24. Da ineficácia do negócio jurídico
24.2. Diferenças entre nulidade e anulabilidade
as absolutas e as relativas (anulabilidades), levando em conta o respeito à ordem pública, formula exigên cias de caráter
subjetivo, objetivo e formal. Assim, considera nulo o ato quando
"praticado por pessoa absolutamente incapaz" (art. 145, 1), quando "for ilícito, ou impossível, o seu objeto" (inciso 11), quando "não
revestir a forma prescrita em lei" ou "for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade" (incisos Ill e IV); e, finalmente, quando "a lei taxativamente o declarar nulo ou lhe negar efeito" (inciso V).
Algumas vezes, com efeito, a lei expressamente declara nulo determinado negócio (exs.: "Art. 1.125. Nulo é o contrato de compra e venda,
quando se deixa ao arbítrio exclu sivo de uma das partes a taxação do preço"; ainda: arts. 207, 208, 765, 823, 1.175, 1.176 etc.). Nestes casos diz-se que a nulidade é expressa ou textual. Outras vezes a lei não declara expressamente a nulidade do ato mas proíbe a sua prática ou submete a sua validade à observância de certos
requisitos de interesse geral. Utiliza-se, então, de expressões como "Não pode" (arts. 1.089 e 1.132), "não podendo" (art. 226), "Não se admite" (art. 1.024), "Não vale" (art. 1.067), "ficará sem
efeito" (art. 1.123) etc. Em tais hipóteses, dependendo da natureza da disposição violada, a nulidade está subentendida, sendo chamada de virtual ou implícita.
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A anulabilidade visa à proteção do consentimento ou refere-se à incapacidade do agente. Assim, o art. 147 do Código Civil declara anulável o ato jurídico por "incapacidade relativa do agente" (inciso 1) e por "vício resultante de erro, dolo, coação, simulação, ou fraude".
Outras diferenças entre anulabilidade e nulidade podem ser apontadas: a) A primeira é decretada no interesse privado da pessoa prejudicada. Nela não se vislumbra o interesse público mas a mera conveniência das partes. A segunda é de ordem pública e decretada no interesse da própria coletividade.
b) A anulabilidade pode ser suprida pelo juiz, a requerimento das partes (CC, art. 146, parágrafo único, a contrario sensu), ou sanada,
expressa ou tacitamente, pela ratifica ção (CC, art. 148). A nulidade não pode ser sanada pela ratificação, nem suprida pelo juiz.
A ratificação pode ser expressa ou tácita e retroage à data do
ato. Expressa quando há uma declaração de vontade que contenha a substância da obrigação ratificada, sendo ne cessário que a
intenção de ratificar seja explícita (art. 149), devendo observar a mesma forma do ato praticado. Tácita quando a obrigação já foi cumprida em parte pelo devedor, ciente do vício que a inquinava (art. 150), ou quando deixa prescrever a ação anulatória. Expressa ou tácita, importa renúncia definitiva à faculdade de anular o ato
(CC, art. 151). A ratificação não poderá, entretanto, ser
efetivada se prejudicar terceiro (CC, art. 148). Seria a hipótese, por exemplo, da venda de imóvel feita por relativamente incapaz, sem estar assistido, e que o vendeu também a terceiro, assim que completou a maioridade. Neste caso, não poderá ratificar a primeira
alienação, para não prejudicar os direitos do segundo adquirente. 144
c) A anulabilidade não pode ser pronunciada de ofício. Depende de provocação dos interessados (CC, art. 152) e não opera antes de julgada por sentença. O efeito de seu reco nhecimento é, portanto, ex nunc. A nulidade, ao contrário, deve ser pronunciada de ofício pelo juiz (CC, art. 146, parágrafo único) e seu efeito é ex tunc, pois retroage à data do ato, para lhe negar efeitos. A
manifestação judicial neste caso é, então, de natureza meramente declaratória. Na anulabilidade, a sentença é de natureza
desconstitutiva, pois o ato anulável vai produzindo efeitos, até ser pronunciada a sua ineficácia. A anulabilidade, assim, deve ser pleiteada em ação judicial. A nulidade quase sempre opera de pleno direito e deve ser pronunciada de ofício pelo juiz, quando tomar conhecimento do ato ou de seus efeitos (art. 146, parágrafo único). Somente se justifica a propositura de ação para esse fim quando houver controvérsia sobre os fatos constitutivos da nulidade (dúvida sobre a existência da própria nulidade). Se tal não ocorre, ou
seja, se ela consta do instrumento, ou se há prova literal, o juiz a pronuncia de ofício.
d) A anulabilidade só pode ser alegada pelos interessados, isto é,
pelos prejudicados (o relativamente incapaz e o que manifestou vontade viciada), sendo que os seus efeitos aproveitam apenas aos que a
alegaram, salvo o caso de solidariedade, ou indivisibilidade (CC, art. 152). A nulidade pode ser alegada por qualquer interessado, em nome
próprio, ou pelo Ministério Público, quando lhe couber intervir,
em nome da sociedade que representa (CC, art. 146). Se o menor, entre dezesseis e vinte e um anos, dolosamente ocultou a sua idade, inquirido pela outra parte, ou se no ato de se obrigar espontaneamente se declarou maior, perderá a proteção da lei e não poderá eximir-se de
cumprir a obrigação, argüindo a sua anulabilidade (CC, art. 155). Também perderá tal proteção, sendo equiparado aos adultos, quando praticar algum ato ilícito (CC, art. 156).
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e) A anulabilidade é prescritível, em prazos mais ou menos curtos. A nulidade prescreve no prazo máximo de vinte anos (prescrição longi temporis). Encontra-se superado o antigo entendimento de que a nulidade é imprescritível. De acordo com o art. 177 do Código Civil, nenhum direito pode sobreviver à inércia de seu titular por tempo maior de vinte anos. Tal orientação foi consagrada na Súmula 494 do Supremo Tribunal Federal, que prescreve: "A ação para anular venda de
ascendente e descendente, sem consentimento dos demais, prescreve em vinte anos, contados da data do ato".
f) O ato anulável produz efeitos, até o momento em que é decretada a sua invalidade. O efeito dessa decretação é, pois, ex nunc
(natureza desconstitutiva). O ato nulo não produz nenhum efeito (quod nullum est nullum producit effectum). O pronunciamento judicial de nulidade produz efeitos ex tunc, isto é, desde o momento da emissão da vontade (natureza declaratória).
Deve-se ponderar, porém, que a afirmação de que o ato nulo não produz nenhum efeito não tem um sentido absoluto e significa, na verdade, que é destituído dos efeitos que normalmente lhe pertencem. Isto porque, algumas vezes, determinadas conseqüências emanam do ato nulo, como ocorre no casamento putativo. Outras vezes, a venda nula não acarreta a transferência do domínio mas vale como causa
justificativa da posse de boa-fé. No direito processual, a citação nula por incompetência do juiz interrompe a prescrição e constitui o devedor em mora (CPC, art. 219).