais Monteiro, “existe, pois, uma segunda vivência mais intelectualizada e menos sentida, ou pelo menos sentida de um modo diferenciado, sobretudo se advier de uma auto-análise do sujeito que só depois procedeu à sua exteriorização através da escrita.” (Monteiro 1994: 344).
Já atrás nos referimos à natureza dialogal do diário. Esta natureza manifesta-se aqui novamente, embora numa perspectiva diferente e, digamos, mais radical. O diário é um texto dialogal porque, instaurando a alteridade, ele cria aquilo a que Georges Gusdorf chamou um diálogo “de soi à soi”. Trata-se de, na perspectiva deste autor (Gusdorf 1991), considerar a existência de um novo espaço de intimidade, no qual se busca uma coincidência impossível entre o eu sujeito que escreve e o eu objecto sobre o qual se escreve. Esta coincidência é impossível porque o eu escrevente, que à distância dá testemunho do vivido, não é o mesmo que aquele outro eu que efectivamente experienciou o(s) acontecimento(s) ocorridos num passado mais ou menos longínquo.
O diário surge como um objecto transicional – ele abre para um espaço outro. Abre para o espaço da intimidade. E abre para um outro eu, o incógnito eu íntimo. Recorde-se a este propósito que Freud, na sua Introduction à la Pychanalyse, ao justificar a sua descoberta do inconsciente, refere-se a dois “graves desmentidos” que “a ciência infligiu ao egoísmo ingénuo da humanidade”. O primeiro desses desmentidos, associado ao nome de Copérnico, consistiu em demonstrar que “a terra, longe de ser o centro do universo, não constitui senão uma parte insignificante do sistema cósmico do qual não podemos imaginar a grandeza” (revolução cosmológica); o segundo, derivado do trabalho de Darwin, “reduziu a nada as pretensões do homem a um lugar privilegiado na ordem da criação, ao estabelecer a sua descendência do reino animal e mostrar a indestrutibilidade da sua natureza animal” (revolução biológica). Segundo Freud, “um terceiro desmentido”, que estava a ser protagonizado por ele mesmo, “propõe-se mostrar ao eu que ele […] se encontra reduzido a contentar-se com informações raras e fragmentárias acerca do que se passa, fora da sua consciência, na sua vida psíquica” (Freud 1989: 266- 267). Esta é a revolução psicológica.
Devemos entender esta observação de Freud no sentido de que o homem cria acerca de si mesmo imagens que não correspondem à realidade e que, em momentos posteriores da existência, são precisamente entendidas como imagens não correspondentes à realidade. Mais ainda, devemos realçar um sentido mais profundo que se prende com o facto de o homem não poder deixar de criar essas imagens, dado que a sua relação consigo mesmo e com a sua realidade é sempre (como já anteriormente referimos) uma reflexão mediata. A respeito desta construção da imagem de si mesmo, lembremos que, mais tarde, Cassirer dirá que o homem é um “animal simbólico” (Cassirer 1974).
Dado que temos vindo a falar da escrita do diário como uma reflexão que o sujeito elabora (e re-elabora) sobre si mesmo, convém realçar que temos de entender este processo de escrita como um processo cognitivo (ou melhor, autocognitivo). Este processo assemelha-se a uma viagem para dentro de si mesmo – ao misterioso mundo interior (é interessante verificar como os poetas portugueses, depois das grandes viagens marítimas – que deram novos mundos ao mundo –, reconstruíram o valor simbólico da viagem). Tal como as viagens quinhentistas, também esta nova viagem constitui uma tremenda aventura. Uma aventura “ego-cêntrica” de um eu só, que não desiste da busca de si, dos outros e do Outro – sabendo que encontrar-se já seria vencer a profunda solidão do eu.
Ao desesperado homem-poeta-diarista do Modernismo (e ao não menos desesperado do pós- Modernismo), esta busca parece ser a sua grande aventura, conferindo sentido ao seu existir. Ela é a perseguição do absoluto já não exterior (divino ou social), mas perseguição do absoluto de si mesmo que Nietzsche havia profetizado. Porém, singular capricho da natureza (humana), a busca multiplica a errância. E, assim, se instaura a diversidade, como condição inultrapassável. Até porque, como antes referimos, na escrita diarística patenteia-se a configuração de si como um outro. Este “outro” mantém- se uma realidade inominável.