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A dupla caracterização do bem

2.1. O bem como propriedade transcendental

2.1.2. A diferença entre bem simples e bem sob certo aspecto

A garantia de que o bem pode ser designado como um transcendental ainda será investigada por Tomás num último ponto, mediante análise da distinção boeciana entre as coisas existiram e as coisas serem boas.123 Visando criticar124 essa distinção entre bem e ente na realidade, Tomás escreve:

Deve-se dizer que ainda que bem e ente sejam idênticos na realidade, como diferem segundo a razão, não significam exatamente a mesma coisa o ente simples [ens simpliciter] e o bem simples [bonum simpliciter]. Pois o ente designa propriamente algo que está em ato; e o ato se refere propriamente à potência: assim, uma coisa é dita ente de modo simples em razão daquilo que primeiramente a distingue do que se encontra apenas em potência. E isto é o ser substancial de cada coisa, e é em razão de seu ser substancial que uma coisa qualquer se diz ente de modo simples. Em razão dos atos que são acrescentados, se diz que uma coisa é sob certo aspecto [secundum quid]: ser branco, por exemplo, significa ser sob certo aspecto, pois ser branco não suprime o ser em potência de modo simples, pois isto acontece a algo que já existe em ato. Ao contrário, o bem expressa a razão de ser perfeito que é atrativo, e em conseqüência, expressa a razão de ser último. Daí que aquilo que é ultimamente perfeito chama-se bem simples. Aquilo que não possui a perfeição última que deveria possuir, ainda que tenha alguma perfeição, pois se encontra em ato, não será dito perfeito simples, mas apenas sob certo aspecto. – Logo, segundo o ser primeiro, isto é, o ser substancial, uma coisa é dita ente de modo simples; e boa, sob certo aspecto, a saber: enquanto é ente. Mas, segundo o último ato, uma coisa é dita ente sob certo aspecto e boa de modo simples. É o que Boécio quer dizer quando afirma: “nas coisas se deve distinguir o bem e o ser”. Há de se entender do bem e do ser considerados de modo simples, porque segundo o ato primeiro uma coisa é ente de modo simples, e segundo o último é bem de modo simples. Pelo contrário, segundo o ato primeiro é de alguma forma bem, e segundo o último é de alguma forma ente.125

122 Cf. SCG III, c. 16, 1987: “Aquilo para o qual uma coisa tende, enquanto está fora dela, e no qual repousa ao atingi-lo, é o seu fim. Ora, cada coisa que não possui a perfeição tende para ela, no que depende de si. Ao atingi-la, nela repousa. Por isso, o fim é a perfeição de cada coisa. Ora, a perfeição de cada coisa é o seu bem. Logo, a coisa se ordena para o bem, como para o seu fim.”

123 S. Th. Ia, q. 5, a. 1, obj. 1: “Com efeito, Boécio diz: ‘Vejo nas coisas que uma coisa é serem boas e outra é existirem’. Logo, o bem e o ente diferem na realidade”.

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Interessa-nos, nesse texto específico, o modo pelo qual Tomás responde à objeção boeciana, sustentando, assim, uma crítica à distinção radical entre existir e ser bom. No que diz respeito à interpretação do texto boeciano e do modo crítico de leitura de Tomás, ver AERTSEN (2010), pp. 91-100. Sobre interpretações distintas do axioma boeciano, mas sem relacioná-lo à leitura de Tomás, ver SAVIAN (2008), pp. 51-62. 125

S. Th. Ia, q. 5, a. 1, resp: “Ad primum ergo dicendum quod, licet bonum et ens sint idem secundum rem, quia tamen differunt secundum rationem, non eodem modo dicitur aliquid ens simpliciter, et bonum simpliciter. Nam cum ens dicat aliquid proprie esse in actu; actus autem proprie ordinem habeat ad potentiam;

