3. ESCOLARIZAÇÃO DE MENINAS NA BAHIA DO SÉCULO
3.2 ESTABELECIMENTO DE INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS E A ESCOLARIZAÇÃO DE MENINAS: PREENCHENDO OS VÁCUOS NA HISTÓRIA
3.2.2 Diferenças entre recolhimentos e conventos
A Igreja Católica se fez presente no Brasil desde o princípio da colonização e, desde então, os valores impostos pela Igreja em Portugal marcaram também a sua colônia. Embora houvesse uma política de povoamento – pelos brancos e para os brancos –, isso não impediu que conventos e recolhimentos se instalassem na Bahia, afinal, estava enraizada a ideia de que havia a honra para proteger, sobretudo das famílias mais abastadas, e uma riqueza para manter. Seria a clausura feminina, nesse sentido, o lugar ideal.
Sena (2005, p. 65), no entanto, alerta que:
Desde o princípio da Colonização, a atividade da Igreja Católica transferiu o modelo de clausura feminina que predominava na sociedade europeia para as sociedades de além-mar, nas quais ele ‘foi conservado, reforçado ou modificado de acordo com as necessidades das sociedades colonizadoras’ (RUSSEL-WOOD42, 1985: 78). Ao analisar esses interesses, Susan Soeiro e
Leila Algranti concordam que a política demográfica da Metrópole portuguesa com relação à sua colônia brasileira foi, em grande medida, responsável pela recusa em estimular a fundação de estabelecimentos que apartassem as mulheres do convívio social.
Há duas questões nesse excerto, o ato de conservar e reforçar, mas também de modificar o modelo de conventos e recolhimentos, e a política de proibição da criação desses espaços. Para a Bahia, o reconhecido poderio das elites da capital e de Santo Amaro da Purificação predominou diante da política da metrópole, desde a fundação do Convento do Desterro, em 1677, por solicitação da Câmara, até a autorização da última instituição, o Recolhimento dos Humildes, no início do século XIX. A fundação dessas instituições partiu da demanda da sociedade local e da resistência dos colonos, não foi uma política da Coroa em conjunto com a Igreja, como no caso das aldeias administradas ou dos seminários para formação do clero.
No momento de estabelecimento dos conventos e recolhimentos, muitas características foram mantidas, e reforçadas nas suas estruturas, afinal os espaços portugueses eram modelos para os de além-mar, e se mantinham com o intuito de proteger a moral na sociedade, a honra do homem, da família e da mulher – em ordem de importância. O sabor local, contudo, fez desses espaços locais peculiares, por vezes até mais flexíveis do que os discursos conservadores tentavam manter.
A exemplo, tem-se o recolhimento anexo à Igreja de Nossa Senhora do Parto, no Rio de Janeiro, idealizado e fundado, em 1754, por Rosa Egipcíaca, negra africana, ex-escrava e ex-
42 RUSSEL-WOOD, A. J. R. La mujer y la familia em la economía y em la sociedade del Brasil durante la época colonial. In: LAVRIN, Assuncion (Compiladora). Las mujeres latino americanas: perspectivas históricas. Mexico: Fondo de Cultura Economica. 1985.
prostituta, após uma revelação de Nossa Senhora, para abrigar “quantas alegavam permanecer no pecado por não terem lugar decente, nem condições- materiais de se afastarem do mundo imundo” (MOTT, 1993, p. 274-275). A historiografia oficial, no entanto, negou esse fato, alegando ter sido criado por D. Antônio do Desterro, sendo trazida à luz a versão que a contestou por Luiz Mott em Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil. Rosa, nesse processo, aprendeu a ler e escrever, conquistou a admiração de diversos padres e chegou, inclusive, a escrever, além de cartas, “visões, devaneios e profecias” (1993, p. 255).
Conforme Algranti (1992), o ideal de mulher, no Brasil colônia, se baseava em um código moral que buscava modelar a conduta feminina a partir da compreensão de que a honra da mulher era um bem pelo qual “todos os homens e também as instituições por eles representadas: a Igreja e o Estado” deveriam cuidar. “A honra feminina configurava-se então como um bem pessoal de cada mulher, uma propriedade da família, porque poderia atingi-la, e também um bem público, porque estava em jogo a preservação dos bons costumes exigidos pelo código moral (ALGRANTI, 1992, p. 127).
