2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.6 Diagnóstico e tratamento da mastite bovina
Com relação ao diagnóstico, as infecções da glândula mamária podem apresentar-se, quanto a sua forma de manifestação, em clínica e a subclínica.
A mastite clínica é caracterizada por resposta inflamatória mais severa que a subclínica, com alterações das características do leite, com o aparecimento de grumos de pus e sangue, verificados no teste da caneca de fundo preto, ao se examinar os primeiros jatos de leite. Em determinados casos, pode causar inclusive alterações sistêmicas na vaca, que em um quadro agudo da mastite infecciosa, causada por S. aureus caracteriza hipertermia, úbere quente e edemaciado. Em casos mais graves pode ocorrer até mesmo a gangrena e secagem da glândula (CALLEFE e LANGONI, 2015).
A mastite subclínica caracteriza-se pela diminuição da produção leiteira, sem que, contudo, se observem alterações evidentes do processo inflamatório. Esta forma de manifestação da mastite é a responsável pelos maiores prejuízos na produção leiteira; estima-se que, para cada vaca com mastite clínica, existam em média sete, ou mais, com mastite subclínica (MARTINS et al., 2010). Entre as principais alterações, destaca-se o aumento da contagem
de células somáticas, o aumento dos teores de cloreto de sódio, proteínas séricas e diminuição do percentual de caseína, gordura, sólido total e lactose do leite (TOZZETTI et al., 2008).
O diagnóstico mais utilizado para identificar a mastite subclínica é o California Mastitis Test (CMT) que, de acordo com a intensidade da reação, classifica-se em negativa (0), reação leve (+), moderada (++) e intensa (+++). O teste CMT é um indicador indireto da CCS no leite sendo estas compostas basicamente pelas células de descamação do epitélio secretor e leucócitos de origem do sangue, que se apresentam com elevadas concentrações nos casos de mastite (FONSECA e SANTOS, 2000; RIBEIRO et al., 2003).
As perdas econômicas ocorrem devido à redução temporária ou permanente na produção de leite, descarte de leite devido ao uso de antimicrobianos, redução no preço causado pelo aumento das contagens de células somáticas, redução da vida produtiva do animal, além dos custos com tratamento e mão de obra (VIGUIER et al., 2009). O tratamento da inflamação é por meio da administração de antibióticos, e isto é um dos fatores de impacto econômico na produção leiteira, representado pelos custos de medicamentos, mão-de-obra e descarte do leite. Na prática, é realizado por via sistêmica ou por via intramamária. A via intramamária é a mais utilizada por apresentar menores efeitos colaterais, maior facilidade de aplicação e menor custo (OYARZABAL et al., 2011).
A principal fonte de resíduos de antimicrobianos no leite são os tratamentos para a mastite, que em grande maioria, são oriundas do manejo inadequado desses fármacos, além da ampla utilização desses antimicrobianos para o tratamento de outros processos infecciosos no rebanho bovino leiteiro. Para isso, é preciso o controle desse tipo de medicamento em bovinos leiteiros, prevenindo-se os resíduos de antimicrobianos no leite. Foram desenvolvidos testes quantitativos e qualitativos, que com o passar dos anos se tornaram mais específicos e tecnológicos, que detectam resíduos de sulfonamidas, gentamicina, tilosina, entre outros, bastante utilizados pela indústria de laticínios. Tamanha a importância da detecção de resíduos, que foi criado pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) o Programa de Análise de Resíduos de Medicamentos Veterinários em Alimentos de Origem Animal
(PAMVET) para monitoramento e controle de resíduos (CALLEFE e LANGONI, 2015).
O uso abusivo de antibióticos têm selecionado cepas resistentes. Em um estudo, pesquisadores mostraram que as cepas de bactérias Gram-positivas de S. aureus e S. agalactiae isoladas de bovinos em Portugal apresentaram altos níveis de resistência aos antibióticos penicilina e ampicilina (NUNES et al., 2007). Machado e colaboradores (2008), ao analisarem cepas de Staphylococcus coagulase-negativos isolados de vários rebanhos de diferentes regiões brasileiras, notaram um alto grau de resistência a vários antibióticos: penicilina (93,5%), sulfonamida (88,9%), novobiocina (88,6%) e ampicilina (85,3%).
As vacinas também são utilizadas no combate a inflamação. Alguns exemplos são: Pfizer Animal Health, Upjohn J-5 Bacterin®; Bayer MastiguardTM; Merial, J-Vac®; IMMVAC Endovac-Dairy®; Novartis Animal Health J-5 ShieldTM. As medidas preventivas tradicionais como adequado manejo da ordenha e manutenção da higiene das ordenhadeiras, utensílios e da área de permanências dos animais continuam a desempenhar um papel fundamental no controle da doença; a vacina pode ser utilizada como um complemento no combate à infecção, mas não como um substituto de todas as outras medidas preventivas (MATA et al., 2013).
O rápido desenvolvimento de resistência na terapia antibacteriana tem motivado a pesquisa de novos fármacos capazes de combater de forma eficaz e segura os patógenos (MACHADO et al., 2010).
As plantas são ricas em substâncias bioativas e já estão sendo utilizadas, por exemplo, nas propriedades agrícolas como forma alternativa no controle de pragas e parasitos, muitas delas são biodegradáveis apresentando baixa ou nenhuma toxicidade (CORRÊA e SALGADO, 2011). Em um estudo realizado em 2010, foi mostrado que extratos obtidos das espécies Senna macranthera, Artemisia absinthium, Cymbopogum gonnarduse e Baccharis dracunculifolia apresentaram eficácia contra S. aureus, principal agente da mastite bovina (DIAZ et al., 2010). Bulgacov e colaboradores (2015) testaram a eficiência do óleo de copaíba contra Staphylococcus spp. isolados de casos de mastite subclínica em 79 quartos mamários de vacas em lactação, além de comparar a sensibilidade do mesmo patógeno ao cloranfenicol e à enrofloxacina. Os
resultados mostraram-se positivos, pois 94,93% (75/79) das amostras foram sensíveis à pelo menos um dos cremes à base de óleo de copaíba. Em relação ao cloranfenicol e à enrofloxacina, 89,87% (71/79) das amostras apresentaram sensibilidade à ambos os antibióticos. Higino e colaboradores (2015) avaliaram a atividade antimicrobiana de taninos isolados da jurema vermelha Mimosa arenosa (Willd Poir) sobre S. aureus de origem bovina e mostraram que os taninos inibiram o crescimento bacteriano formando halos que variaram de 10 a 20 mm de diâmetro e apresentaram concentração inibitória mínima de 15,6 µg/mL.