DOI 10.47402/ed.ep.c202120720256
Letícia Viana dos Santos
Graduanda em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí - UFPI Teresina, Piauí;
http://lattes.cnpq.br/5041161679820572 Mateus Ibiapina Vaz de Sousa Cruz
Graduando em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí - UFPI Teresina, Piauí;
http://lattes.cnpq.br/5212399393291910 Ingrid Lopes Torres
Graduanda em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí - UFPI Teresina, Piauí;
http://lattes.cnpq.br/6042416477729494 Luana Vitória de Araújo da Silva
Graduanda em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí - UFPI Teresina, Piauí;
http://lattes.cnpq.br/2456504357874943 Gabriela Pedrosa Carvalho
Graduanda em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí - UFPI Teresina, Piauí;
http://lattes.cnpq.br/3352944953259850 Rosa Jordana Carvalho
Menstranda CAPES pela Universidade Federal do Piauí – UFPI Teresina, Piauí;
http://lattes.cnpq.br/8899832651426197 Márcia Astrês Fernandes
Professora Associada da Universidade Federal do Piauí – UFPI Teresina, Piauí;
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RESUMOIntrodução: A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência sexual como tentativa ou consumação de ato sexual não consentido ou ainda utilizar-se de meios coativos para satisfazer a libido de forma não autorizada pela vítima. Nesse contexto, destaca-se o protagonismo do enfermeiro na Atenção Primária na detecção de casos, realização do acolhimento e da escuta ativa, a fim de estabelecer um vínculo de confiança e, assim, prestar uma assistência efetiva e de qualidade às vítimas. O presente estudo objetivou discutir os principais diagnósticos e intervenções de enfermagem na atenção às pessoas vítimas de violência sexual. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo, de cunho bibliográfico reflexivo, originado a partir da necessidade percebida durante as discussões ocorridas nas reuniões científicas do Projeto de Extensão: “Importunação e abuso sexual, relacionamento abusivo e as interfaces com o sofrimento mental: implementação de ações preventivas e de cuidado”, desenvolvido em duas escolas públicas estaduais. A busca pelos artigos ocorreu entre junho e julho de 2020 em livros da área e Biblioteca Virtual em Saúde. Resultados e Discussão: Os estudos apontam a relevância da enfermagem frente as queixas apresentadas pelas vítimas, sintomas observados e ocultados, e também seu papel na divulgação das formas de prevenção e cuidados para mulheres que foram agredidas por qualquer tipo de violência. Conclusões: A enfermagem tem papel fundamental na assistência de vítimas de violência sexual, visto ser esse profissional o primeiro a contatar a vítima na chegada ao serviço de saúde. Além disso, atua também na prevenção da ocorrência desse crime.
Palavras-chave – “Delitos Sexuais.”, “Menores de Idade.”, “Enfermagem.”, “Saúde Mental.”, “Processo de Enfermagem”.
ABSTRACT
Introduction: The World Health Organization (WHO) defines sexual violence as an attempt or consummation of a non-consensual sexual act or even using coercive means to satisfy the libido in an unauthorized manner by the victim. In this context, the role of nurses in Primary Care in detecting cases, hosting and active listening, in order to establish a bond of trust and, thus, provide effective and quality assistance to the victims. This study aimed to discuss the main nursing diagnoses and interventions in the care of people victims of sexual violence. Methodology: This is a descriptive study, with a reflexive bibliographic nature, originated from the perceived need during the discussions that took place in the scientific meetings of the Extension Project: “Sexual harassment and abuse, abusive relationship and the interfaces with mental suffering: implementation preventive and care actions”, developed in two state public schools. The search for articles happened between June and July 2020 on related books and Virtual Health Library. Results and Discussion: The studies point out the relevance of nursing in the face of the complaints presented by the victims, observed and hidden symptoms, and also their role in dissemination of the forms of prevention and care for women who have been attacked by any type of violence. Conclusions: Nursing has a fundamental role in assisting victims of sexual violence, as this professional is the first to contact the victim upon arrival at the health service. In addition, it also acts to prevent the occurrence of this crime.
