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Mapa 5 – Tipos de solo no município de Santo Amaro do Maranhão/MA

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.5 Diarreia e a vulnerabilidade do abastecimento de água

As doenças mais comuns entre a população, conforme os entrevistados são apresentados no Gráfico 12.

Como se verifica, gripe foi a doença mais mencionada pelos entrevistados (34%), no entanto, verminose e diarreia, em conjunto, correspondendo a 46% das respostas obtidas e podem estar relacionadas ao consumo de água sem tratamento e contaminadas com organismos patogênicos.

A diarreia pode ser conceituada como o aumento da frequência do número de evacuações, com perda de líquidos e diminuição da consistência fecal (MURRAY, 1994).

A importância das condições ambientais em relação ao risco de adoecer por diarreia são citadas em diversos estudos, sugerindo-se que a falta de higiene

Gráfico 12 – Doenças mais comuns nas famílias em Santo Amaro do Maranhão, conforme informações dos moradores pesquisados.

pode aumentar a exposição à vários patógenos entéricos (VANDERLEI; SILVA; BRAGA, 2003).

Heller (1997 apud BRASIL, 2006) comenta que a morbidade por doenças diarreicas tem sido destacada como um indicador de impacto das intervenções em saneamento em função de: a) sua importância sobre a saúde pública; b) a validade e a confiabilidade dos instrumentos empregados na sua determinação; c) sua capacidade de resposta a alterações nas condições de saneamento; e d) o custo e a exequibilidade de sua determinação.

De acordo com Sistema de Informação de Atenção Básica – SIAB, em Santo Amaro do Maranhão foram registrados 1033 casos confirmados de diarreia nos último três anos (2008-2010). Nesse mesmo período foram 684 casos confirmados na zona urbana e 349 na zona rural (Gráfico 13).

Com base nos dados do SIAB é possível constatar que em Santo Amaro do Maranhão houve uma redução no número de casos durante o período de 2008 a 2010. Inúmeros fatores podem estar ligados a esse fato, dentre os mais prováveis, são a atuação de agentes de saúde e a implantação dos poços semi-artesianos para a população com água encanada nas residências, especialmente na zona rural, considerando que antes o abastecimento era realizado de forma precária, somente por poços rasos (cacimba ou com bombas manuais) ou por rios e riachos. A

Gráfico 13 – Número de casos de diarreia em crianças até dois anos de idade

Fonte: Ministério da Saúde – Sistema de Informação de Atenção Básica – SIAB (2011)

substituição desse tipo de abastecimento melhora a qualidade de vida, uma vez que diminui o trabalho de coleta de água pela população, reduzindo os riscos de contaminação.

Muitos estudos têm mostrado que a construção e/ou melhoria dos sistemas de tratamento de água traz inúmeros benefícios, principalmente relacionados à saúde pública, como: o realizado em São Luís, Estado do Maranhão (1986-1989), que mostrou uma redução da morbidade pela doença diarreica relacionada ao aumento no percentual de domicílios servidos por água da rede pública (CAMPOS, 1995) e o realizado no Município de Sabará, Estado de Minas Gerais (1980-2007), que verificou uma queda significativa na prevalência da esquistossomose após a implantação de medidas de controle como o tratamento da população e o fornecimento de água potável intradomiciliar (VASCONCELOS, 2009). O conhecimento das condições do meio pertinente à saúde, como saneamento e moradia, são essenciais no estabelecimento de medidas de promoção da qualidade de vida do indivíduo, famílias e comunidades (AZERED et al., 2007).

A opinião dos entrevistados quanto a forma de transmissão de algumas doenças é verificada no gráfico 14.

Observou-se que a maioria dos entrevistados (88%) acredita que o lixo não tenha relação com nenhuma das doenças de veiculação hídrica; 64% acredita que a água empoçada também não tenha relação e 42% disseram que o consumo de água não causa doença.

Fonte: Lívia Caroline Abreu Silva (2011)

Gráfico 14 – Principais causas das doenças nas famílias, segundo opinião dos entrevistados.

