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6 – Hugo Lindner 12.7 – Olavo Klein

7 – Anna Lindner [S: Rot] 12.7.2 – Fátima Klein [S: Lindner] 67.7 – Fátima Lindner [Klein]

Fátima Lindner e Fátima Klein eram a mesma pessoa, em tempos distintos, ou pessoas diferentes, no movimento territorial que o tempo assumia em São Martinho. Ainda conhecemos pouco de sua história antes de se tornar uma Klein. E a história, essa bem específica que constitui os tempos em São Martinho, parece começar mesmo na dor, na mais dramática das narrativas de sofrimento da casa de Fátima. Era sobre a forte tempestade que atingiu a Vila Alta no inverno de 1982 que seu Nelson Lindner me falava para contar-me sobre aquelas terras, o início de tudo. O vendaval, sobre qual Fátima já havia nos contado no Capítulo 1, não havia deixado sequer uma parede em pé da casa que, de madeira e mais antiga, seu Nelson havia construído nas terras de sua falecida esposa, Anna Lindner, de descendência Rot. A casa, erguida ainda em 1961, ficava no ponto mais distante da Vila Alta, nas terras para depois do arroio, onde não havia pontes ou caminhos mais estreitos quando sob chuva. Nada muito problemático, em dias comuns de chuva. Mas aquele não havia sido um dia comum. Era um domingo, um desses em que seu Nelson havia passado quase todo o tempo fora de casa, no salão. Havia discutido com dona Anna ainda mais cedo, e até anoitecer ainda não estava em casa. Quando chegou, a chuva já caía. De lá para a destruição foi como num piscar de olhos, Fátima enfatizava. De repente, ela e seus então onze irmãos – a mais nova dentre todos nasceria ainda depois da tempestade – estavam já do lado de fora da casa, como se, naquela altura, houvesse dentro ou fora. As paredes haviam voado, o fogão a lenha havia sido arrastado, o teto havia virado chão. Nada havia de ser feito se não esperar até o próximo dia pela ajuda, que não havia como chegar com a alta do rio (caderno de campo, 06/04/2016).

Seu Nelson, fazendo o que havia de se fazer, juntou tudo o que tinha e, por algum tempo, instalou-se na casa de seus sogros, nas terras dos Rot. Até então, seu Nelson já vivia naquelas terras, havia sido levado para lá por sua esposa. Fátima, provavelmente, seria mais Rot do que Lindner. Mas seu Nelson não queria mais viver ali, para depois do arroio. Seu cunhado, no entanto, havia herdado terras mais distantes, antes do arroio. Ofereceu-lhe parte dessas terras, dois terrenos. Isso, se não lhe falhasse a memória, deveria ser 25 ou 26 de junho. Com o dinheiro que havia guardado durante os anos e com mais alguma ajuda de seus sogros, juntou “650 pila [650.000 cruzeiros63]” e foi até a Casa

Gruber, loja de materiais de construção dos parentes de Mauro Gruber, em Germana. Antes do Dia do Colono, comemorado em julho nas comunidades do município de São

63 Moeda em circulação entre 1970 e 1984 no Brasil, adotada no governo militar de Emílio Médici.

Martinho, a nova casa estava de pé, casa de material (alvenaria). Ali então, passaria a se constituir o cotidiano de suas terras, terras curtas, mas suas. Ali, Fátima acabou sendo mais Lindner que Rot, ajudava na roça, ainda que a roça começava nessas novas terras no novo regime das fábricas, em meio período. Seu Nelson, percebendo que o retorno financeiro já não era o mesmo comparado a seus antigos 12 hectares, partiu para a fábrica, para a Peter, para ser vigia. Após três anos, já estava na pedreira municipal, onde ficou até se aposentar e indicar seu futuro genro para o cargo, Olavo Klein.

Três anos após a tempestade, Fátima estava também em uma fábrica, na Friedrich, que havia acabado de ocupar a planta industrial deixada pela Peter. Ela tinha 14 anos de idade. Passava a fazer parte de seus trajetos cotidianos quatro longas caminhadas entre São Martinho e Vila Alta. Muitas vezes descalça, a rotina pouco se alterava no inverno. Fátima estava diariamente em sua função na indústria calçadista, ainda que poucos soubessem que entre seus pés e o gelo, houvessem apenas as queimaduras do frio. E assim, como passaria a ser comum nas comunidades da Encosta da Serra, ela partia para a roça, enquanto sua irmã mais nova se encarregava do jantar, como o fazia até o dia de nossa visita. E na nossa visita, Fátima falava sobre o sofrimento desses anos como poucas vezes havia feito. Falava sobre um tempo que já fora seu, e por isso mesmo havia virado

sofrimento, narrativa. Porque então, na mesma dor que um dia fundara suas terras de guria, outras haviam se formado. Fátima Lindner passava vagarosamente a ser Fátima

Klein, das terras dos Klein. Para cima, na Vila Alta, havia ficado um tempo agora qualificável em palavras, enquanto que, a sua volta, estava aqueles que lhe seriam mais próximos, os Klein. Ela era uma Klein. Guardado no tempo, estava agora não mais suas

terras, essas que no cotidiano a aproximara de Fátima Silva, mas sua casa, com a qual

seus filhos teriam uma relação parecida com a que ela mesma tivera com a casa de sua mãe. Ela voltava, perpassava o tempo como poucas ao narrar esses anos judiados. Mas seus filhos haveriam de ter um dia sua própria casa dos tempos de guri, aquela que era seu cotidiano.

Movimento de tempo, movimento de terras: o parentesco, em São Martinho, distinguia muito pouco o que era um e o que era outro. Não à toa o circuito de visitas que acompanhamos na Vila dos Klein era fundamental para manter próximos aqueles e aquelas que eram seus descendentes. Estreitar o tempo, encurtar a demora. Partilhar a dor no cotidiano, narrar o sofrimento de outros tempos. É possível ainda inferir, desse modo, uma tendência no que toca o estabelecimento do parentesco formado pelas terras. Aqui,

podemos comparar de início o caso dos Klein com o caso Lindner e Rot, mas esses casos ainda serão cotejados com outros. Para esse exercício, levei em conta a repetição de duas outras situações que podem ser agora analisadas sob um novo ângulo: 1) em primeiro lugar, está a repetição de casos em que, buscando se referir a outra pessoa conhecida, um morador ou moradora lançava mão de seu sobrenome, como “o Gruber Mauro”, “o Klein Olavo”, o “Strauss Arlindo” e assim por diante. Apesar de parecer uma construção despretensiosa, ao informar o sobrenome como a principal referência relacional, vemos se formar o grupo de parentesco próximo, um lugar, já que todos os sobrenomes carregavam consigo uma vila ou uma comunidade, para depois termos acesso ao referencial singular, que era nesse sentido um referencial aberto. 2) Mas, além disso e em segundo lugar, estava o fato de não haver uniões matrimoniais entre duas pessoas da mesma comunidade, assim como entre duas pessoas da mesma vila. Para além da consanguinidade ou da descendência, as terras proporcionavam, como vimos acima, uma relação de cognação que parecia inibir as uniões mesmo de pessoas não consanguíneas. Isso parecia se estender para as vilas próximas, já que a relação era igualmente de proximidade, ainda que não oferecesse os laços de parentesco tal como as terras partilhadas. Nesse sentido, as vilas não parecem oferecer um caso claro de siblings, o que implicaria uma descendência agnática ou uterina, mas, se me for permitido o neologismo, de siblands, de uma lateralidade e de uma pertença formada pelas terras cognáticas, porque são inevitavelmente dependentes das terras de família para se fazer efetiva.