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1. INTRODUÇÃOA violência sexual constitui-se como tentativa ou consumação de ato sexual não consentido ou ainda utilizar-se de meios coativos (comercialização, exposição) para satisfazer a libido de forma não autorizada pela vítima, conforme A Organização Mundial da Saúde (OMS). Essas práticas independem do grau de proximidade com a vítima ou meio em que está inserida (ONU, 2018). A violência sexual, portanto, é uma das principais formas de violação dos direitos humanos, e é entendida como uma questão de saúde pública, segurança e acesso à justiça, que exige do Estado políticas públicas e ações integradas para responder a esta demanda (BRASIL, 2015).
Em um ambiente hospitalar, é relevante afirmar que a equipe de enfermagem é a primeira a ter contato com o paciente, a iniciar o atendimento, bem como é responsável por acolher com ética e empatia o sofrimento do atendido. A atenção às pessoas em situação de violência sexual não é uma ação isolada e o seu enfrentamento depende de iniciativas intersetoriais que possibilitem o atendimento e proteção das vítimas e a prevenção desse agravo (OLIVEIRA et al., 2019; BRASIL, 2015).
Para o bom atendimento de uma vítima de violência sexual é necessário que, antes de tudo, o profissional esteja ciente das várias competências técnicas que serão necessárias durante esse atendimento e a demanda emocional que irá ser exigida diante de forma tão cruel de violência contra outrem. Destaca-se aqui a importância do acolhimento, escuta ativa livre de julgamentos de qualquer natureza, para que se estabeleça um vínculo não só de confiança, mas para dar continuidade à assistência e facilitar a coleta de informações necessárias e, assim, prestar uma assistência efetiva e de qualidade. Faz-se necessário ver a vítima de forma holística, para compreender não só os danos físicos gerados pela violência, mas também aos danos psicológicos que se desenvolvem e o modo como são expressados (WOISKI, 2010).
O protagonismo do enfermeiro na Atenção Primária é de suma importância para fazer a detecção de casos de violência sexual. Portanto, a Estratégia de Saúde da Família (ESF), pela proximidade com a comunidade, constitui-se como ferramenta relevante para garantir os direitos de prevenção, promoção e recuperação da saúde das vítimas e suas famílias, por meio do acolhimento e de ações direcionadas com esses fins (ALGERI, 2006).
Conforme o exposto, o presente estudo objetivou discutir os principais diagnósticos e intervenções de enfermagem na atenção às pessoas vítimas de violência sexual.
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2. METODOLOGIATrata-se de um estudo originado a partir da vivência discente e docente junto ao Projeto de Extensão: “Importunação e abuso sexual, relacionamento abusivo e as interfaces com o sofrimento mental: implementação de ações preventivas e de cuidado”, vinculado ao Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí - UFPI, desenvolvido em duas escolas públicas estaduais, localizadas em Teresina, Piauí, desde Janeiro de 2019.
Participam do projeto alunos da graduação e pós-graduação scrito sensu em Enfermagem, e realizam atividades relacionadas à educação sexual direcionadas aos jovens escolares (adolescentes), abordando sobre o atendimento e prevenção ao abuso sexual em suas diferentes formas, estimulando o diálogo e um canal de escuta e acolhimento, além de orientações sobre os serviços que prestam ajudas especializadas, no âmbito legal e da saúde.
Assim, adveio esse estudo descritivo de cunho bibliográfico reflexivo, originado a partir da necessidade percebida durante as discussões ocorridas nas reuniões científicas do projeto, com vistas a sedimentar melhor o conhecimento dos integrantes do grupo sobre a temática. Para tanto, realizou-se leitura crítica na literatura priorizando a inclusão dos artigos que mais se aproximavam da temática, em esfera tanto nacional como internacional, e exclusão de trabalhos não relevantes ou repetições. A busca pelos artigos deu-se no período de junho a julho de 2020 em livros da área, bem como na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), uma rede de fontes de informação on-line para a distribuição de conhecimento científico e técnico em saúde, por ser livre e de fácil acesso.
