Racionalidade Instrumental
DIAGNÓSTIC A FORMATIVA SOMATIVA PLANOS PROGRAMAS PROJETOS
Assim, apresentar um modelo para o desenvolvimento institucional de universidades, considerando o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), é o objetivo central deste estudo. Numa perspectiva epistemológica, tal objetivo se estruturará pela composição de um conjunto de conhecimentos que têm por objeto o desenvolvimento institucional da Universidade enquanto instituição de educação superior brasileira contemporânea.
O modelo resultante proposto fundamenta-se na compreensão de que o desenvolvimento institucional não ocorre naturalmente com a adoção das orientações contidas na Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004, através da qual se estabeleceu o Sinaes (Anexo 2), pois a avaliação institucional (mesmo como processo isolado e autônomo, como se observa empiricamente) é um processo complexo, com variedade de aspectos, cuja compreensão deve partir de análises nas perspectivas da multirreferencialidade e da transdisciplinaridade.
Propor um modelo no qual os processos de Avaliação e Planejamento, articulados, induzam o desenvolvimento institucional de universidades, na perspectiva do Sinaes, é um desafio que não se enfrenta sem consciência dos obstáculos epistemológicos e teóricos, ante os problemas morfológicos e técnicos.
Assim, o estudo teórico e aplicado realizado pelo autor, ao longo de seus estudos e experiências profissionais, permitiu abordar o objeto definido e reconhecível no campo da educação: a Universidade. Nesse objeto, a intenção é procurar compreender o fenômeno desenvolvimento institucional, muito discutido, porém pouco definido e entendido.
O Sinaes definiu um conjunto genérico de informações e processos articulados consistentemente num modelo institucional multidimensional, como principal referencial para a avaliação de Instituições de Educação Superior (IES) pelo Estado, numa perspectiva reguladora e controladora, que, em princípio, exige das instituições requisitos básicos para subsidiar decisões nos processos de autorização, credenciamento e recredenciamento institucional.
Por uma ótica diferente dos tradicionais estudos, para além de rever o que já se disse em geral, o desafio é procurar dizer, sobre seu objeto, algo que ainda não foi dito, em particular, sobre suas possibilidades de desenvolvimento institucional.
Em que direção está, pode ou deve se desenvolver a Universidade? Quem são os principais sujeitos em cada uma de suas dimensões? Quais são suas forças, fragilidades e potencialidades mais relevantes? Que críticas e sugestões podem ser formuladas sobre a Universidade? São algumas questões que possibilitam iniciar um processo institucional
dialógico, conduzido pelos processos de planejamento e avaliação, integrando grupos e sujeitos da Universidade.
Sem respostas para essas e outras questões atuais, analisando-se os relatórios de avaliação institucional, é possível observar empiricamente a existência de inúmeras universidades onde os sistemas de planejamento e de avaliação não são interdependentes, mas, por variadas causas, desarticulados em menor ou maior grau, principalmente pela inexistência de um modelo integrador; de indicadores institucionais; das compreensões
compartilhadas sobre ―desenvolvimento institucional‖, dentre outros fatores que propiciem
análises dialógicas nas avaliações diagnósticas da Universidade; das avaliações formativas de seus planos, programas, projetos e atividades e de avaliações somativas de seus objetivos institucionais, formulando, acompanhando e reformulando suas políticas de desenvolvimento institucional.
Ao invocar estudiosos sobre o tema desta tese, especialmente aqueles escolhidos
para fundamentar a concepção de ―desenvolvimento‖ do autor, conforme se apresenta no
Capítulo 2, pretende-se demonstrar que, não obstante a diversidade cultural e histórica vivenciada por esses estudiosos, eles convergem sobre concepções fundantes para uma sociedade democrática, uma educação formadora de cidadãos e uma Universidade capaz de preparar esses cidadãos para formar essa sociedade, a despeito das persistentes divergências e contradições da realidade brasileira.