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A partir da passagem supracitada, Tomás constrói sua crítica à distinção boeciana por meio da seguinte dupla de binômios: (i) ente simples / bem simples e (ii) ente sob certo aspecto / bem sob certo aspecto. No que diz respeito ao binômio (i), ente é designado como simples, pois este deve ser considerado de modo próprio enquanto encontra-se em ato, estando distinto daquilo que se encontra em potência. Trata-se, nesse primeiro caso, do ente considerado em seu ser substancial. O bem simples, por sua vez, expressa a razão de finalidade entendida como perfeição. Trata-se daquilo que já atingiu seu fim último e pode ser designado como perfeito de modo próprio. Quanto ao binômio (ii), ente é dito sob certo aspecto, na medida em que se acrescentam alguns atos ao ser substancial, isto é, os acidentes acrescidos ao ser substancial. A partir desse binômio, o bem é designado sob certo aspecto no sentido de algo que possui alguma perfeição, pois se encontra em ato, a despeito de não ser, ainda, plenamente acabado ou completo.

Ao estabelecer essa dupla de binômios, Tomás tem por intento criticar a distinção boeciana entre ser bom e ser, pois as coisas consideradas a partir de seu ser substancial devem ser ditas entes simples, na medida em que já se encontram em ato com relação à potência. Entretanto, os entes compreendidos como simples são considerados bons sob certo aspecto, pois estes comportam acidentalidades e, do ponto de vista da finalidade, não devem ser designados como plenamente perfeitos ou acabados. Em contraposição, os entes sob certo aspecto são considerados bons de modo simples, pois a atualização desse tipo específico de entes leva à perfeição ou fim último destes.

secundum hoc simpliciter aliquid dicitur ens, secundum quod primo discernitur ab eo quod est in potentia tantum. Hoc autem est esse substantiale rei uniuscuiusque; unde per suum esse substantiale dicitur unumquodque ens simpliciter. Per actus autem superadditos, dicitur aliquid esse secundum quid, sicut esse album significat esse secundum quid, non enim esse album aufert esse in potentia simpliciter, cum adveniat rei iam praeexistenti in actu. Sed bonum dicit rationem perfecti, quod est appetibile, et per consequens dicit rationem ultimi. Unde id quod est ultimo perfectum, dicitur bonum simpliciter. Quod autem non habet ultimam perfectionem quam debet habere, quamvis habeat aliquam perfectionem inquantum est actu, non tamen dicitur perfectum simpliciter, nec bonum simpliciter, sed secundum quid. Sic ergo secundum primum esse, quod est substantiale, dicitur aliquid ens simpliciter et bonum secundum quid, idest inquantum est ens, secundum vero ultimum actum dicitur aliquid ens secundum quid, et bonum simpliciter. Sic ergo quod dicit Boetius, quod in rebus aliud est quod sunt bona, et aliud quod sunt, referendum est ad esse bonum et ad esse simpliciter, quia secundum primum actum est aliquid ens simpliciter; et secundum ultimum, bonum simpliciter. Et tamen secundum primum actum est quodammodo bonum, et secundum ultimum actum est quodammodo ens”.

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A crítica de Tomás à distinção boeciana procura, assim, sustentar uma diferença de grau, a partir da dupla de binômios, no que diz respeito ao bem, na medida em que o ente, considerado como simples, pode ser dito bom, mesmo que sob certo aspecto e não de modo próprio. Com isso, Tomás estabelece que o bem pode ser dito tanto para o ser substancial, quanto para seus acidentes que constituem, nesse caso específico, o meio pelo qual as coisas tornam-se perfeitas, isto é, completas atingindo seu fim último. Nesse sentido, o caráter transcendental do bem se mantém, pois, como vimos anteriormente, os transcendentais possuem essa amplitude polissêmica, podendo, assim, ser predicados não apenas da substância, mas, também de seus acidentes.126

No entanto, há um ser no qual a diferença entre ser próprio e bondade própria não ocorre. Nesse ser específico, a identidade entre ser e bondade é absoluta e, para Tomás, tal exceção no quadro acima estabelecido demanda uma análise específica dos critérios que caracterizam a bondade divina; esta sim, propriamente distinta do bem enquanto transcendental por ser, necessariamente, uma propriedade transcendente.