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Capitulo VI – Os técnicos burocratas de rua: a percepção sobre o pobre e a pobreza

6.2 Diante do pobre: entre o antes e o depois

Na discussão sobre processos e políticas públicas, Vaistsman et Paes-Sousa (2011) argumentam que, no trabalho articulado, a cooperação e confiança, pressupõem, dentre outras coisas, que as pessoas acreditem na relevância daquilo que estão implementando, ou seja, significa a legitimidade e adesão dos membros da organização, os trabalhadores.

entrevistada, faz parte da rotina de deslocamento dos técnicos burocratas de rua nas visitas de monitoramento e atendimentos as famílias vulneráveis e “pobres”. Esse exemplo demonstra o quanto as especificidades regionais não podem ser desconsideradas na constituição das políticas públicas. Por curiosidade, um departamento da assistência do estado fez os cálculos dos custos de deslocamento que um município realiza dentro de seu território para ir até as famílias realizar visita domiciliar e/ou acompanhamento familiar e chegou à conclusão de que os recursos, mesmo agregando o cofinanciamento federal, não cobriam, minimamente, o custo necessário para o deslocamento. Esse é outro dado que deve ser lavado em consideração.

Conforme observado em campo, nem sempre foi possível verificar a credibilidade ou identificação dos técnicos com a atividade desenvolvida, de maneira que trabalhar com os pobres causa várias percepções aos burocratas de rua. Nesse sentido, a primeira demarcação analítica relevante foi observar que o olhar que esses sujeitos têm sobre o pobre e a pobreza está focado num processo de transição temporal entre o antes e o depois.

A opinião sobre os pobres e a pobreza na experiência dos técnicos segue uma demarcação temporal diretamente relacionada à sua prática profissional. O contato profissional com os “pobres” e suas problemáticas é o que vai estruturar a percepção.

Antigamente eu tinha uma visão bem distorcida, até mesmo da assistência como um todo, principalmente do Programa Bolsa Família. Eu avaliava totalmente errado pela concepção que eu tenho hoje. Eu achava que era uma transferência de renda indevida, que era feita “ao léu”... E hoje eu já tenho uma concepção totalmente diferente. Me sensibilizou muito trabalhar na assistência. (Gestora do PBF – SC- Região Sul).

A mesma gestora faz questão de frisar que “sempre foi sensível” tal como um movimento de autodefender-se de sua posição anterior sobre a percepção do pobre. A “sensibilidade” a que a gestora municipal faz referência veio com o contato cotidiano com os diversos problemas trazidos pelos usuários e aos ensinamentos de uma colega de trabalho.

Eu sempre fui uma pessoa sensível, mas me sensibilizou mais depois de ter trabalhado na assistência, porque os problemas são latentes, e a gente que tenta fazer de conta que eles (os problemas) não existem. Então mudou minha perspectiva a respeito disso. Quem me ajudou muito foi a própria assistente social que trabalhou comigo, porque tudo que eu tinha de dúvida sobre a assistência ela me ensinou. (Gestora do PBF – SC- Região Sul).

O mesmo processo de construção foi observado no percurso de um jovem servidor público concursado, educador físico, técnico de nível de rua que coordena programas e serviços de atendimento da assistência social na Região Centro-Oeste, na cidade de Brasília. No centro coordenado pelo técnico, são desenvolvidas ações da assistência social nas quais o público são usuários considerados pobres que se encontram em elevado grau de vulnerabilidade social e econômica. O equipamento fica localizado em uma cidade satélite do Distrito Federal, recorte territorial correspondente à área considerada de alto índice de violência e baixa renda.

Tal como a gestora do PBF do município do estado de Santa Catarina, a delimitação de tempo também está presente na trajetória do referido técnico. O coordenador de ações da assistência social, antes de ingressar no cargo, não tinha conhecimento do que se tratavam as ações de combate à pobreza.

O antes,

Olha, antes de vir trabalhar, eu achei que era um público que não trabalhava. Eu tinha muito isso na cabeça, né? Um público que só dependia da assistência social. Mas o que eu vi é que esse público é nossa grande mão de obra, mão de obra de trabalhos, de obra civil, quase todas as mães são servidoras da SLU (Sistema de Limpeza Urbana), são mães de alunos nossos.