O enclausuramento das mulheres da elite43 seria, então, justificado pela necessidade,
pública e privada, de resguardar o código moral. A desonra da mulher, conforme Algranti
(1992) apresenta, estava vinculada à perda da pureza, uma questão sexual; enquanto a perda da
honra do homem estava vinculada a não ser covarde, uma virtude, ou pela desonra da mulher que estava sob a sua responsabilidade. À mulher era atribuída, então, a responsabilidade de honrar o marido e a família; o homem via sua honra, dessa forma, sujeita à mulher, por isso deveria assumir atitudes efetivas.
No caso da mulher contudo, o que se nota é a apropriação de um valor cívico – a virtude – pela moral. A mulher virtuosa foi durante séculos a pura, a casta, ou a fiel ao marido, e portanto honrada. Neste sentido, a honra feminina está longe de ser um privilégio de classe – como foi muitas vezes considerado para os homens – mas um bem que todas as mulheres possuem, desde que o preservem virtuosamente através da castidade ou da fidelidade. Para os homens, entretanto, a honra esteve ligada comumente aos atos de heroísmo, ao desempenho nas batalhas, enfim, às ações públicas. O inverso da honra para eles era a covardia. Daí aquele que temesse morrer para salvar a honra ser um covarde, e não merecer a estima dos outros. A desonra da mulher, por outro lado, vinculava-se à impudícia; tratava-se de uma ação desencantadora no âmbito da vida privada. Para ambos, porém, a desonra os cobria de
43 A política de enclausuramento visava, principalmente, a proteger ou punir as mulheres da elite. A mulher negra ou índia não tinha honra a ser preservada, pois a sua condição de escrava não a compreendia como gente; as índias não escravizadas geralmente se afastavam, com sua comunidade, não interagindo tanto com o europeu. Mulheres de outras condições sociais também tiveram acesso à vida nessas instituições, como as órfãs, especialmente as filhas de militares, que passaram a ser assistidas por ações filantrópicas com o objetivo de torná-las úteis ao Estado, seja preparando-as para o casamento, observado ao longo do período colonial, ou profissionalizando-as em ofícios como costureiras, mestras, professoras públicas etc., conforme ocorreu desde o início do século XIX.
vergonha e os excluía de uma comunidade de iguais, tornando-se um estigma até que fosse possível livrar-se dele (ALGRANTI, 1992, p. 126).
A autora destaca a importância da opinião social sobre uma pessoa, incluindo-a ou excluindo-a da convivência em sociedade, o que cada vez mais influencia na figuração, no comportamento dos indivíduos, na imagem que construíam de si mesmos, assim como Norbert Elias (1994) observou na sociedade de corte de que trata. Preservar a honra, torna-se, então, um condicionamento para a forma como todos devem se comportar, gerando padrões que passam a ser internalizados como uma “segunda natureza”, o habitus, incorporado inconscientemente. A guarda da honra não é a única motivação, soma-se à perspectiva econômica em
questão. O casamento era parte de um mercado. Era comum os homens “significativos”44
optarem pelo enclausuramento das mulheres por questões econômicas, pois o dote que se pagava para a mulher permanecer em recolhimentos ou conventos era menor que o dote que se pagava em um casamento. Era muito comum, por exemplo, os pais colocarem todas as filhas mulheres nesses ambientes.
Muito embora tenha se tratado dos recolhimentos e dos conventos como espaços de guarda da honra da mulher – seja por vontade própria ou por imposição dos homens “significativos” –, havia diferenças relevantes. Na Bahia, os recolhimentos dos séculos XVIII e XIX poderiam ter quatro objetivos: i) preparar moças e órfãs para o casamento (asseguraria- se um dote às mulheres); ii) recuperar a moral e regenerar as mulheres arrependidas; iii) formar a mulher na doutrina cristã e na educação civil e iv) acolher viúvas e mulheres abandonadas que buscavam levar uma vida penitente e com devoção (ANDRADE, 1992, p. 225-226).
Para que se pudesse obter autorização régia, era preciso constar, nos estatutos, que as mulheres deveriam ir por vontade própria. Mas era comum que os homens “significativos” as colocassem nesses espaços, caso elas os desagradassem de alguma forma, ameaçassem a honra, além dos casos de orfandade e viuvez. Havia ainda, nas famílias abastadas, o hábito de enviar as mulheres para recolhimentos e conventos na tentativa de pagar dotes menores e evitar que a fortuna da família fosse dilapidada.