Para Silva e Araújo (2003), vários fatores podem comprometer a qualidade da água subterrânea, por exemplo, através do esgoto doméstico e industrial, da disposição inadequada de resíduos sólidos urbanos e industriais, dos postos de combustíveis e de lavagem e da modernização da agricultura, pela contaminação com bactérias e vírus patogênicos, parasitas, substâncias orgânicas e inorgânicas.

Esses dados demonstraram a falta de conhecimento dos moradores a respeito de parasitoses, formas de transmissão e seus riscos à saúde, pois, através das informações obtidas, a quantidade de pessoas que relacionaram o surgimento de algumas doenças de vinculação hídrica com problemas de saneamento foi insatisfatória.

Corroborando com esse entendimento, o estudo sobre a avaliação da qualidade da água e percepção higiênico-sanitária na área rural de Lavras, Minas Gerais em 1999-2000, realizado por Barcellos et al (2006), onde foram feitas análises laboratoriais com 80 amostras de água de 45 propriedade rurais, concluiu que existe um grande desconhecimento e despreparo para as práticas higiênico- sanitárias, em relação às formas de destinação de lixo, água servida, dejetos e embalagens utilizadas, e também a falta de preocupação com a qualidade da água consumida.

Outro problema identificado nesta investigação, foi a falta de entendimento técnico na abertura e manutenção dos poços, já que em algumas residências a distância mínima exigida entre a fossa e fonte alternativa de abastecimento não era atendida e poucos poços eram protegidos. Supõe-se que essas condições tenham contribuído para um índice elevado de contaminação nas amostras coletadas.

Da mesma forma, Amaral et al. (2003) entende que a ausência dos fatores de proteção, aliada a pequenas profundidades dos lençóis freáticos, limita o poder filtrante do solo e as fontes ficam expostas à contaminação principalmente pelas águas de escoamento superficial e pelas que infiltram no solo e assim, em localidades onde a desinfecção da água não é realizada, a ausência de fatores de proteção já é motivo de preocupação.

4.6 Ações de vigilância, saneamento ambiental e instrumentos processuais na efetivação do direito a água potável

A Secretaria Municipal de Saúde não exerce a vigilância da qualidade da água e assim, descumpre uma exigência legal da Portaria MS 518/2004. Segundo dispõem os incisos I e XI do artigo 7º da referida Portaria, é dever das secretarias municipais de saúde exercer a vigilância da qualidade da água em sua área de competência, em articulação com os responsáveis pelo controle, de acordo com as diretrizes do SUS, segundo um plano próprio de amostragem de vigilância. Porém, isso não ocorre em Santo Amaro do Maranhão.

Por não existir empresa municipal de tratamento e controle da qualidade da água e a companhia estadual (CAEMA), por não atuar nessa região, o serviço de abastecimento está a cargo do próprio município. Desta forma, é indispensável que haja a participação do Conselho Municipal de Saúde na fiscalização da qualidade da água, pois neste caso, o município, dever ser seu próprio fiscal.

Observa-se que o inciso IV, do artigo 7º, da Portaria MS nº 518/2004 estabelece que cabe às secretarias municipais de saúde efetuar, sistemática e permanentemente, avaliação de risco à saúde humana de cada sistema de abastecimento ou solução alternativa, contudo, no município em questão, de acordo com informações colhidas in loco, a Secretaria Municipal de Saúde nunca realizou um estudo buscando evidências da associação entre agravos à saúde e as fontes de abastecimento de água.

Os responsáveis pela vigilância da qualidade da água a nível local devem proceder ao diagnóstico das condições do abastecimento e do consumo de água da população, no meio urbano e rural, como passo inicial e fundamental para o planejamento das ações de vigilância. Um cadastro tem como principal finalidade a obtenção de informações e a construção de indicadores que permitam mapear grupos, fatores e situações de risco e avaliar sua distribuição e evolução, espacial e temporal (BRASIL, 2006).

Tomando como parâmetro a legislação vigente que trata sobre o assunto, fica evidente que é obrigação do Poder público, nos três níveis, zelar pela saúde e bem estar da população. O não fazer, fica caracterizado desrespeito a dignidade humana.

Analisando-se os princípios inerentes a qualidade de vida, é dever do Poder Público programar ações objetivando a garantia do direito à água em condições de consumo, sem risco a vida humana. Dubreuil (2006) demonstra que a política para garantia do direito a água é efetuada através de legislações, regulamentações, políticas públicas e planos de trabalho, para desenvolver e alargar os serviços de abastecimento de água.

