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3. DIFERENCIAIS DE SALÁRIOS

3.3. Diferenciais de salários e deslocamento pendular

Duas abordagens podem ser utilizadas para o estudo da relação entre deslocamento pendular e os diferenciais regionais de salários, são elas: a) Teoria do Capital Humano, motivada pelos trabalhos seminais de Becker (1974) e Mincer (1978); e b) Teoria da Procura por Emprego (TPE) por meio da abordagem de Rouwendal (1999).

Conforme ressaltado anteriormente, pesquisas como as de Gitleman e Wolff (1993), Gabriel e Rosenthal (1996), Kahn (1998), Fontes et. al. (2010) e Freguglia e Procópio (2013) encontram evidências de que os diferenciais salariais se associam com as características individuais, como sexo, idade, raça, entre outras, e com as características contextuais de uma determinada região, como mercado de trabalho, setor censitário urbano ou rural e demografia. Esses resultados criam espaço para a investigação sobre a natureza e a dimensão dos diferenciais salariais.

3.3.1. Aspectos teóricos do deslocamento: Teoria da Procura por Emprego

A Teoria da Procura por Emprego pode ser utilizada para avaliação dos problemas de deslocamentos da mão de obra. Por meio dessa abordagem, é possível explicar várias questões ligadas ao mercado de trabalho como desemprego, imigração e os deslocamentos pendulares. Segundo Hua (2001), ela também possibilita explica o viés de seleção que pode existir na decisão do indivíduo em ser um pendular.

31 De acordo com essa teoria, os trabalhadores enfrentam um processo de escolha entre estar desempregado e auferir benefícios7 ou estar empregado e auferir salários. Em casos extremos, os trabalhadores que estão desempregados aceitam uma oferta de trabalho se o salário líquido for maior do que o benefício do seguro desemprego, ou seja, eles escolheriam um salário que é máximo para determinada região. Em casos intermediários, eles enfrentam a escolha de aceitar a oferta ou continuar a busca por emprego. Se esses trabalhadores aceitam o emprego ofertado, eles são excluídos do processo de procura de empregos. Com isso, podem ajustar sua remuneração mudando para um local mais próximo ao local de trabalho (ROUWENDAL, 1999).

Assim, a utilidade instantânea de uma oferta de trabalho é dada por:

= , , (3.2)

em que w é o salário do indivíduo, r é a distância de deslocamento8 e x é um conjunto de características relevantes para o trabalho. Essa função é diretamente proporcional ao salário e inversamente proporcional à distância de deslocamento . Se o trabalhador está empregado ou desempregado, mas encontra-se insatisfeito com essa situação, ele possui inicialmente a Utilidade Instantânea . Todas as ofertas de trabalho podem ser tratadas como desenhos aleatórios a partir da função de densidade de probabilidade simultânea , , dado que todos os trabalhos podem ser avaliados pela média da utilidade . Assim, é possível obter a função de densidade de utilidades de oferta de trabalho ∗ :

=

� , , ≤ , , (3.3)

7

Esses benefícios podem ser, por exemplo, o seguro desemprego. Porém, quando trazida para a realidade do Brasil, esse benefício é temporário, sendo difícil afirmar que os trabalhadores brasileiros trocariam uma oportunidade de trabalho por uma situação de desemprego. Embora seja apenas uma abstração da realidade, a teoria permite a verificação da tendência da mobilidade dos trabalhadores. 8

Como o censo demográfico de 2010 não possui dados de distância de deslocamento, será utilizado como proxy para essa variável o tempo de deslocamento, assim como foi proposto por Rupert et al. (2010) e utilizado por Seneski (2003).

32 Supondo que todos os indivíduos são maximizadores ao longo da vida, sua utilidade vitalícia é um valor presente líquido dos fluxos das utilidades instantâneas. Além disso, os trabalhadores possuem uma utilidade mínima para qualquer posição com características particulares. Se a oferta de trabalho possuir uma utilidade maior que a da posição atual, ela será aceita. Por outro lado, se a utilidade da oferta de emprego for menor, ela será recusada (ROUWENDAL, 1999). O resultado desse processo é a utilidade de reserva, , pela qual se verifica a decisão do indivíduo em ofertar mão de obra e que pode ser representada matematicamente da seguinte forma:

= + � , , ≤ , , − , , (3.4)

em que � é o valor do percentual da chegada de novos trabalhadores no mercado e � é a taxa de desconto intertemporal. Consequentemente, a distribuição dos trabalhos que podem ser aceitos pelos trabalhadores , , é uma versão truncada da distribuição da oferta de empregos, que pode ser representada pela seguinte equação:

, , = { , , , > , , , ,

� , , ≤� , , ,

(3.5)

Com base em (4) é possível representar a utilidade de reserva em função da taxa de salário de reserva, que é o salário mais baixo que o trabalhador estaria disposto a aceitar para realizar um determinado tipo de trabalho. Sendo assim, o salário de reserva , baseado nas propriedades da utilidade de reserva, pode ser definido como:

= , , , (3.6)

Desta forma, a equação (16) permite concluir que o aumento na distância de deslocamento diminui a utilidade de reserva. Consequentemente, os trabalhadores devem auferir um aumento no nível salarial para compensar o aumento na utilidade de reserva (ROUWENDAL, 1999).

Troshchenkov (2012) sugere que a extensão desse modelo se baseia na ideia de que as despesas com moradia atual de um indivíduo podem diferir das anteriores.

33 Dessa forma, deve-se pensar que as alterações nos custos das moradias ocorrem não só devido à elevação dos custos monetários, mas também nas qualidades das residências. Devido a isso, a utilidade deve assumir a seguinte expressão matemática:

, , , − ∆ − ∆ (3.7)

em que ∆ é a diferença na distância de deslocamento para o trabalho com a mudança de residência e ∆ é a diferença no custo monetário implicado pelo deslocamento ao trabalho incluindo os custos de moradia.

A utilidade instantânea da oferta de emprego aceita, dado que não há mudança de residência, é expressa no lado esquerdo da expressão (7). O lado direito, por sua vez, contém as informações sobre a utilidade após a mudança de domicílio para um local em que a distância percorrida para o trabalho seja menor e dada às mudanças nos custos de moradia. A utilidade líquida a valor presente para a oferta de emprego aceita, para a qual é necessária ou desejada a procura de uma nova moradia sem que haja mudança do domicílio atual, pode ser expressa por:

= ∞ , , −� (3.8)

em que −� representa a nova taxa de desconto intertemporal, trazida a valor presente no tempo , da utilidade de manter-se no local de domicílio. Se ocorre a mudança de residência em � período de tempo depois que a oferta de emprego é aceita, a equação (8) pode ser reescrita como:

= � , , −� +, − ∆ − ∆ −� (3.9)

Logicamente se um trabalhador está ciente da possibilidade de procura de uma habitação após aceitar a oferta de emprego, ele aumentaria o nível da sua utilidade de reserva depois de se mudar. Assim, a nova utilidade instantânea terá o seguinte valor:

34 A alteração na utilidade ∆ devido à mudança no local de residência é derivada da equação do valor esperado de :

= � , , + ∆ −� (3.11)

Baseado nessas considerações é possível apresentar os aspectos teóricos que definem os salários dos indivíduos, com base na Teoria do Capital Humano.