2.2 Mastite e qualidade do leite
2.2.7 Diagnóstico da mastite
Os métodos de detecção da mastite, tido como mais tradicionais, requerem remoção do leite e realização de testes subseqüentes para mensuração da concentração de leucócitos ou realização de cultura bacteriana. Em 1979, estes métodos já eram criticados por Gebre-Egziabher e colaboradores pela exigência de técnicos qualificados e por serem demorados demais para o uso na rotina da produção de leite e para cada vaca individualmente.
A detecção dos animais com mastite clínica é importante para manter um nível aceitável de qualidade do leite, assim como direcionar um tratamento com antibióticos, quando necessário, e proporcionar a avaliação da saúde e bem- estar do rebanho (KAMPHUIS et al., 2008).
O diagnóstico da mastite clínica é baseado na aparência do leite. O leite pode apresentar cor amarelada, aguado, sangue ou ter a aparência de soro. Leite mastítico também pode conter quantidades variáveis de pus e coágulos. A intensidade do edema, da dor e a aparência do leite indicam a gravidade da infecção e servem como um guia para o tratamento (NEW YORK STATE CATTLE HEALTH ASSURANCE PROGRAM VETERINARY RESOURCE - NYSCHAPVR, 2008). O diagnóstico precoce da mastite clínica é feito pelo teste da Caneca de Fundo Escuro (Teste Tamis) ou por meio do exame clínico dos animais, quando se buscam as alterações decorrentes do processo inflamatório.
O diagnóstico da infecção subclínica é mais problemático, uma vez que o leite parece normal, mas geralmente tem uma elevada contagem de células somáticas (NYSCHAPVR, 2008). Existem vários métodos de detecção da
mastite, desde métodos mais tradicionais e menos precisos até a utilização de inúmeros recursos tecnológicos. Em sistemas de ordenhadeiras mecanizadas automáticas é possível a utilização de diversos tipos de detectores eletrônicos ou sensores, associados a sistemas de informações gerenciais, capazes de auxiliar o ordenhador na detecção de vacas com mastite clínica (KAMPHUIS et al., 2008).
Entre os métodos indiretos, a avaliação das características físico- químicas do leite, incluindo a contagem de células somáticas (CCS), pH, condutibilidade e as dosagens de caseína, lactose, gordura e cloretos, é o recurso comumente utilizado para detecção da mastite subclínica. Em condições de campo, o diagnóstico dessa forma de apresentação é feito geralmente pelo California Mastitis Test (CMT), podendo ser utilizados também o Wisconsin Mastitis Test (WMT) (SANTOS; FONSECA, 2007; VEIGA, 1998).
Quando um agente patogênico invade a glândula mamária, o organismo do animal reage, mandando para o local as células de defesa, principalmente leucócitos, para tentar reverter o processo infeccioso. Essas células de defesa, somadas às células de descamação do epitélio secretor de leite dos alvéolos e ductos lactíferos são chamadas células somáticas do leite. Portanto, quando há presença de um microrganismo patogênico na glândula mamária, geralmente a contagem de células somáticas se apresenta elevada (acima de 300.000 cél./mL de leite) e esse aumento na CCS é a principal característica utilizada para o diagnóstico da mastite subclínica (SANTOS; FONSECA, 2007).
Fatores fisiológicos, genéticos, ambientais e infecciosos afetam a CCS do leite; contudo, a presença de infecção é o fator que mais altera este parâmetro, sendo os neutrófilos a população celular que mais aumenta nesses casos (SCHUKKEN et al., 2003; SORDILLO; SHAFER-WEVER; ROSA, 1997).
A contagem de células somáticas individuais (CCSI) é um recurso laboratorial comumente empregado para o diagnóstico da mastite subclínica,
enquanto a contagem de células somáticas do leite do tanque (CCSLT) é um parâmetro utilizado para se estimar o índice de mastite subclínica presente no rebanho e as perdas de produção (COSTA et al., 2008).
