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CAPÍTULO 3 PROCESSOS SOCIOESPACIAIS E AS NOVAS OU VELHAS DEMANDAS

3.4 A DICOTOMIA CENTRO-PERIFERIA

Que o espaço se transforma em função da dinamicidade social, está clarificado. Importa agora compreender como se dá essa redefinição dos espaços urbanos, com a expansão da malha urbana e como fica a interação e integração das áreas que, em dado momento, estavam na periferia da cidade e agora estão, ao menos, do ponto vista espacial, inseridas em um contexto de centro.

A ideia da dicotomia centro-periferia surge no período mais marcante da Escola de Chicago, com o trabalho de Burgess, em 1925, que propunha um modelo de análise do crescimento da cidade. A Escola de Chicago ficou assim conhecida em referência à produção acadêmica do departamento de sociologia da Universidade de Chicago sobre o crescimento e as condições de vida nas cidades da Europa e Estados Unidos, motivada a

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partir do intensivo crescimento de núcleos urbanos que se industrializavam no fim do século XIX. Dentre seus principais teóricos, destacam-se: W. I. Thomas, Robert Park, Roderick Mckenzie, Ernst Burgess e Hebert Blumer.

O trabalho de Burgess, em sua análise de crescimento da cidade, sugere a construção de um modelo analítico que compreende a expansão da cidade a partir de um ponto central e de diversos círculos concêntricos em direção à periferia, e que delimitariam espacialmente as diversas formas de agrupamento sócio-funcional de uma cidade (GOTTDIENER, 1997 apud OJIMA, 2007). A análise estava fundamentada em torno do indivíduo, considerando que suas decisões pela escolha da moradia estariam baseadas pelos gostos, preferências e redes de sociabilidade, sem considerar fatores econômicos e fatores externos e, por isso, foi bastante criticada, mas certamente trouxe a discussão à tona.

O centro é o ponto de origem da cidade, o que não significa que sua localização espacial seja central. Ele agrega, sim, características físicas e naturais que proporcionam o desenvolvimento e crescimento do núcleo urbano em formação que, por sua vez, vai demandar condições de infraestrutura a fim de permitir a comunicação entre as vias urbanas, dentre outras demandas consequenciais (SPOSITO, 2001).

Com o contínuo crescimento, a população começou a se fixar em áreas fora desse centro por motivos não necessariamente de preferência, mas em virtude de não conseguir pagar para morar naquela localidade, ocupando assim as áreas do entorno, a periferia, sem o atendimento dos serviços contidos no centro.

No Brasil, muito embora não seja específico somente da nossa realidade, com o desenvolvimento do capitalismo, principalmente após a década de 1930, aponta Moisés (1985) que se identificou a geração de uma sociedade urbana baseada na superconcentração de atividades produtivas, seguida por um fenômeno chamado de “urbanização por expansão de periferias”.

O centro urbanizado então se expandia, espalhando-se sobre a até então periferia e esta transbordava para novas áreas inabitadas. Ressalta-se que esse crescimento não se deu, necessariamente, através de anéis concêntricos ao núcleo original, como levantara Burgess, em 1925. A depender da cidade, deu-se de forma tentacular, deixando, durante décadas, vazios nos interstícios.

As contribuições teóricas mais importantes, no que se refere a análises intraurbanas no Brasil, datam somente das décadas entre 1970 e 1980, com foco de estudo sobre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, através de: MARICATO, 1982; KOWARICK, 1979; KOWARICK e CAMPANÁRIO, 1988; SANTOS, 1978; BONDUKI E ROLNIK, 1979. Nesse período houve um boom demográfico e se intensificou a expansão das cidades e das suas periferias. Intentou-se, então, através desses estudos, demonstrar que as características do

crescimento urbano, não só brasileiro mas também da América Latina, são resultados do processo de desenvolvimento das relações capitalistas (OJIMA, 2007).

De modo que as estratégias econômicas e locacionais dos grandes grupos empresariais interferem diretamente na estrutura urbana. A decisão de instalar determinada empresa que oferece determinado serviço ou produto em dado local irá, consequentemente, alterar as relações da área de sua instalação com o entorno imediato e, em seguida, com as áreas periféricas (LOPES JÚNIOR, 2007).

Assim, a partir da instalação de certos equipamentos, constantemente se redefine a relação do centro e periferia e, com isso, aparecem novas centralidades, áreas com características de centro, pois concentram comércio, serviços de vários níveis, dotadas de rede viária e sistema de transporte e com grande poder de atração, incentivando o crescimento do seu entorno.

Lopes Júnior (2007:36) citando Sposito (2001) aponta três pontos recentes como bastante significativos para o crescimento e, consequentemente, para a redefinição da relação centro/periferia:

1. Nova lógica das indústrias com relação ao espaço (flexibilização do uso do espaço), através da diminuição das plantas industriais e separação entre gestão e produção, sendo que esta última concentrando-se na periferia; 2. Nova configuração do habitat urbano e diferentes formas de assentamentos humanos. Instalação de conjuntos habitacionais na periferia de metrópoles, grandes e médias cidades para população de baixo poder aquisitivo. Para população de classe média e alta, os villages que divulgam a qualidade de vida, localizando-se fora e dentro das áreas urbanas, e tem- se, também, as cidades satélites, exemplo de Brasília, nas quais a função socioeconômica está atrelada ao planejamento urbano;

3. Novas localizações de equipamentos de consumo e prestação de serviços (shoppings centers, hipermercados, centros empresariais, outros), que geralmente se instalam em áreas antes não loteadas, assim reforçando a produção de novas centralidades ou a polinucleação.

O espaço urbano, assim, cresce de uma forma descontínua entre aglomerados, conferindo à malha urbana, diversos pontos e manchas espalhados. Abramo (2007) coloca que são três as lógicas modernas que são responsáveis pela produção e crescimento das cidades: a lógica do mercado, a lógica do Estado e a lógica da necessidade, esta representada pela autoconstrução, costumeiramente em áreas periféricas. Segundo esse autor, o mercado como o principal mecanismo com poder de decisão de uso do solo, produz uma forma de cidade particular na América Latina, uma vez que segue dois modelos de conformação estrutural do ambiente construído. Um, trata-se do modelo mediterrâneo de uso intensivo do solo (cidade compacta) e outro, refere-se ao modelo anglo-saxão com uso do solo disperso (cidade difusa). Assim, esse funcionamento do mercado de solo, ao utilizar esses dois modelos, promove uma cidade que o autor chamou de COM-FUSA.

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Para tanto, como interesse desta dissertação, será apresentado, na subseção a seguir, um dos modelos mais aceitos sobre o crescimento das cidades da América Latina.