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A dialogia do uno e do múltiplo no Górgias

No documento Um estudo sobre a dialéctica em Platão (páginas 198-200)

A dialéctica é o movimento da compreensão articulada do uno e do múltiplo eidético correspondente e é esse mesmo movimento que deve ser "transposto" para a arte do diálogo quando é feito de forma dialéctica.

Tal exemplo da passagem do múltiplo ao uno e do uno ao múltiplo parece poder ser encontrado com alguma clareza do diálogo Górgias.

Neste diálogo Sócrates encontra-se em confronto com Górgias e os seus discípulos. A razão da controvérsia começa pela tentativa de procurar saber o que é a retórica.

A pergunta pela definição da retórica não é iniciada de modo inocente, mas é colocada já de um ponto de vista dialéctico.

Quando Sócrates afirma que quer falar com Górgias para saber o que é a retórica, não se refere a esta pelo seu próprio nome, mas refere-se antes àquela a partir do seu género, denominando-a de arte (τέχνη)161.

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Para uma discussão acerca do sentido geral, para a obra platónica, da comunhão entre as ideias que surge nestes passos do Fédon, ver: A. P. MESQUITA, op cit., pp.269-280.

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Tal denominação não é inocente, porque, de seguida, inicia-se uma discussão sobre o nome específico da arte162, que, como já foi dito, é a retórica. E no fim de ter sido dado o seu nome específico, trata-se então de procurar conhecer aquilo em que consiste a retórica, isto é, trata-se de procurar saber qual a sua diferença específica ou essencial no interior do género de arte. Assim, a retórica é primeiramente captada na sua natureza enquanto arte, e depois de ter sido delimitada a sua natureza163, trata-se agora procurar saber qual a sua diferença específica dentro das artes.

A procura da especificidade da retórica passa pela especificação do seu objecto, ou seja, passa por procurar saber a qual dos entes ela se dedica (περὶ τί τῶν ὄντων).

Górgias responde que a arte da retórica é uma arte relativa aos discursos (περὶ λόγους). Mas, mais uma vez, esta resposta não basta, porque é demasiado grande aquilo que Górgias refere.

Não podendo haver retórica que não se dê por via do discurso, Sócrates não pode recorrer aqui a um tipo de contra-exemplo que demonstre que Górgias falhou completamente a determinação da retórica, isto é, que demonstre que há retórica sem discurso.

Górgias acerta na determinação do objecto da retórica, mas falha na sua medida, já que há outros tipos de artes que também podem dedicar-se a discursos relativos àquilo que é próprio da sua arte.

Por exemplo, a medicina pode fazer discursos relativos à doença e a ginástica pode fazer discursos relativos ao corpo, sendo que nenhuma arte pode substituir estas nos discursos sobre esses assuntos. Assim, afirmar que retórica trata dos discursos e não especificar o tipo de discursos é dar uma medida demasiado grande e que não assenta na retórica, pois, o objectivo é encontrar o que é próprio à retórica, isto é, encontrá-la na sua igualdade apenas consigo mesma.

Finalmente, em 452d, Górgias consegue captar uma diferença própria da retórica que é a persuasão (Πειθώ). É a partir da "persuasão" que se inicia no Górgias 454 uma divisão dicotómica da persuasão nas suas espécies.

A persuasão é dividida em crença (πίστις) e em ciência (ἐπιστήμη), ou seja, pode-se persuadir pela ciência e pela provocação de crenças. As crenças dividem-se em verdadeiras e em falsas, enquanto que a ciência é sempre verdadeira.

161 Gógias 447c 162 448b-449a 163

Veja-se como em 457c Sócrates fala acerca da importância de limitar (διορίζω) o tema de uma conversa.

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Górgias acaba por sugerir que a retórica pertence à parte da persuasão que se executa pela crença. Resposta que é aceite por Sócrates.

Não interessa aqui discutir se esta divisão é uma divisão ao meio de toda a persuasão ou se é uma divisão ao meio de uma espécie ou sub-espécie da persuasão que não é aqui explicitada. O que importa nesta divisão da persuasão é o seu uso instrumental para procurar corrigir Górgias relativamente ao facto de que a persuasão é algo único relativamente à retórica, já que tal não é verdade.

Por exemplo, um matemático ou um médico podem persuadir alguém, com o seu

saber, acerca de algo sobre o número ou sobre a doença, respectivamente. A retórica,

por outro lado, quando persuade, não o faz enquanto detentora de toda persuasão possível, mas persuade suscitando crenças em quem quer persuadir, não interessando se as crenças que suscita são verdadeiras ou falsas, interessando apenas que o fim com que se faz a persuasão seja atingido (456b-457c).

Com estes exemplos do Górgias procura-se mostrar que o dialéctico, neste caso Sócrates, é aquele que tem sempre a noção de limite, de medida e, consequentemente, da quantidade, dos assuntos em discussão. Sócrates demonstra ao longo desta discussão do Górgias que é o único que tem a noção de que aquilo que foi dito é demasiado

grande para o que se pretende atingir, necessitando de delimitação exacta, já que pode

haver em jogo um variado número de coisas do mesmo género, espécie, ou sub-espécie que é necessário distinguir e não misturar.

Neste sentido, o dialéctico é aquele que tem a noção exacta relativamente à medida e limites das coisas, uma vez que é aquele que consegue perceber se é necessário especificar mais, ou se já se atingiu a medida certa do assunto a definir, isto é, se já se enumerou o número exacto de diferenças específicas necessárias e suficientes para se definir algo.

Mas não é só no processo de especificação que o dialéctico é perito, já que também é perito em descobrir qual a limitação da natureza da coisa no seu sentido genérico.

Em 462c, Sócrates afirma que, afinal, a retórica não é uma arte, não é algo que implica saber, mas é antes uma certo experiência (ἐμπειρία) que se adquire pela prática, sendo que Polo acaba por não ter resposta para tal sugestão de Sócrates.

O dialéctico, numa discussão, é aquele que faz a passagem do múltiplo ao uno ou do uno ao múltiplo sempre que a análise do objecto em discussão assim o exigir. Daí que Platão afirme, por exemplo, nas Leis (963a-964a) que quando alguém diz que

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