As causas para ingresso nos conventos, a princípio, são diferentes. Objetivava-se formar mulheres “puras” para a vida contemplativa e/ou penitente através da imposição do hábito. Na prática, no entanto, as razões para entrar nesses espaços convergiam para as mesmas razões utilizadas para o ingresso em recolhimentos, considerava-se a possibilidade de pagar dotes
44 A expressão corresponde aos homens que estavam no mesmo núcleo familiar – pai, tio, irmão, filho – e que representavam a família no espaço público (ALMEIDA, 2003, p.20).
menores e, quando fosse desrespeitada a honra do homem “significativo”, poderiam ser espaços de depósito de mulheres.
A vida religiosa, por outro lado, foi um meio de as mulheres reagirem ao que se
considerava como destino, fugindo do matrimônio, praticamente obrigatório, para levar uma
vida de devoção. No âmbito religioso, elas poderiam assumir papéis que representassem maior autonomia diante da vida doméstica que teriam, como ser regente, mestra, porteira, enfermeira. No que tange às características de recolhimentos e conventos, em Honradas e devotas:
mulheres da colônia: condição feminina nos conventos e recolhimentos do Sudeste do Brasil, 1750-1822, Leila Mezan Algranti (1992) identifica, ao analisar os recolhimentos criados no
sudeste entre o século XVIII e o XIX, que não há diferenças expressivas entre esses e os conventos, em termos de estrutura e de funcionamento dos que se estabeleceram na região estudada. A dificuldade para obter a permissão para funcionamento de conventos fazia com que os idealizadores, para burlar o processo, pedissem autorização para abrir recolhimentos, já que, além da função da formação religiosa, seriam úteis ao Estado, na medida em que poderiam acolher órfãos, pobres, prostitutas, e, nos educandários anexos, preparar meninas para o casamento, conforme as novas demandas do processo civilizatório.
Para Suely Almeida (2003), em O sexo devoto: normatização e resistência feminina no
Império Português – XVI-XVII, ainda que haja semelhanças, entre conventos e recolhimentos,
as diferenças são significativas, uma vez que os recolhimentos são vistos como espaços de transição de práticas na história das mulheres. Para a autora,
[...] uma história das mulheres faz também aparecer, mesmo contra sua intenção, um imenso volume de constâncias e permanências. O historiador deve estar atento a essas constantes embora sejam apenas um dos aspectos dessa história, pois muitas vezes a insistência nos modelos do passado são formas e fórmulas de esconder as novas práticas, que estão a se imiscuir no presente. Portanto, a construção que o pesquisador faz quando aborda essa temática tem que estar atenta a esse jogo entre o velho e o novo e as novas formas que surgem desse imbricamento (ALMEIDA, 2003, p. 17).
Mesmo sendo comum a existência de conventos e recolhimentos em todo o Império Português, observa-se em seus estatutos, todavia, que em meados do século XVIII, a fundação de diversos recolhimentos no Brasil adquire um novo perfil: “encaminhar as mulheres a uma nova condição social, ampliando o seu papel de esposa e mãe, levando-as a transitar para o de educadoras dos cidadãos das nações em formação” (ALMEIDA, 2003, p. 18).
Ainda que houvesse a imposição de hábito em alguns recolhimentos – como no caso do Recolhimento dos Humildes –, prática comum aos conventos, consideram-se os contrastes.
Conforme Almeida (2003), enquanto os conventos têm por objetivo a vida de fé e o afastar-se do mundo, os recolhimentos visam à regeneração das mulheres que não se comportaram adequadamente conforme os “bons costumes”, o código moral, e visavam à formação e preparação de mulheres para cumprirem o papel que a sociedade designou para elas, receber viúvas, recolher mulheres que passavam a ter problemas com os homens responsáveis pela família ou mesmo com fins econômicos, para os pais pagarem dotes menores e/ou não dissiparem suas fortunas com o casamento das filhas.
Assim, mesmo que as recolhidas do Recolhimento dos Humildes passassem pela
imposição de hábito, elas assumiam o papel de educadoras de meninas e preparavam as
educandas para seguirem com o novo papel que se estabelecia: além do matrimônio, seriam educadoras dos futuros cidadãos do Império, conforme os valores utilitaristas do Iluminismo. Em outros recolhimentos, como em Recife, por exemplo, citados por Almeida (2003), estava explicitada em estatuto, também, a necessidade de formar as meninas órfãs para serem professoras, a partir do século XIX, como proposta de profissionalizar para civilizar.
Nesses espaços, as mulheres não seguiram apenas com o papel designado socialmente pelos homens, sem manifestar-se sobre o que discordavam. Além disso, em conventos ou em recolhimentos, as mulheres conseguiram ter uma vida mais ativa, na medida em que puderam assumir papeis até então restritos aos homens.