3 A EXPANSÃO DO ESPAÇO URBANO DE VITÓRIA DA CONQUIS-
4.3 A Dialética entre Valor de Uso e Valor de Troca
Outra discussão que merece atenção, por ter sido bastante comentada no decorrer das entrevistas e que, de certa forma, justifica o grande número de residências próprias, conforme pode ser visto na figura 18, é o fato de que algumas pessoas que participaram da fase inicial de “ocupação” da área de estudo, na década de 1980, adquiriram os terrenos apenas para vendê-los, conforme relatado por alguns moradores entrevistados, o que confirma, a dialética entre o valor de uso e valor de troca no bairro.
A principal razão apresentada para justificar e legitimar a “ocupação” do Bairro Santa Cruz, foi a de que a maioria dos moradores, por não ter condições de pagar seus respectivos aluguéis, foi em busca da realização do “sonho da casa própria”. Esse argumento, que serviu para deslegitimar a ilegalidade decretada pelo poder público, teve efeito contrário quando da implantação do valor de troca e da respectiva venda dos primeiros terrenos no bairro. Assim sendo, após o momento em que alguns terrenos foram ocupados para ser vendidos, ou trocados por outros terrenos localizados em áreas mais distantes, a necessidade de moradia associada ao valor de uso, à desejabilidade, passou a ser subjugada pelo valor de troca.
Numa linguagem mais simplificada, o que parecia ter a função de valor de uso, subjuga-se a ter mera função de valor de troca.
Alguns moradores quis invadir aqui só para depois vender o terreno. Muitos vieram porque tinha necessidade mesmo. Esses ficaram e construíram suas casas. Mas, como a área era grande, teve alguns que invadiram os terrenos na área de cima (mais distante da Lagoa), depois vendeu. Aí foram, invadiram outros terrenos, na área da baixada (mais próximo da Lagoa), e com o dinheiro da venda do terreno, construíram suas casas. (Srª. E. P, moradora do caminho 5, Bairro Santa Cruz), grifos nossos.
A terra como mercadoria, tão discutida entre as Ciências Sociais, sobretudo, entre os geógrafos, se consolida não só entre aqueles que pagam por ela, mas, também, por aqueles que a ocupam “ilegalmente” para depois vendê-la.
Minha mãe comprou o terreno na mão de um invasor. Quer dizer, ele invadiu e depois vendeu. Para minha mãe, que morava de aluguel, foi uma oportunidade. Muita gente pegou os terrenos aqui só para venderem, não pegaram propriamente para construir. Muitos que moram aqui hoje não foram os invasores e sim compradores das mãos de terceiros. Assim foi formando nosso bairro. Hoje não se tem áreas vazias. (Sr. G. S, representante da Associação de Moradores do caminho 2, Bairro Santa Cruz).
Nesse ponto, destaca-se a forma pela qual a terra é comercializada, segundo os interesses de cada um. O valor de troca da terra, assim como das mercadorias, se concretiza não somente entre aqueles que podem pagar por ela, mas, também, por aqueles que a ocupam, num primeiro momento, demonstrando ser o valor de uso a única finalidade, mas que, em momentos posteriores, ao procederem a venda dessa terra, revelam o imperativo de sua finalidade: o valor de troca. Isso seria um fator considerado normal, no atual sistema capitalista, se não fosse a forma “ilegal”, embora ideológica, pela qual a terra foi adquirida. O depoimento do (Sr. J. S, morador do caminho 4, Bairro Santa Cruz), a seguir, confirma tal práxis.
O que eu posso afirmar é que muitas pessoas que invadiram essa área, já tinham casas próprias, mas vieram com a intenção de pegar os terrenos e repassar para terceiros, como forma de lucro. Teve gente que invadiu mais de um terreno, depois vendeu tudo. No meu caso, eu esperei a regularização provisória da URBIS. Não deixou de ser uma invasão. O que importa é que hoje o bairro já melhorou muito em vista do que era. Aqui moram pessoas civilizadas.
Os discursos de alguns dos entrevistados mostram, às vezes, certas contradições. Alguns moradores antigos justificam a compra do terreno por vias legais, pelo simples fato de não terem participado da “invasão”. Mas, o fato de se
pagar por um terreno “invadido” não gera sua legalidade, pelo contrário, aumenta, potencializa a ilegalidade. Todavia, como defender a legalidade da terra urbana numa sociedade representada em sua maioria pela população de baixo poder aquisitivo? Essa análise se mostra, ao menos, paradoxal.
Basta uma caminhada pelo Bairro Santa Cruz para perceber a boa estrutura apresentada por algumas casas. No decorrer dos anos, alguns moradores investiram em mudanças no imóvel simplesmente para as suas satisfações pessoais, e/ou para a valorização dos mesmos mas, segundo eles, o problema é vendê-lo sem a
escritura. Nesse caso, o imóvel tem perda de valor17.