Esses estudiosos, destacados como referência para a constituição de uma
concepção multirreferencial sobre ―desenvolvimento‖, ou mais especificamente ―desenvolvimento da Universidade‖, apontam para a abertura de possíveis caminhos de
reflexão e ação em busca de mediar as necessárias contradições, entendendo-as como essenciais a uma dinâmica de rupturas, retrocessos e avanços que põem em movimento os sujeitos, suas relações e a sociedade, numa perspectiva de permanentes questionamentos sobre a cultura, suas práticas e intencionalidades, numa racionalidade indesejada porque mais instrumental do que comunicativa; onde sujeitos convivem entre tensões do racional e do irracional, do objetivo e do subjetivo, do concreto e do abstrato, do empirismo e do racionalismo, da ordem e do caos, do fato e do mito, do subdesenvolvido e do desenvolvido, parecendo não haver meio-termo, nem formas de articular essas tensões e contradições, que, se inexistentes, nada se pode compreender de plausível sobre uma realidade tão rica em aparências.
Nas visões e vontades convergentes desses estudiosos e autores, surgem uma sociedade e um sujeito, possíveis através de instituições, de universidades com concepções sobre si mesmas e sobre o homem, que se desenvolvem por evolução cultural, advindas de interações inteligentes, que considerem a subjetividade, o autoconhecimento, a autocrítica, a autoavaliação, o planejamento participativo e o processo decisório institucional democrático, construindo assim outro olhar sobre essa sociedade e sobre esse homem enquanto sujeito, compreendido como indivíduo real, portador de determinações, que é capaz de propor objetivos e praticar ações, consciente de suas consequências porque autônomo, autodeterminado e emancipado. Que outras concepções e perspectivas seriam capazes de conduzir sociedades e países de vigor democrático ainda tão incipiente?
No contexto brasileiro, ainda em discurso neoliberal, discute-se a ―qualidade da
educação‖ e, em especial, do ensino superior, dada a grande expansão originada na década
passada. Nessa perspectiva ideológica, que antagoniza o Estado pelo mercado, fala-se mais em estratégias do que em missões das instituições; mais em objetivos do que em vocações; mais em serviços do que em ensino; mais em custos do que em investimentos; mais em oportunidades do que em desigualdades; mais em fusão do que em inclusão. Frequentemente, a ―agenda educacional‖ gira em torno dos problemas na educação superior em quatro eixos:
―qualificação do estudante da rede pública‖; ―custo e contribuição dos meios‖; ―objetivos educacionais‖ e ―critérios de avaliação‖ (BROWN, 2010).
Com perspectiva apenas endógena, porta-vozes de instituições que priorizam sua sustentabilidade financeira em detrimento do desenvolvimento das demais dimensões da instituição educacional, numa perspectiva também exógena acreditam que uma das principais causas da baixa qualidade no ensino superior brasileiro é o estudante com baixa qualificação. Esse precário raciocínio corresponde à afirmação de que o paciente, doente, é uma das principais causas da baixa qualidade do sistema de saúde.
A autodenúncia surge quando enuncia, analogamente, que esse paciente, por não conseguir ser atendido (e muito menos tratado) no sistema público de saúde, recorre ao particular, comprometendo a qualidade desse sistema particular, como se fosse possível crer que tal aceite se dê por mero sentimento cívico, filantrópico e elevado altruísmo do mercado, e, portanto, que só o Estado teria a solução, porque seria o único responsável, para não dizer culpado.
No segundo eixo da discussão, o argumento precário flui com desenvoltura e bom estilo para assegurar que qualquer um, com recursos financeiros, é capaz de gerar qualidade...
E por que será que, ao longo de décadas, não obstante os vultosos aportes do capital privado, dos investimentos e custeios públicos, o sistema educacional brasileiro e suas instituições apresentam, em todos os níveis, os atuais resultados insatisfatórios?
Nesse segundo eixo do discurso neoliberal, o professor se torna o algoz do sistema, responsável por todas as suas mazelas. Novamente, por analogia, o discurso diagnostica que se o paciente doente precisa ser tratado, isso elevará os custos do sistema, pois será necessário que pelo menos um terço dos médicos atenda em tempo integral. E assim, em sua lógica de eficiência, antes de decidir isso, aquele sistema precisa de garantias para ser
―viável‖, pois ―qualquer despesa passa por análise de valor agregado e é racionalizada ao máximo em função dos objetivos que se pretende atingir‖ (BROWN, 2010, p. 2). Nesses termos, mesmo ―desconhecidos‖, os objetivos possibilitam denunciar sua lógica.