Foram analisados 25 artigos que contemplavam uma abordagem restrita aos descritores utilizados, “Delitos Sexuais”, “Menores de Idade”, “Enfermagem”, “Saúde Mental”, “Processo de Enfermagem”. No entanto, após a implementação dos critérios de inclusão e exclusão, referiu-se por sua pertinência e especificidade apenas 10 artigos para a execução do estudo.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A violência tem prevalência elevada e é um problema de saúde pública que deve ser levado em consideração. Para que seja devidamente combatida e para que as vítimas desse tipo de crime sejam atendidas de forma integral, faz-se necessário um esforço comum entre equipe multiprofissional de saúde, serviços governamentais e setores sociais. Assim, pretende-se promover a segurança, os direitos humanos e o bem-estar através de políticas públicas
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engajadas com a população para a prevenção e combate desse crime (BRASIL, 2005).É importante frisar que muitos casos de violência sexual são identificados no setor de saúde, pois é onde a vítima se sente um pouco mais confortável para revelar ou dar indícios mais claros do que lhe ocorreu. Dessa forma, faz-se necessário que os profissionais estejam atentos a esses sinais, tenham uma postura ética e atenta para coletar as informações de forma mais empática e eficaz possível para que se possa prestar assistência continuada a essa vítima. E para que essa vítima se sinta confortável e segura no serviço de saúde, deve-se realizar um bom acolhimento, escuta ativa livre de juízos de valor e dar a garantia do sigilo das informações obtidas, seja no uso de instrumentos para a prática profissional, como também durante o trabalho em equipe (BRASIL, 2005).
Diante das competências já citadas e da relevância do enfermeiro no atentimento a essas vítimas, pode-se destacar que nos Estados Unidos e Canadá foram instituídos programas de Sexual Assault Nurse Examiners (SANE - Enfermeiras Examinadoras de Agressão Sexual) nos quais profissionais enfermeiros são especialistas em realizar toda a assistência à vítima de violência sexual, desde a coleta de exames a todo o planejamento e implementação da assistência, para promover a recuperação dessa vítima em todos os aspectos implicados por esse tipo de violência (HIGA et al., 2008).
Assim, o atendimento emergencial a essas vítimas deve ser extremamente planejado e capacitado para que todas as medidas assistenciais e legais sejam tomadas. Dessa forma, é válido ressaltar que quatro aspectos são indispensáveis para prestar esse tipo de atendimento: profissionais capacitados e proativos; equipe multiprofissional com tarefas e rotinas institucionais bem definidas; articulação da Rede de Atenção à Saúde com instituições não governamentais que se dedicam a essa causa; preenchimento mais eficaz e de forma mais completa de registros dos serviços de atendimento para que se possa melhorar a assistência prestada (DESLANDES, 1999).
O enfermeiro tem papel imprescindível na coleta de dados durante a assistência. O histórico de enfermagem permite conhecer o histórico pessoal e familiar do paciente, suas necessidades, sua realidade, os contextos em que está inserido. E quando se estabelece esse vínculo com a pessoa por meio do acolhimento, escuta ativa e qualificada, ela pode sentir-se a vontade para contar algum tipo de violência que vem sofrendo e que pode ser documentado pelo profissional em seus registros. Nesse sentido, pautado nessas informações colhidas, o profissional de enfermagem pode amparar melhor suas práticas profissionais para prestar assistência adequada a essa vítima (THOMAZINE et al., 2009).
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de abuso sexual, sumarizou-se os principais diagnósticos e intervenções relacionados ao tema, no Quadro 1.Quadro 1- Principais diagnósticos e intervenções de enfermagem.
DIAGNÓSTICOS INTERVENÇÕES
Síndrome do trauma de
estupro.
Apoio à Proteção contra abuso:
Encorajar a expressão adequada dos sentimentos sobre a situação passada ou crises traumáticas.
Monitorar presença de sinais e sintomas de abuso sexual.
Distúrbio na identidade pessoal.
Melhora na Identidade Pessoal:
Facilitar um ambiente e atividades que aumentem a autoestima. Ouvir com atenção a pessoa que começa a falar sobre os próprios
problemas.
Aconselhamento:
Auxiliar o paciente a listar e priorizar todas as alternativas possíveis a um problema.
Identificar todas as diferenças entre a visão do paciente acerca da situação e a da equipe de cuidados de saúde.
Ansiedade.
Redução da Ansiedade:
Identificar mudanças no nível de ansiedade. Administrar medicação para reduzir a ansiedade.
Ficar com o paciente e garantir sua segurança e proteção durante períodos de ansiedade.
Determinar a(s) substância(s) usada(s).