O município de Santo Amaro do Maranhão possui muitas deficiências quanto aos subsídios básicos e necessários que a comunidade precisaria para alcançar uma qualidade de vida condigna com a própria essência da vida. Desta forma, o Poder Público, nos seus vários níveis, não pode se omitir a fim de que a realidade atual averiguada no município mude para melhor, o quanto antes.

Para Castro, Lobato e Rocha (2007), se a comunidade santamarense não dispõe de condições dignas para viver bem, o turista não terá a possibilidade de uma permanência maior, segura e agradável na localidade, impossibilitando o desenvolvimento da atividade e os benefícios advindos, sem afetar o meio ambiente, portanto, de forma sustentável. As Políticas Públicas a serem elaboradas e desenvolvidas devem contar com parcerias governamentais e privadas de forma que se congreguem subsídios necessários para melhoria da infraestrutura básica e turística de Santo Amaro, e não apenas ações paliativas e de interesses imediatistas.

Portanto, a única forma eficiente de se evitar a exposição da saúde aos riscos ou a contaminação do meio ambiente, é a existência de obediência aos preceitos legais e as precauções básica.

Sob este entendimento, a avaliação da qualidade da água de abastecimento público deve ser monitorada de maneira intensa e contínua, atendendo assim, a todas as condições mínimas exigidos por lei e para isso, as autoridades sanitárias e ambientais devem investir em programas multicriteriosos que atendam à realidade local (FELSKI; ANAISSI; QUINÁIA, 2008).

Sirks (1999 apud BRUNONI, 2008) afirma que os órgãos ambientais municipais precisam estar atentos para detectar rapidamente a contaminação da água potável e localizar com precisão seu foco, além de manter uma constante campanha de educação e esclarecimento à população, sobre as providências a serem tomadas em relação à água, como exemplo limpeza das caixas d’água e fervura da água antes de ser consumida.

Vale lembrar que a Constituição Federal (BRASIL, 1988) atribui titularidade para prestação de serviços de saneamento, especialmente aos municípios, que são responsáveis por serviços públicos de interesse local (art. 30, VI). Assim, compete ao município organizar e prestar serviços de abastecimento de água tratada, esgotamento sanitário, de coleta e tratamento de resíduos sólidos e de drenagem pluvial. No entanto, pouco se tem feito para garantia desses direitos constitucionais no município em estudo, conforme foi demonstrado na pesquisa.

De acordo com Brasil e OPAS (2005, p. 102),

Os serviços de saneamento ambiental são de interesse local e o município deve ter a competência para organizá-los e prestá-los, sendo então o seu titular. A Política Municipal de Saneamento Ambiental deve partir do princípio de que o município tem autonomia e competência para organizar, regular, controlar e promover a realização dos serviços de saneamento ambiental de natureza local no âmbito de seu território, podendo fazê-lo diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, associado com outros municípios ou não, respeitando as condições gerais estabelecidas na legislação nacional sobre o assunto.

É fato que em Santo Amaro do Maranhão, os povoados e localidades são distribuídos em um amplo território, constituindo dificuldades logísticas e orçamentárias para a implementação de infraestrutura em curto prazo, todavia, políticas públicas não dependem do acesso para serem executadas.

A garantia do direito à saúde, que só é conseguida com a garantia do direito a água potável, tem valor constitucional intrínseco a dignidade humana igualmente com o desenvolvimento econômico e social.

A água potável é um direito que exige a participação concreta do Estado e da sociedade para sua efetivação. Portanto, alguns instrumentos processuais podem ser utilizados na defesa desse direito, como:

 Ação popular (art. 5º, LXXIII, da CF) – é instrumento que garante o direito democrático de participação do cidadão na vida públicas, baseando-se no princípio da legalidade dos atos administrativos e no conceito de que a coisa públicas é patrimônio do povo, sendo qualquer cidadão, parte legítima para propor essa ação.  Ação civil pública (Lei nº 7.347/1985) – é o instrumento onde o cidadão é representado pelo Ministério Público, que tem o dever constitucional de zelar pela população,

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