3 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA NA FUNDAÇÃO CASA
3.12 Dia 26 de outubro de
Cheguei à Fundação CASA às 19h40. Estava bastante atrasado. Mas nunca entrei tão rapidamente. Fui à sala onde ficava o material pedagógico e não encontrei ninguém. Vi que o material que eu iria usar estava separado e fiquei sem saber se deveria entrar na Unidade sem a presença da educadora. Não esperei um minuto e ela chegou. Sem muita conversa, a educadora pegou quase todo o material e entrou na Unidade. Eu fiquei procurando canetas para que os alunos respondessem o questionário, que faz parte da pesquisa.
(Na semana anterior eu havia telefonado para falar com um funcionário da ONG sobre a autorização judicial e a dos pais ou responsáveis que permitiria os adolescentes responderem questionário e entrevista, já que nem ele e nem a coordenadora pedagógica haviam respondido ao e-mail que eu havia enviado no final de setembro. Soube que a coordenadora pedagógica não trabalhava mais na Fundação CASA e que uma nova seria contratada. Ele me disse que verificaria se a autorização judicial havia chegado. Quanto à autorização dos pais ou responsáveis, ele pediu que enviasse o nome daqueles que tem frequentado as aulas e um modelo de autorização. Ele faria as adequações e pediria para as psicólogas que se reúnem com os pais e responsáveis aos domingos para coletarem as assinaturas.)
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Assim que achei canetas e lápis, peguei meu material e fui para a Unidade. Enquanto esperava que a porta da sala onde dou as aulas fosse aberta, encontrei alguns adolescentes e os cumprimentei (sempre faço isso, mesmo que não os conheça). Um deles apertou minha mão e disse que queria um abraço, pois a situação dele estava bastante difícil. Abracei-o, em seguida a porta da sala foi aberta e entramos. A educadora pegou a lista dos nomes dos alunos e foi chamá-los. Enquanto isso dois adolescentes, A-4 e A-10, ficaram na sala me tentando convencer a deixá-los tocar o teclado, mas eu sabia que se deixasse iria criar um clima de indisciplina.
Alguns adolescentes que costumeiramente faziam a aula foram chegando e outros vários quiseram assistir a aula: A-8, A-3, A-2, A-16, A-15, A-6, A-12, A-13, A-17, A-14, A-18, A-1 e A-19. Pelo fato de ter muitos adolescentes e da sala ser muito pequena, tive um pouco de dificuldade com a disciplina. Mesmo com um agente de segurança na sala, eles não se intimidavam em conversar indisciplinadamente.
C.O.: Esse encontro foi caracterizado pelo meu maior atraso, pois cheguei às 19h40, e pelo maior número de adolescentes interessados em fazer a aula de canto coral: 13 alunos. Para um curso que pretende formar um grupo coral, esse deveria ser considerado um número perto do mínimo, mas na estrutura de funcionamento da Fundação CASA, esse era um número bastante significativo. Estava feliz porque mais adolescentes teriam a oportunidade de um contato maior com a música, mas sabia que muitos ali eram apenas curiosos e que não voltariam às aulas seguintes, haja vista a rotatividade de alunos ser uma característica da Fundação CASA. Nesse encontro eu havia planejado aplicar um questionário aos alunos da Oficina cujos resultados seriam analisados como dados para este trabalho, mas diante de tantos alunos novos, senti que não deveria dispensá-los para aplicá- lo aos antigos.
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Enquanto pensava o que iria fazer, fiz exercícios de alongamento e relaxamento. Em seguida propus um exercício de respiração. Alguns reclamaram, pois haviam acabado de jantar. Fizemos um exercício leve de respiração. Como alguns já haviam sentado, pedi para que todos se sentassem na ponta da cadeira para manter uma boa
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postura. Logo a seguir, fizemos três exercícios para aquecimento vocal. Percebi que alguns deles não gostavam dessa parte técnica, pois o que queriam mesmo era cantar. Expliquei que era necessária, da mesma forma que um atleta, para ter sucesso, precisava ter uma disciplina rigorosa. Enquanto realizava essa parte técnica, dois meninos não paravam de conversar. Pedi para que parassem de conversar e fizessem os exercícios. Os outros adolescentes também pediram a eles que ficassem quietos.