Em meio a essa discussão, é importante ressaltar o que aponta a Lei de Nº 6.766/79, associada ao Parcelamento do Solo Urbano, em seu Artigo 50º, sobre o processo de uso e ocupação do solo por vias consideradas, pela administração pública, não legalizadas:
- dar início de qualquer modo, ou efetuar loteamento ou desmembramento do solo para fins urbanos, sem autorização do órgão público competente [...];
- dar início de qualquer modo, ou efetuar loteamentos ou desmembramentos do solo para fins urbanos sem observâncias das determinações constantes do ato administrativo de licença;
- fazer, ou veicular em proposta, contrato, prospecto ou comunicação ao público ou a interessados, afirmação falsa sobre a legalidade de loteamentos ou desmembramentos do solo para fins urbanos, ou ocultar fraudulentamente fato a ele relativo.
Parágrafo Único – O crime definido neste artigo é qualificado se cometido:
- por meio a venda, promessa de venda, reservas de lote ou quaisquer outros instrumentos que manifestem a intenção de vender lote em loteamento ou desmembramento não-registrado no Registro de imóveis competente;
- com inexistência de título legítimo de propriedade do imóvel loteado ou desmembrado, ou com omissão fraudulenta de fato a ele relativo, se o fato não constituir crime mais greve. (BRASÍLIA, 1979, p. 13). Como qualificar, então, os moradores que se apropriaram de determinados terrenos para depois vendê-los? Quais são os ônus atribuídos àqueles que, cientes da origem dita clandestina de ocupação, compraram determinados terrenos sem
17
Do início da apropriação dos terrenos que correspondem ao Bairro Santa Cruz até os dias atuais muitos imóveis passaram por reformas e ampliações. No Bairro é comum encontrar casas que se transformaram em sobrados de até três pavimentos. Mas, muitos moradores ainda temiam por não receberem a escritura de suas casas após terem feito investimentos nas mesmas.
escrituras? As respostas podem ser variadas, mas, o que ocorre, geralmente, é que não há multa por parte da administração pública, salvo nos casos de áreas que após serem “apropriadas” se tornam muito valorizadas, o que causa impacto.
Por outro lado, favoravelmente para aqueles que se apropriam de terrenos clandestinos, ou mesmo para os que compram tais terrenos, na maioria das vezes, mais cedo ou mais tarde, haverá o reconhecimento da legalidade desses terrenos por parte do poder público. Isso implica dizer que a regularização fundiária passa a
ser uma questão de tempo, que pode variar de acordo com as pressões dos
moradores.
Em entrevista com o então assessor de gabinete da Secretaria de Serviços Públicos, e também, Ex-Presidente da Associação dos Moradores do Bairro Santa Cruz, Sr. Rivelito Teixeira, foi relatado que no mandato do então Prefeito de Vitória da Conquista, Sr. Murilo Mármore, entre 1989 e 1992, foi reconhecido, em sessão realizada na Câmara Municipal de Vereadores, sob a Lei de Nº. 675/92, o direito de uso das residências do Bairro Santa Cruz. Porém, as residências reconhecidas foram somente as localizadas nas proximidades do Bairro Brasil e dos conjuntos habitacionais, Urbis II e III. O mesmo não ocorreu nas residências localizadas nas proximidades da Lagoa das Bateias.
Foi mencionado, durante entrevista concedida pelo Coordenador de Urbanismo e da Secretaria de Transporte, Trânsito e Infra-Estrutura Urbana – SINTRANS – o Srº. Cláudio Gomes do Nascimento (2008), que uma das prioridades da atual gestão pública administrativa de Vitória da Conquista é conceder a regularização dos imóveis localizados no Bairro Santa Cruz, cujos trâmites legais já estavam em fase final de sistematização. Isso confirma a força da luta de classe na pressão sobre o poder público em defesa de seus interesses e direitos. No caso particular da área de estudo, a legalidade e a respectiva regularização dos imóveis, concedidas pelo poder público, desconsideraram a forma pela qual os terrenos foram “apropriados”.
Ética e moralmente, os fundamentos nas questões políticas e jurídicas ou de qualquer natureza não têm respaldo para inibir, em alguns casos, o desejo do habitar sob a premissa da ilegalidade. À revelia de pretender a legitimação da “ilegalidade”, entende-se que a segregação socioespacial é resultado do intrínseco processo de reprodução da sociedade capitalista, portanto, o que também se
enquadra sob a mesma premissa de ilegalidade, além da premissa de injustiça amplamente qualificada.
Não há como negar, as periferias pobres e segregadas são contundentes faces da realidade urbana brasileira. A legalidade dos diversos tipos de “ocupação” que ocorrem nessas periferias ainda não é real, depende da “boa” ou “má” vontade do poder público.
5 O PROCESSO DE REQUALIFICAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS, GESTÃO E