O depois,

Então, assim, a grande maioria trabalha de doméstica nas casas ou tem trabalho fora e não consegue ter o acompanhamento dos filhos. No caso, sair da escola, almoçar e depois tem o outro período contraturno. Então é um público com alguns filhos. A grande maioria trabalha, são beneficiários do Bolsa Família de alguma maneira, têm o cadastro, não sei se recebem transferência de renda, mas são todas beneficiárias, e as crianças naquela área bem vulnerável. A situação de risco social pela proximidade do tráfico, pela falta de esgoto, saneamento básico, asfalto, falta de moradia bem estruturada. Daí as crianças vão ficando nas ruas sozinhas. Pelos prontuários que eu leio, vejo que quase todos aqui, entre 13 e 14 anos, quando tinham entre 8 e 9 anos a mãe era chamada em conselho tutelar por abandono, existem muitos desses registros. Às vezes por violência doméstica, às vezes muitas crianças ficam com uma pessoa que não podia cuidar. Então, eu vejo que quase todas têm esse histórico lá atrás né. (Técnico da Assistência Social – coordenador do Centro de Atendimento da Assistência Social – Brasília – Região Centro-Oeste).

O entrevistado conclui,

E, sinceramente, não sabia o que era Cras, não sabia o que era um serviço de convivência, e vejo que outros amigos meus que ainda estão lá fora (referência ao ciclo social de amigos próximos que não são profissionais da área) ainda desconhecem completamente o sistema. Quando fazem a pergunta: “com o que você trabalha?” Eu falo: “olha, senta que vai demorar”. Mas eu procuro explicar, procuro informar e todo mundo acha maravilhoso. Eu não conheço ninguém que fala: “Ah isso é um absurdo!”, falam que isso é um trabalho maravilhoso, é por aí. E eu explico exatamente como a gente faz e como acontece. (Técnico da Assistência Social – coordenador do Centro de Atendimento da Assistência Social – Brasília – Região Centro- Oeste).

A análise que pode ser feita a partir dos depoimentos é que a percepção moral e valorativa que reproduz o estigma negativo da pobreza como “vagabundo”,

“aqueles que não querem trabalhar” é o ponto de partida desses profissionais quando chegam para executar suas funções. É relevante observar que em nenhum momento os entrevistados fazem referência a palavras como: direitos sociais ou garantias de direitos em suas falas.

Uma diferença pode ser demarcada, nesse caso, nas entrevistas realizadas com os técnicos que faziam parte de equipes de municípios de médio a grande porte, pertencentes às regiões mais populosas do país. Os profissionais que atuam nos municípios de grande porte apresentaram uma percepção contextualizada com objetivos estruturais das ações que executam. A seguir, o gestor de um município de médio porte do estado do Rio de Janeiro apresenta o seu ponto de vista sobre o atendimento dos considerados pobres em uma das ações e a inclusão no cadastro único.

Na questão do cadastro (CadÚnico) tem duas questões. Tem o estigma que elas têm (as pessoas-usuários pobres que procuram o cadastro) e tem também o papel do entrevistador nessas ações, então um influencia no outro. Porém é muito subjetiva essa questão da pobreza, né? Você vai me dizer que a pobreza é uma questão de renda, outro diz outra coisa. Eu acredito que é uma questão mais estrutural. E isso influencia na hora de estar estruturando as ações, na hora que está identificando a família. Porque se não for por questão da transferência de renda, pode ser para acessar outros programas, outras ações. Você faz esse cadastro e daí você pode identificar que ela (a pessoa-usuário) não tem um posto de saúde próximo, que não tem uma escola, o acesso que ela teve ao ensino também em determinadas áreas, você consegue ver isso. Os que são mais vulneráveis na área da saúde, questão do saneamento. Então tem que trabalhar e ter muito cuidado. Acho que é como porcelana mesmo, pode quebrar e você afasta o público e o usuário do seu trabalho, então fica difícil. E tem a questão de você julgar a pessoa, né? (Gestor do Programa Bolsa Família Município de Mesquita-RJ).

A nuance observada entre os técnicos que atendem aos pobres em municípios de pequeno porte e de portes maiores pode ser entendida pela condição territorial em que trabalham e pelas complexidades problemáticas que se apresentam no dia a dia. Mostra também que a equidade de posturas e atuações dos técnicos não pode ser considerada uma variável constante e regular, mesmo que a burocracia busque isso. Apesar de as diretrizes nacionais dos programas e serviços buscarem um ponto de partida minimamente nivelado em relação aos procedimentos, qualidade e compreensão das ações, sobressai a realidade local, o entendimento de quem executa.

Como conclusão deste tópico, pelos apontamentos das falas dos entrevistados analisamos que a percepção dos técnicos é mediada pela busca da

objetividade das normativas técnicas, porém associando a isso os fatores sociais e subjetivos que constroem as percepções dos sujeitos antes de chegar a sua função. Como vimos, existe uma opinião anterior que pode ser mudada ou não com o decorrer da prática.

Assim, os técnicos apresentam um estágio de percepções até que a prática conduza a uma construção dos seus próprios conceitos sobre o que é o pobre e a pobreza atendida cotidianamente.