Expliquei aos adolescentes que estava fazendo uma pesquisa e que quem quisesse responder um questionário, poderia me dar o nome ao final da aula. Perguntaram sobre o que era o questionário e respondi que era sobre o gosto musical de quem estuda canto coral.
Após responder as perguntas, disse que tinha levado um clip da música Mar vermelho para vermos no computador. (Nas mudanças de atividades havia sempre um pouco de indisciplina, principalmente quando havia demora em iniciá-las.) Primeiro tivemos que escolher um dos computadores, pois utilizávamos a sala de informática para as aulas de canto coral. Quando o clip começou, percebemos que não havia som porque não havia caixinhas de som. Um dos adolescentes saiu e trouxe duas caixinhas, assim pudemos ver e ouvir o clip. Nesse momento arrastaram as cadeiras para ficar mais perto do computador e ver melhor a imagem. Isso causou um pouco de indisciplina, pois cada um queria ficar o mais perto possível. Como não havia cópias com a letra da música suficientes para todos, me comprometi a levar na aula seguinte e assim assistiríamos novamente o clip.
C.O.: Até que a atividade de apreciação (REIMER, 1970; SWANWICK, 2003) começasse houve um pouco de indisciplina, pois gastamos algum tempo para organizar todo o material. Essa indisciplina poderia ter sido evitada se eu não tivesse chegado tão atrasado e tivesse preparado todo o equipamento a ser utilizado na aula com antecedência, conforme as recomendações de planejamento do PCN – Arte (BRASIL, 1998, p. 97).
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Nossa última atividade foi a execução da música Enquanto houver sol. Enquanto tentava ensinar, os mesmos dois meninos continuavam conversando e atrapalhando. Parei e esperei que ficassem quietos. Os outros adolescentes também
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reclamaram da conversa dos dois. Um deles resolveu sair da sala de aula. Houve reclamações pelo fato de não saberem ler partitura, mas expliquei que ensinaria a eles a acompanhá-la. Fizemos uma leitura da letra e em seguida eu cantei a música. Alguns identificaram que o grupo Titãs havia gravado essa música.
O agente de segurança avisou que já era 20h30 e que era preciso terminar a aula. Percebi que o menino que estava conversando, mas que não quis sair da sala, disse em voz baixa: “graças a Deus.” Quando disse que iríamos cantar a música, ele questionou o horário. Eu disse a ele que já havia dado a hora, mas a aula não havia terminado. Cantamos a música duas vezes e terminamos a aula. Ao final, pedi para que aqueles que iriam responder o questionário dessem seus nomes. Apenas três saíram sem dar seus nomes. Saí da Fundação CASA às 20h40.
C.O.: Ao iniciarmos a música Enquanto houver sol utilizando partitura, reclamaram dizendo que esta dificultava a leitura da letra. Mais uma vez o imediatismo e o hedonismo afloravam e se refletiam na falta de paciência e perseverança (GOMIDE, 1990; SUZUKI, 1983). Ao se lembrarem do grupo Titãs, que havia gravado a música, se sentiram mais entusiasmados para cantá-la, pois houve uma identificação. Se analisarmos essa música utilizando os parâmetros de Adorno (1986), ela pode ser considerada swing, contrariando o gosto que vinha predominando entre os adolescentes. Essa diversidade no gosto pode ser explicada por Bauman (2005, p.35) quando fala dos anseios do “indivíduo livremente flutuante”, aquele que busca diversificar os elementos de sua identidade. Essa diversidade no gosto musical poderia levá-los a um enriquecimento cultural se estivessem dispostos a conhecer, sem preconceitos, muitos outros tipos de música.