• Nenhum resultado encontrado

4.2 DIALOGUE/THE SHELL WAS OPEN (REPRISE)

4.2.2 Dialogue

A peça inicia com um motivo que terá grande importância em seus momentos posteriores. Trata-se de um material divergente apresentado por surdo e caixa clara. Chamarei esse motivo de M1.

Figura 25 - motivo inicial (M1) de Dialogue/Reprise. Mais tarde ele terá uma importância fundamental para a obra. O motivo é tocado por surdo e caixa clara

Fonte: o autor

A importância de M1 se deve justamente ao caráter introdutório que assume na obra, sendo muitas vezes associado a mudanças de seção ou apresentação de novos materiais. Além disso, ao longo da composição esse motivo sofre processos de transformação, seja nos instrumentos que o apresenta originalmente quanto em instrumentos diversos. M1 também assume um papel de grande importância na coda, o que acaba por defini-lo, ao mesmo tempo, como o primeiro e o último evento ouvido nessa composição.

M1 abre espaço para uma seção introdutória que é construída através de diversas camadas. Cada uma delas apresenta um tipo específico de material, todos eles provenientes dos materiais de reabertura. A primeira camada é formada por clarinete e flauta, que tocam, em ritmo rápido, as notas do conteúdo melódico retirado do tema principal. Os dois instrumentos tocam breves frases que se encontram em retrógrado uma em relação à outra, rítmica e melodicamente. A segunda camada é formada apenas por vibrafone, que toca M1 (e variações) com elementos harmônicos retirados do tema principal, sendo assim, uma mistura entre um material divergente e um material de reabertura. A terceira camada é tocada pelo piano, que apresenta um ritmo que é constantemente repetido, havendo variação apenas no eixo harmônico, baseado no tema principal. A quarta camada é composta pela apresentação das quatro primeiras notas do tema principal, sem os cromatismos adicionados na reabertura. Essas notas são repetidas até o final da seção pelo violino, que as toca em harmônicos e em um padrão rítmico sem variações. A última camada, que apresenta o violoncelo como único elemento, é construída de maneira similar à anterior, pois também apresenta um padrão rítmico repetitivo que é preenchido pelas notas do conteúdo melódico construído a partir do

tema principal. Todas essas camadas são formadas por procedimentos que são repetidos

incessantemente, mas que aos poucos vão sendo abandonados para a entrada da voz em [16]. A voz aguda marca o início de uma nova seção, construída exclusivamente ao redor do texto. O conjunto instrumental muitas vezes é silenciado para que a voz possa apresentar o texto sem interferências, ou ainda pontuam as palavras que estão sendo cantadas. Um exemplo disso ocorre em [20], quando se ouve a primeira citação à Josquin, tocada por violino e violoncelo. Aqui a Missa Pange Lingua é apresentada de maneira indefinida, pois algumas de suas notas contrariam o conjunto de alturas do tema principal, que são tocadas por clarinete e flauta. Além disso, os instrumentos de corda soam ao mesmo tempo em pp com surdina, tornando a audição dessa citação ainda mais difícil. No entanto, ela assume, já nesse momento da obra, a função que terá na sua segunda aparição, ou seja, a representação das minhas referências composicionais. Reforçando essa ideia, a Pange Lingua aparecerá sempre associada à frase “if I have seen further it is by standing on the shoulders of giants”.

Além do texto sendo reforçado pelos instrumentos, a própria voz foi pensada a partir do conteúdo semântico da música. Para isso, utilizo muitas vezes um procedimento de madrigalismo, seja para afirmar ou negar o sentido das palavras. Em [34]-[35] é cantada a frase “you will never be a giant”, que é representada através do salto de sétima descendente (Mi-Fá) em [35] sobre as duas últimas palavras da frase. Aqui a palavra “giant” é apresentada na nota Fá, portanto, a nota mais grave desse salto, de maneira a contradizer o sentido da

palavra, ao mesmo tempo em que, pela contradição, reforça o sentido geral da frase. Alguns compassos depois, a frase “you are bound to oblivion” é repetida duas vezes, sendo somada à segunda repetição a indicação perdendosi justamente na palavra “oblivion”. Outros procedimentos similares são utilizados diversas vezes ao longo da primeira parte da composição.

A partir de [48] até [61] é tocada uma versão variada e completa da seção introdutória formada por diferentes camadas (em [32] há uma repetição resumida dessa seção). Os materiais são reexpostos sem variação, mas são apresentados por instrumentos diversos: o duo clarinete e flauta troca de lugar com violino e violoncelo, respectivamente. Essa recapitulação tem como propósito a introdução da seção B de Dialogue, que marca o início da resposta à primeira parte do texto com a palavra “megaloniac”. A troca de ponto de vista nesse diálogo, demonstrada através do texto, é reforçada pela utilização do vibrafone em dueto com a voz. Essa característica é mantida até o final da seção, em [83], quando a voz aguda se cala para dar lugar à segunda citação do Kyrie.

O movimento que eventualmente encerra a primeira grande parte da obra e apresenta a nova citação da peça de Josquin (compassos [76]-[83]) é caracterizado por uma utilização cada vez menor dos cromatismos adicionados ao tema principal. Dessa maneira, Dialogue se aproxima aos poucos da tonalidade de Mi Menor, que em Reprise se torna predominante, inclusive havendo a utilização de uma armadura de clave.

O final de Dialogue é marcado pelo início da citação integral do primeiro Kyrie da

Missa Pange Lingua. Aqui inseri como possibilidade aos instrumentistas que, ao invés de

tocarem a obra de Josquin, a cantassem, desde que a voz aguda fora do palco não o fizesse. Essa condição foi imposta para preservar a carga dramática de se ouvir a voz pela primeira vez sem amplificação e com o cantor em cima do palco (em [99] há a indicação “subir ao palco”). Vejo a citação à Josquin como uma ponte entre Dialogue e Reprise, sendo, portanto, uma seção autônoma que serve de conexão entre as duas grandes partes da música.

Documentos relacionados