Resiliência prejudicada.
Melhora da autopercepção:
Encorajar o paciente a reconhecer e a discutir pensamentos e sentimentos. Ajudar o paciente a identificar uma fonte de motivação.
Verbalizar a negação que o paciente faz da realidade.
Promoção da capacidade de resiliência:
Ajudar os jovens a encarar a família como local para buscar conselhos e apoio.
Interação social prejudicada.
Melhora da Socialização:
Encorajar o paciente para grupo ou programa de habilidades interpessoais em que a compreensão das transações possa ser aumentada. Promover o compartilhamento de problemas comuns com os outros.
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Risco de Suicídio.
Prevenção de suicídio:
Agir para prevenir que o indivíduo lesione a si mesmo ou tire a própria vida, quando o contrato for contra danos a si mesmo ou em prol da
segurança.
Limitar o acesso à janela, a menos que trancada e à prova de arrombamento, conforme apropriado.
Observar, registrar e informar qualquer mudança no humor ou no comportamento capaz de significar aumento do risco de suicídio e documentar os resultados de checagens regulares de supervisão.
Regulação do humor prejudicada.
Aconselhamento sexual:
Discutir sobre o efeito da situação de doença/saúde na sexualidade. Encorajar o paciente a verbalizar medos e a fazer perguntas. Encaminhar o paciente para terapeuta sexual, conforme apropriado.
Padrão de sexualidade
ineficaz.
Controle do humor:
Encaminhar o paciente para avaliação e/ou tratamento de qualquer doença médica subjacente que possa contribuir para uma alteração do humor.
Providenciar ou encaminhar à psicoterapia.
Déficit no autocuidado para
higiene intima.
Controle de comportamento sexual:
Proporcionar aconselhamento, sempre que necessário, a paciente vítima de abuso sexual.
Encorajar a expressão adequada dos sentimentos sobre a situação passada ou crises traumáticas.
Oferecer educação sexual adequada ao nível de desenvolvimento.
Melhora no Autocuidado:
Determinar quantidade e tipo de assistência necessários. Providenciar os itens pessoais desejados.
Risco de relacionamento
ineficaz.
Melhora da Socialização:
Encorajar a participação em atividades de lembranças em grupo e/ou individuais.
Promover o compartilhamento de problemas comuns com os outros. Identificar fatores de risco associados a abuso doméstico.
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Pesar complicado.
Facilitação do processo de pesar
Auxiliar a identificar estratégias pessoais de enfrentamento. Identificar fontes de apoio comunitário.
Ajudar a identificar modificações necessárias no modo de vida.
Comunicação verbal prejudicada.
Melhora da Comunicação
Fazer as terapias de linguagem- discurso recomendadas durante as interações informais com o paciente.
Permitir que o paciente ouça a linguagem falada com frequência.
Enfrentamento ineficaz.
Melhora de Enfrentamento:
Investigar com o paciente métodos anteriormente usados para lidar com problemas da vida.
Encorajar o envolvimento da família.
Promover situações que encorajem a autonomia do paciente.
Risco de síndrome pós trauma.
Promoção da saúde mental:
Planejar com o paciente habilidades de enfrentamento adaptadas que possam ser empregadas para lidar com futuras crises.
Proporcionar orientação sobre formas de desenvolver e manter um(os) sistema(s) de apoio.
Monitorar a piora progressiva do estado físico e/ou emocional do indivíduo.
Distúrbio na imagem corporal.
Melhora da Imagem Corporal:
Ajudar o paciente a identificar partes de seu corpo com percepções positivas associadas a elas.
Determinar as expectativas do paciente quanto à imagem corporal com base no estágio de desenvolvimento.
Baixa autoestima situacional.
Aumento da segurança:
Criar uma atmosfera de aceitação e sem julgamentos.
Risco de dignidade humana comprometida.
Orientação antecipada:
Oferecer confirmação positiva do valor pessoal.
Revisar com o paciente técnicas necessárias para enfrentar uma crise desenvolvimental ou situacional iminente, conforme apropriado. Fonte: Elaborado com base na NANDA.
Importante destacar, ainda, que durante a assistência, os enfermeiros podem identificar sinais e sintomas mais frequentes em decorrência dessa violência: dores de cabeça, distúrbios