Com esse propósito, segue apresentando o terceiro eixo, na vã tentativa de fazer refletir, quando pergunta ―Quais são, então, os objetivos educacionais no ensino superior?‖ (BROWN, 2010, p. 3), e, com resposta curta e pronta, logo responde: "qualificar o aluno para o exercício da profissão...", complementando, adiante, ―atrelada política e academicamente também ao exercício da cidadania e ao desenvolvimento do senso crítico‖ (BROWN, 2010, p. 3).
Chegará o momento em que se deverá perguntar aos ―terapeutas‖ se eles se
submeteram ou se submeteriam aos mesmos remédios que prescrevem... e mais: se os remédios que prescrevem têm curado alguém, algum dos milhões de ―pacientes‖ que, pacientemente, ainda esperam ver a cura de seus males. No discurso dos ―terapeutas‖ ainda de
plantão para atendimento ao sistema ―doente‖, continua evidente a incapacidade de
discernimento das diferenças entre o público e o privado, pois, em suas concepções e prescrições, tanto o público quanto o privado deveriam agir com a mesma racionalidade, eficiência, eficácia, para atingir os objetivos de cada qual, e não do sistema.
O quarto eixo dessa ―agenda educacional‖ diz respeito à grande polêmica gerada
na aplicação dos instrumentos do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior Sinaes, instituído pela Lei no 10.861, de 14 de Abril de 2004. Especificamente, diz respeito aos critérios e procedimentos de avaliação pelos quais as instituições de ensino superior privado, têm sido avaliadas, manifestando grande insatisfação. O argumento enunciado nos fóruns próprios desses interesses é o de que, na lógica do modelo atual, que fundamenta cálculos, operações, variáveis e procedimentos de divulgação dos conceitos, ―... os objetivos
(BROWN, 2010, p. 4). O que não deixa de ser um argumento com fundamento, apenas invocado porque contraria uma premissa sem fundamento: a de que os objetivos, privados ou públicos, atendem aos fins sociais, estando as instituições, independentemente de suas naturezas, em alto grau de pertinência social, pois têm levado em conta nas suas ações e decisões: ―1o A acessibilidade das classes emergentes; 2o O nível de valor agregado possível e necessário; 3o A promoção da ascensão social; e 4o O suporte ao desenvolvimento
socioeconômico do país‖ (BROWN, 2010, p. 4).
Esses quatro indicadores, mesmo com conceitos redundantes, atualmente não são verificáveis no nível micro, da instituição, mesmo com qualquer estratégia, instrumento ou sistema. Mas é necessário e possível em nível macro, com alguns aperfeiçoamentos. Para tanto, no mínimo é necessária a devida contenção de algumas operações técnicas desqualificadoras do Sinaes, evoluindo-o no sentido de procurar não aferir e ―ranquear‖ a Universidade, pois ela é a medida dela mesma, mas promover seu desenvolvimento institucional para e pelo desenvolvimento da sociedade.
Portanto, as seguintes questões são necessárias como articuladoras da Dimensão Teórica com a Dimensão Aplicada da tese:
1. O que é e como se processa o desenvolvimento institucional da Universidade?
2. Quais características, elementos e fatores podem revelar causas, consequências e possibilidades do desenvolvimento institucional da Universidade?
3. Que modelo pode articular os processos de avaliação e de planejamento para o desenvolvimento institucional da Universidade?
Considerando essas concepções e questões, o presente estudo evolui em cinco fases: a apresentação do autor; o processo discursivo e o modo de investigação desenvolvido; os contextos mundial e brasileiro do estudo realizado; os fundamentos teóricos para reconstrução do objeto enquanto insumo do processo discursivo; e os quadros de análise como modelo proposto para o desenvolvimento institucional enquanto produto do estudo.
Assim, contextualizando o estudo, apresentando teorias, métodos, questões, proposições e um modelo para o desenvolvimento institucional de universidades, são apresentados os capítulos desta tese.
O primeiro capítulo, intitulado Os fundamentos epistemológicos, para atender à exigência de pertinência, dá início ao estudo definindo a base epistemológica e seu processo discursivo, com os principais conceitos adotados, de forma que se possa, univocamente, interpretar as concepções na concisão de seus significados da instância superior inserida no aparato teórico e institucional (a Universidade), com os seus ideais políticos, ideológicos e culturais, onde se processa a permanente construção do objeto de estudo (o desenvolvimento institucional), além da identificação das limitações do estudo.
