3. ETAPAS DO ENSAIO CORAL
3.3 Técnica vocal no ensaio coral
3.4.1 Diferenças entre a voz falada e a voz cantada
A voz falada e a voz cantada possuem particularidades que as diferenciam entre si. Para a voz cantada, usa-se a mesma estrutura de produção vocal, entretanto com ajustes necessários ao canto.
Behlau, Rehder (1997) apontam parâmetros pelos quais as diferenças entre a voz falada coloquial e a voz cantada com impostação pode ser ajustada, quais sejam: respiração, fonação, ressonância e projeção vocal, qualidade vocal, articulação dos sons da fala, pausas e postura.
Os parâmetros apontados por Behlau, Rehder (1997) trazem as principais diferenças entre a voz falada e a voz cantada.
A respiração surge como primeiro parâmetro citado por Behlau, Rehder.
Coelho (1994) e Oiticica (1992) também conotam à respiração o sentido de ser a base do trabalho técnico vocal ao apresentar esse parâmetro no início de suas discussões.
Na abordagem de Behlau, Rehder (1997) a respiração apresenta as seguintes diferenças entre ambas as vozes:
Os ciclos respiratórios são pré-programados de acordo com as frases musicais;
A inspiração é relativamente lenta e nasal nas pausas longas, sendo mais rápida e bucal durante a fala;
A inspiração é muito rápida e bucal;
Um volume médio de ar é usado durante a fala;
Usa-se um volume de ar maior durante o canto, quase esvaziando os pulmões;
Ocorre pequena movimentação pulmonar durante a tomada de ar, com pouca expansão
Ocorre grande movimentação pulmonar durante a tomada de ar, com expansão de
da caixa torácica. todas as paredes do tórax;
A saída do ar na expiração é um processo passivo.
O controle da expiração (saída do ar) é ativo, mantendo a caixa torácica expandida o maior tempo possível.
Tabela 3: Parâmetro: Respiração - Ciclos de inspiração e expiração. Behlau, Rehder (1997, p. 6)
Já o parâmetro da fonação é pouco abordado na literatura coral assim como na de técnica vocal. Esse parâmetro traz considerações sobre a forma como as pregas vocais se comportam fisiologicamente durante a produção sonora de ambas as vozes.
2) Fonação
Voz falada Voz cantada
As pregas vocais fazem ciclos vibratórios com o cociente de abertura levemente maior que o de fechamento;
As pregas vocais fazem ciclos vibratórios com o cociente de fechamento maior que o de abertura, o que gera um som acusticamente mais rico e com maior tempo de duração;
Produz-se uma série regular de harmônicos – uns vinte deles, em média -, decrescendo de intensidade em direção aos harmônicos agudos;
Produz-se uma série mais rica de harmônicos - mais de trinta -, com intensidade forte mesmo nos harmônicos mais agudos;
O atrito das mucosas das pregas vocais é bastante aumentado nas situações de pigarro, tosse, ou mesmo quando se quer dar ênfase a determinada palavra da emissão –
Percebe-se uma movimentação discreta da laringe no pescoço, determinada por variações na inflexão das frases;
A laringe tende a permanecer em posição baixa (na maior parte das escolas de canto), estabilizada, mesmo nas frequências mais agudas;
A extensão de frequências em uso habitual é de 3 a 5 semitons, dependendo da língua que se fala e a entonação empregada;
A extensão de frequência é ampla, ao redor de duas oitavas e meia.
Tabela 4: Parâmetro: Fonação - Produção de som laríngeo básico. Behlau, Rehder (1997, p. 7)
3) Ressonância e Projeção de voz 64dB para conversação, mantendo-se relativamente constante durante o discurso; a chamar alguém distante ou para dar um grito, geralmente usa-se uma inspiração mais profunda, abre-se mais a boca e usa-se sons mais agudos e mais extensos.
Projeção vocal é uma necessidade constante no canto, que deve ser audível mesmo nos sons pianíssimos; para tanto, a inspiração é sempre maior que para a fala, a boca está sempre aberta, procurando-se reduzir ao máximo os obstáculos à saída do som.