Portanto, por ser importante indicador inflamatório da glândula mamária, a CCS vem sendo amplamente utilizada no diagnóstico da mastite. O isolamento bacteriano possui alta correlação com aumento da CCS, principalmente decorrente do aumento de polimorfonucleares, apresentando-se como o melhor preditor para a determinação da presença bacteriana (DELLA- LIBERA et al., 2011).
Outro teste bastante utilizado na detecção de mastite subclínica é o CMT. O CMT é baseado na quantidade de DNA presente na amostra de leite. As células inflamatórias associadas à mastite são o tipo predominante de células presentes no leite da vaca com mastite. O CMT reflete o nível de CCS com bastante precisão e é um indicador confiável da gravidade da infecção (NYSCHAPVR, 2008).
O resultado do teste de CMT é útil para a seleção de vacas para realização de cultura bacteriana do leite, descarte do animal, tratamento de vaca seca seletivo. É importante ressaltar que uma determinada porcentagem (10- 20%) de vacas amostradas para a cultura bacteriana com base na pontuação CMT não terá crescimento bacteriano. Isto é devido a um número de fatores, incluindo infecções de curta duração que foram eliminadas pela vaca ou infecções que se caracterizam por intermitente eliminação de bactérias (NYSCHAPVR, 2008).
Os testes de diagnóstico da mastite subclínica devem ser realizados mensalmente em todas as vacas em lactação. Atualmente, existem vários métodos para o diagnóstico da mastite, os quais são aplicáveis tanto para animais individualmente, quanto para rebanho. A CCS pode ser determinada pela contagem eletrônica de células somáticas (CECS), California Mastitis Test
(CMT) e Wisconsin Mastitis Test (WMT). Estes dois últimos são indicadores da prevalência da mastite subclínica nos rebanhos e o primeiro pode ser utilizado como indicador individual ou de rebanho (amostra do tanque) (FONSECA; SANTOS, 2000).
Os íons cloreto e os íons sódio estão presentes na circulação sanguínea e durante a mastite atravessam os capilares sanguíneos, direcionando-se ao lúmen dos alvéolos da glândula mamária. Tal processo ocorre devido ao aumento da permeabilidade vascular e à destruição das junções celulares e do sistema de bombeamento iônico causados pelo processo inflamatório (ZAFALON et al., 2005). O aumento do pH durante a mastite está associado com o aumento da permeabilidade da glândula mamária aos componentes sanguíneos (DELLA- LIBERA et al., 2011).
A condutividade elétrica do leite é relatada desde 1982, por Fernando, Rindsig e Spahr (1982), como um indicador no diagnóstico de mastite subclínica. A CEL é determinada pela concentração de ânions e cátions. Se a vaca sofre de mastite, a concentração de Na+ e Cl− do leite aumenta, o que leva
ao aumento da CEL do leite do quarto infectado (NORBERG, 2005).
Um instrumento capaz de mensurar a condutividade elétrica do leite foi incorporado do sistema de ordenha em 1979 (GEBRE-EGZIABHER et al., 1979). Atualmente, muitos sistemas de ordenha automática têm sensores para mensurar a CEL durante a ordenha automática. Nestes sistemas, a condutividade elétrica do leite tem sido expressa em um valor máximo para cada quarto ou a cada ordenha (NORBERG, 2005).
Todavia, estes parâmetros podem ser influenciados por fatores como idade, estágio de lactação, produção, estação do ano, fração láctea coletada e variações entre animais, patogenicidade do agente, podendo refletir na avaliação dos testes analisados. Ainda, grande parte da predição dos testes diagnósticos das mastites é baseada no exame bacteriológico como padrão ouro. No entanto, a
mastite nem sempre requer a presença bacteriana, ou se consegue sucesso no isolamento bacteriano (PYÖRÄLÄ, 2003; ZAFALON et al., 2005).
No entanto, é consensual que não há único teste que permita detectar todos os casos de mastite. Portanto, a detecção precoce da mastite pode ser alcançada através da combinação de informações a partir de um indicador em tempo real com outros fatores de risco conhecidos (CHAGUNDA et al., 2006).