O segundo – Os referenciais teóricos –, para atender à exigência de conceitualização, procura construir uma nova concepção de desenvolvimento institucional para a Universidade, pela multirreferencialidade e pela transdisciplinaridade, ambas num discurso crítico reflexivo, com base na premissa empiricamente observada sobre a incapacidade do Sinaes de articular sozinho a avaliação e o planejamento do desenvolvimento da Universidade, para além do cumprimento das exigências regulatórias legais do Estado. Com os quadros de referência adotados na base teórica, é elaborada a concepção de que a avaliação e o planejamento formam um binômio que poderá levar ao desenvolvimento institucional da Universidade, de modo que, no quarto capítulo, se possa propor um modelo onde essa articulação seja factível, tornando úteis e dando sentido a instrumentos como o Plano de Desenvolvimento Institucional, o Projeto Pedagógico Institucional e os Projetos Pedagógicos de Cursos da Universidade.
O terceiro capítulo – A educação no mundo contemporâneo –, para atender à exigência de verificação empírica e contextualização do estudo, na dimensão espacial do geral (mundo) para o particular (Brasil), apresenta um panorama atual sobre a educação no mundo e o contexto da educação superior no Brasil, com as principais características, definições, estatísticas, evidências e análises desses sistemas, complementando com uma pesquisa sobre as missões enunciadas das universidades brasileiras, com o objetivo de melhor caracterizá-las e identificar concepções sobre o desenvolvimento institucional da universidade, com a descrição do modo de investigação configurando a base técnica do estudo.
O quarto capítulo – Um modelo para o desenvolvimento institucional –, para atender à exigência de coerência, apresenta a base morfológica do modelo proposto, compreendendo quadros de análise em quatro níveis de abstração, sua dimensão aplicada, estrutura e funcionalidade, além de reflexões sobre o modelo e suas possibilidades.
Em Considerações e recomendações finais, além de uma reflexão sobre o estudo, são identificados dez desafios atuais para o desenvolvimento institucional da Universidade
brasileira e apresentadas propostas de pesquisas que possibilitem uma melhor compreensão do fenômeno analisado, enquanto objeto de estudo problematizado.
No contexto nacional em que este estudo se apresenta, a Universidade pública
permanece em ―crise‖ e em ―ruína‖, ainda debatendo sobre seu financiamento e não sobre um
projeto de desenvolvimento para o país e o papel institucional da Universidade como agente
promotor desse desenvolvimento. Com o setor privado em ―crise de expansão‖, e não obstante
a rigorosa legislação educacional, essas instituições atuam no sistema educacional conforme seus interesses e vantagens, contribuindo para aumentar a ―crise de qualidade‖ da educação superior no Brasil.
Não pretendendo esgotar o tema com este estudo, a intenção é propor caminhos para o alcance do desenvolvimento institucional da Universidade brasileira, independentemente de sua natureza jurídica, porque vista pela ótica de sua pertinência no sistema educacional e, consequentemente, de sua pertinência social, num momento em que, a propósito, se discute no mundo a reforma da educação superior, com questionamentos sobre o futuro da Universidade. Este estudo será útil na medida em que contribua para a compreensão das possibilidades e obstáculos ao desenvolvimento institucional da Universidade brasileira, na perspectiva do Sinaes. Espera-se que as mensagens enunciadas sejam como sinais... que intencionalmente irão indicar os cuidados para a idealização de um futuro inspirador e avançado da educação brasileira.
Em síntese, será relevante, mesmo que provoque discordâncias parciais ou totais, pois assim estimulará novos estudos e pesquisas nesse tema. Ensejando que isso ocorra, são apresentados elementos que possibilitam a verificação e a contestação do modelo e argumentos propostos, inserindo-se na experiência do autor como um trabalho individual, originado de múltiplas atividades coletivas na Educação. Assim, a avaliação e o planejamento institucional, enquanto células diferentes, mas interligadas no mesmo tecido institucional, devem ser o ponto de partida e de chegada para tratar as preocupações atuais e futuras da Educação, onde o foco principal seja o desenvolvimento institucional da Universidade, ainda que por meio de simples contribuições, como esta que se apresenta a seguir, pois ―é à sociedade que devemos interrogar, são suas necessidades que devemos conhecer, já que é a essas necessidades que devemos satisfazer‖ (DURKHEIM, 1968, p. 101).