Tabela 5: Parâmetro: Ressonância e projeção de voz - Volume de voz no ambiente. Behlau, coral, do estilo musical e do repertório, sendo que características pessoais são geralmente deixadas num segundo plano em favor de aspectos emocionais da situação, podendo ficar momentaneamente trêmula ou sussurrada, por exemplo;
Tabela 6: Parâmetro: Qualidade vocal - Timbre da voz. Behlau, Rehder (1997, p. 9)
6) Articulação dos sons da fala
A mensagem a ser transmitida aqui está além das palavras e, portanto, privilegiam-se os aspectos musicais, o que pode significar em alguns casos, o sacrifício da articulação de certos sons, que podem ser subarticulados ou distorcidos;
As vogais e consoantes tem duração definida pela língua que se fala;
Na frase musical, as vogais são geralmente mais longas que as consoantes e servem de apoio à qualidade vocal.
Os movimentos articulatórios básicos são definidos pela língua utilizada, porém, o padrão de articulação sofre grande influência dos aspectos emocionais do falante e do discurso.
Os movimentos articulatórios básicos recebem influência dos aspectos tonais da música e da frase musical em si; desta forma, as constrições que produzem os sons e que são realizadas ao longo do trato vocal, tendem a ser reduzidos.
Tabela 7: Parâmetro: Articulação dos sons da fala - Produção das vogais e consoantes.
Behlau, Rehder (1997, p. 10)
No que se compreende sobre a afirmação de Behlau, Rehder (1997) “o sacrifício da articulação de certos sons”, a pesquisadora conserva um posicionamento oposto, principalmente pelo fato de que o canto coral configurar uma prática musical coletiva, quando toda precisão surge como agente unificador do som.
Legitimando esse posicionamento, nota-se que Pfaustch (apud FERNADES, KAYAMA, 2006, p. 4) confirma que problemas rítmicos e até mesmo de afinação
podem estar diretamente relacionados à precariedade da articulação consonantal assim como a formação incorreta das vogais.
Coelho (1994, p. 60) também afirma que a falta de clareza articulatória é uma forte característica da ressonância que ocorre somente na cavidade bucal, não enfático ou, ainda, refletir interrupções naturais do discurso; aceitáveis, podendo ser silenciosas ou preenchidas por sons prolongados como
“ahn...” ou “uhm...”
Tabela 8: Parâmetro: Pausas - Intervalos. Behlau, Rehder (1997, p. 11)
8) Velocidade e ritmo
Voz falada Voz cantada
A velocidade e o ritmo da emissão falada são pessoais e dependem de múltiplos fatores, emissão geralmente ocorrem independente da consciência do falante, mas podem ser reguladas de acordo com o objetivo emocional da emissão.
Alterações na velocidade e no ritmo da emissão são controladas, pré-programadas e ensaiadas.
Tabela 9: Parâmetro: Velocidade e ritmo - Andamento da emissão. Behlau, Rehder (1997, p. 12)
9) Postura
Voz falada Voz cantada
É variável, com mudanças constantes; É menos variável, procurando-se sempre manter o tronco reto;
As mudanças habituais na postura corporal não interferem de modo significativo na produção da voz coloquial;
As mudanças na postura corporal interferem tanto na produção da voz quanto na estabilidade da qualidade vocal;
A linguagem corporal acompanha a comunicação verbal e a intenção do discurso.
A linguagem corporal não é favorecida pelo canto, que privilegia particularmente a expressão facial.
Tabela 10: Parâmetro: Postura - Posição do corpo durante a emissão. Behlau, Rehder (1997, p.
13)
A relação voz-corpo é abordada por vários autores, tais quais Cascardo;
Beraldo (2009); Braga; Pederiva (2007); Cooksey (2006); Martinez (2000); Behlau;
Rehder (1997); Coelho (1994); Mathias (1986).
Sobre a relação entre a produção vocal e a expressividade corporal, Costa (2009, p. 95) afirma que “através de uma proposta de movimentação, trazemos a música para uma vivência musical. A cinestesia ajudará o cantor a compreender e realizar as tarefas musicais, resultando em um grande benefício para o trabalho do grupo”.
Na mesma direção, o próprio gestual de regência é apontado por Rocha (2004, p. 20) como “arte ligada à dança e ao movimento corporal, sendo o regente o veículo visual da expressão musical”.
Se a arte da regência pode ser considerada como expressão musical em forma de movimentação corporal; o canto, do mesmo modo, tem como veículo de expressão o próprio corpo. Nesse sentido, a expressão corporal pode integrar a prática musical com o intuito de favorecer o desempenho do coro.