2. A CRIATIVIDADE NA PRODUÇÃO TEXTUAL
2.2 Dialogismo: o texto no processo de interação
Nesta pesquisa, o texto é o objeto de estudo e será concebido como o
resultado do processo de interação entre locutor (aluno) e interlocutor (professor, pai, escola,
amigos e outros).
Tendo em vista o processo de interação verbal em que o texto se dá, algumas
concepções de Bakhtin serão elencadas nesta pesquisa. Faremos, primeiramente, uma
discussão do que se entende por processo de interação verbal, para só então, entrarmos no
universo do dialogismo e da polifonia, temas que têm como precursor o filósofo russo, ao
tomar contato com os personagens dos romances de Dostoiéviski.
Bakhtin, em Marxismo e Filosofia da Linguagem (2002), afirma que a
palavra varia de acordo com o interlocutor no processo de enunciação, ou seja, o locutor irá
adequar seu discurso de acordo com a familiaridade, a formalidade que o ato da enunciação
requer. Por isso, o interlocutor tem grande importância, já que a palavra não só procede de
alguém, mas dirige-se para alguém. “A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e
os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu
interlocutor” (BAKHTIN, 2002, p. 113).
Não nos enganemos, portanto, achando que o locutor tem pleno domínio de
suas palavras, ao direcioná-la a um interlocutor. Ele exerce um pseudocontrole de seu
discurso, se é que assim podemos nos referir ao fato de que até mesmo a atividade mental do
locutor, segundo Bakhtin, está submetida ao contexto social, o qual direciona a enunciação
aos interlocutores concretos.
Tanto em Marxismo e Filosofia da linguagem (2002) quanto em A Estética
da Criação Verbal (1997), Bakhtin defende o papel primordial que o contexto histórico-
social exerce na formação até mesmo da consciência de um indivíduo. Na primeira obra, fica
claro que, segundo o autor, o conteúdo da consciência é completamente “ideológico” e
determinado por questões sociológicas. Tal proposição pode ser completada com a idéia que
defende, na segunda obra mencionada, ao expor que até mesmo o nosso pensamento “nasce e
forma-se em interação e em luta com o pensamento alheio [...]” (BAKHTIN, 1997, p.317).
Nesse sentido, podemos confirmar que, tanto a palavra quanto a utilização
da língua só podem ser compreendidas sob os valores ideológicos dos quais fazem parte.
Compreender o contexto social, bem como os valores ideológicos da escola,
são de suma relevância para constituição desta análise. Os pressupostos de Bakhtin (1997,
p.313) irão, de certo modo, confirmar alguns dados presentes nas produções textuais dos
locutores em questão. Compartilhamos do pensamento desse autor sob vários aspectos,
principalmente quando diz:
A época, o meio social, o micromundo, o da família, dos amigos e conhecidos, dos colegas, que vê o homem crescer e viver, sempre possui seus enunciados que servem de norma, dão o tom; são obras científicas, literárias, nas quais as pessoas se apóiam e às quais se referem, que são citadas, imitadas, servem de inspiração. Toda época, em cada uma das esferas da vida e da realidade, tem tradições acatadas que se expressam e se preservam sob o invólucro das palavras, das obras, dos enunciados, das locuções [...].
É justamente esse conjunto de fatores que irá constituir o objeto de estudo
deste trabalho. Não podemos analisar as produções textuais dos locutores isoladas do seu
contexto, somente sob o prisma da lingüística estrutural. Isso não significa que aspectos
semânticos ou sintáticos da língua não serão utilizados eventualmente, na análise deste
corpus. Na verdade, deu-se primazia aos aspectos que consideram a linguagem como
processo de interação verbal, de modo que as condições em que o texto se dá serão
valorizadas e compreendidas, de acordo com certas terminologias e teorias que não
desprezam o contexto histórico-social em que tanto locutor quanto interlocutor estão
inseridos.
Vale aqui fazermos uma digressão, a fim de justificarmos a importância do
dialogismo na interpretação dos enunciados. Ao exercermos a função de ensinar a tão árdua
tarefa de produção de texto, tanto para alunos do ensino fundamental quanto para os de
ensino médio, temos notado que os professores apresentam uma recorrente insatisfação
quanto ao resultado daquilo que ensinam para os seus alunos. É muito comum os professores
avaliadores desabafarem quanto às suas angústias no que diz respeito às “redações”.
Uma das mais freqüentes reclamações feitas pelos professores consiste no
fato de que os textos dos alunos não passam de meras repetições de informações, de
reprodução de clichês e do senso comum.
Percebemos de fato que tudo isso se dá. Mas se os alunos vivem numa
sociedade - aqui consideramos família, escola, amigos - e submerso nas águas dos meios de
comunicação, como exigir que sejam diferentes do que são? E como cobrar dos produtores de
textos algo que vai além daquilo que conseguem elaborar?
Encontramos parte da resposta que precisávamos para compreender melhor
a produção de um locutor tão imaturo ainda, nos dizeres de Bakhtin.
Isso não implica que temos nos conformado com a baixa qualidade dos
escritos de nossos alunos, ainda em fase de amadurecimento intelectual. Mas, agora,
podemos compreender melhor que os professores de produção textual não têm a
responsabilidade de cobrar dos seus alunos “escritores” textos que sejam tão originais e
inovadores. Encontramos uma justificativa para esse raciocínio em Bakhtin (2002). O
filósofo, ao dizer que uma das formas mais relevantes da interação é o diálogo, e entende
diálogo não só o ato de proferir palavras oralmente, mas todo e qualquer tipo de
“comunicação verbal”, propõe-nos que interpretemos os textos dos alunos numa relação de
interação.
Encarar com uma certa naturalidade e com menor rigor o fato de os textos
apresentarem outros discursos, ou seja, outras vozes, é o cerne desta questão. Pois Bakhtin
(1997, p.316), há aproximadamente três décadas, já pronunciava
Os enunciados não são indiferentes uns aos outros nem são auto- suficientes; conhecem-se uns aos outros, refletem-se mutuamente. São precisamente esses reflexos recíprocos que lhes determinam o caráter. O enunciado está repleto dos ecos e lembranças de outros enunciados, aos quais está vinculado no interior de uma esfera comum da comunicação verbal.